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Escrito a quatro mãos por Daniel Abraham (The Long Price Quartet, The Dagger and the Coin) e Ty Frank sob o pseudônimo em conjunto de James S. A. Corey, Leviatã Desperta é o primeiro livro de uma série de Space Opera, publicado em 2011. Desde o seu lançamento a obra recebeu cinco continuações, além de ter sido nomeado para o Hugo Award de Melhor Romance e para o Locus Award de Melhor Romance de Ficção Científica, ambos de 2012, além de ter sido adaptado para uma série de televisão – a The Expanse –, produzida pelo Syfy Channel. As conquistas são merecidas. O título apresenta protagonistas muito bem desenvolvidos e uma história instigante, apesar de possuir lacunas que a tornam mais frágil. Acaba não sendo um material primoroso, daqueles fáceis de se levar o Hugo, mas seus conceitos são bons o suficiente para justificar as indicações, continuações, e também a série televisiva.
Na obra, os seres humanos colonizaram parte do sistema solar e conflitos culturais e ideológicos causam atrito entre os planetas interiores, a Terra e Marte, e o Cinturão, composto por diversas estações espaciais, apesar da sua interdependência econômica e científica. Grandes divergências existem entre os terráqueos e cinturinos, diferentes até mesmo devido à diferença de gravidade no ambiente em que vivem. Contudo, o que era desavença e preconceito logo se esquenta no princípio de uma guerra, quando o terráqueo James Holden, que trabalhava na Cantebury, uma nave cinturina, presencia o simples transportador de gelo ser destruído pelo, o que tudo indica, serem forças marcianas. Contudo, o detetive policial cinturino Josephus Miller, bem estabelecido na estação espacial Ceres, investigando o paradeiro de uma jovem terráquea, Julie Mao, acaba descobrindo que as tensões já eram esperadas por alguns figurões dos planetas interiores e que o mistério envolvendo Julie e a nave Scopuli – que fora usada de armadilha para atrair Holden – prenuncia uma grande conspiração e um futuro ainda mais caótico para a humanidade.
A narrativa da história é completamente voltada para os protagonistas. James S. A. Corey usa um estilo quase de série televisiva, onde os capítulos curtos vão alternando sem falta entre os dois personagens principais, Holden e Miller, o que acaba também trazendo passagens de tempo maiores do que em outras obras. O efeito mais óbvio dessa escolha é que ambos são muito bem definidos e trabalhados ao longo das mais de seisentas páginas do livro. E suas decisões acabam sendo fundamentadas com competência conforme suas histórias e personalidades são apresentadas e trabalhadas. Não é errado dizer que a dupla foi projetada para serem a antítese um do outro. Holde, terráqueo e jovem, é idealista, esperançoso e vibrante, enquanto Miller, cinturino, já é mais velho, cansado e pessimista. Compartilham o fato de serem quase obcecados por suas ideias e buscas, mas além disso, pouco compartilham em comum.
Essa estilo tão próximo dos personagens traz benefícios para uma trama sobre conspiração, mistério e também sobre as crenças pessoais de pessoas que vivem em polos opostos da sociedade, no entanto, nem tudo é auxiliado por essa narrativa. A obra pode mostrar apenas o que é do conhecimento dos personagens e o que eles mesmos percebem e dão atenção. Por isso, boa parte do que é descoberto ao longo da trama acaba não tendo uma boa apresentação prévia. Alguns mistérios revelados não impactam tanto, pois o ponto a que se referiam não recebe quase nenhuma menção nos segmentos anteriores da obra.
A própria guerra entre os planetas interiores e o cinturão parece algo distante, sem tanto a urgência e preocupação que os autores querem passar. Isso acontece por que em geral nem Miller e nem Holden estão envolvidos diretamente com os eventos e tampouco com a burocracia militar e administrativa em andamento, se limitando a ouvir passivamente às notícias. As informações são importantes e funcionam para levar adiante a história do sistema solar, mas parecem sem cor e definição, borrões que ficam de lado frente à psique e às dificuldades mais urgentes dos personagens. Isto poderia ter sido corrigido com a inclusão de um terceiro protagonista, um que ficasse mais próximo da Terra e de Marte, não transitando pelo universo, e que teria um contato e um conhecimento mais próximo dos elementos militares e empresariais que estão ligados à trama. Decisão que, aliás, foi tomada na série The Expanse, que adianta a introdução de um personagem que aparece apenas na continuação de Leviatã Desperta – Chrisjen Avasarala, um executivo das Nações Unidas – para mostrar pontos que Miller e Holden tem contato apenas pontual.
O estilo também acaba sendo precário no que trata as descrições. Buscando rapidez e até mesmo secura, além de tratar diretamente das percepções dos protagonistas, os autores economizam ao passar ideias de imagens de objetos e acontecimentos. Por si só, isso não seria um problema, mas muitas vezes o leitor é privado da grandiosidade espacial e fica limitado a um pensamento mais imediato dos personagens. Mesmo quando Miller ou Holden estão concentrados contemplando alguma visão, a descrição não faz jus á carga necessária para a cena e momentos que deveriam ser emblemáticos e memoráveis passam tão rápido que mal são lembrados mais tardes. Exigência editorial em uma história já grande ou decisão dos autores, não são poucos momentos em que se peca pelo “menos”.
Mesmo com esses grandes poréns na apresentação, a história criada pela dupla James S. A. Corey é interessante, bem bolada e oferece uma boa imagem para o futuro estelar da raça humana. O livro chega a tocar conceitos éticos e filosóficos como a xenofobia e entre os planetas interiores e o cinturão, e também na ideia de liberdade de informação, mas de forma superficial, sem querer que seja uma grande discussão na obra. Essas particularidades são apresentadas apenas como características da ambientação, assim como as questões de ficção científica como os motores Epstein, os efeitos das viagens espaciais sobre os humanos e a forma como se dá os combates das naves. Pontos bem situados e explicados de forma satisfatória, mas sem entrar em detalhes além do necessário para apenas servir de background para a trama e para a ambientação.
Isso tudo torna a obra um Space Opera e uma ficção científica muito satisfatória, mas existe um porém. O personagem de Miller é tão mais intenso e mais interessante que Holden que as suas partes no livro são as mais memoráveis. Mais do que isso, sua história ultrapassa as barreiras dos seus capítulos e consegue fazer com que o tom dos seus segmentos se sobreponha à própria temática da obra. Leviatã Desperta pode ter sido pensado como um space opera e escrito para ser um space opera, mas a presença de Miller faz com que a obra automaticamente soe muito mais um noir policial futurista. Assim como Holden – este um personagem menos surpreendente e impactante – fica remoendo a personalidade e o caráter de Miller, a bagagem do detetive fica impregnada até nas páginas onde não está presente, e todo o livro fica mais sombrio, pessimista e cansado devido à sua mera presença.
Leviatã Desperta é uma obra interessante e bem construída. De forma nenhuma um grande expoente na ficção científica, mas consegue conquistar o seu lugar e valer muito a leitura de suas mais de seiscentas páginas. Com uma ambientação sólida e personagens bem construídos, a obra pode agradar tanto veteranos quanto novatos na ficção científica, podendo decepcionar apenas os que estiverem buscando nela uma profundidade muito além do comercial ou grandes sequências de ação e combate. Sendo, portanto, uma boa publicação para o cenário nacional, e uma série cujas continuações serão muito bem vindas.





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