
Compre O Sol é Para Todos com desconto
Em seus 89 anos de vida, a escritora Harper Lee – falecida em 2016 – publicou apenas dois livros e com uma distância de 66 anos entre os dois. Isso não impediu que se tornasse uma das grandes escritoras do século XX. Pois O Sol é Para Todos, a sua primeira obra atingiu tamanho grau de excelência e relevância que figura em qualquer lista de melhores obras do século e se tornou um clássico instantâneo.
Atemporal e muito longe de estar ultrapassado, o livro lida com temas fortes como o racismo e a perda da inocência em uma pequena cidade americana em 1936, genialmente apresentando seus temas e histórias através dos olhos de uma garotinha travessa de sete anos. E não é apenas no conceito que a obra se sobressai, dos personagens à própria ambientação sulista rural, tudo é trabalhado com maestria.
A obra se passa em Maycomb, uma cidadezinha rural no sul dos Estados Unidos, e é apresentada por Scout, uma garota de 6 anos criada por seu pai, Atticus Finch, um advogado, e seu irmão quatro anos mais velho, Jem. Educada desde cedo por um pai solteiro e progressista, a protagonista é diferente do resto da cidade, brincando livre com o irmão em traquinagens, brigas e outras travessuras e atividades que não seriam adequadas para uma dama em formação. Em meio ás suas brincadeiras e percepções de criança, Scout acaba por descobrir e perceber as várias questões sociais que existem na sua cidade, fato que se acirra quando todos parecem se voltar contra o seu pai quando ele precisa defender em tribunal um negro que não só era inocente de um crime, mas também uma vítima.
Sem dúvidas, a maior amostra da genialidade da autora está na escolha da narrativa. Inspirada nela mesma em sua própria infância, a visão de Scout apresentando a trama, a cidade e suas diferentes sutilezas é um ponto crucial para como a obra é construída. A narrativa a partir dessa visão, uma primeira pessoa narrando o passado, com o eu lírico se lembrando dos tempos de criança, mas com uma certeza, detalhes e paixão que só a arte propicia, pode ser uma das melhores coisas que já foram na literatura.
É inegável que Harper Lee criou uma obra impar que galga os patamares da excelência com facilidade e elegância. A autora é uma mestre na narrativa, e através de Scout ela cria uma imagem vívida de Maycomb, de seus moradores e também de sua família. Está tudo ali, todas as sensações necessárias para se conseguir não apenas visualizar, mas sentir o mundo da menina. A forma como ela descobre o mundo, como entende as pessoas e as situações à sua volta conseguem trazer o frescor da infância onde tudo é incrível, estranho e maravilhoso. E em nenhum momento essas sensações vem de forma artificial. Scout, e por tabela os personagens mais próximos a ela, são construídos e apresentados com maestria espantosa, e tanto a forma como a garota bola suas impressões e pensamentos quanto o modo como ela percebe seu pai, irmão e conterrâneos são verossímeis, detalhados e em momento nenhum exaustivos. Sempre trazendo as lentes da inocência e da curiosidade, mas deixando claro as questões para além da ingenuidade por se tratar de um passado para o eu lírico.
A trama do livro demora para engatar. De início, um leitor desavisado pode ficar em dúvida sobre o que, realmente, trata a obra. Mas isso não é um problema. As várias passagens de Scout brincando com o seu irmão, descobrindo a escola, atazanando os vizinhos e interagindo não só com Maycomb, mas com o próprio conceito da cidade, são tão leves e bem escritas e moldadas que chegam a ser mágicas. E não se trata apenas de amostras gratuitas da capacidade da autora, a primeira metade da obra, onde tudo parece (quase) perfeito numa cidadezinha bucólica do sul é estritamente necessária para se apresentar os moradores, o pai de Scout, personagem tão importante quanto ela, e o clima e o tom da cidade. Não existissem essas passagens, os momentos seguintes, em que a jovem passa a não entender o que está acontecendo e precisa enfrentar uma dolorosa perda da inocência ao descobrir o que há de ruim na raça humana, teriam pouca força. Seriam incipientes.
Essa questão da perda da inocência é um dos temas recorrentes na obra. Ao longo da trama, diversos personagens precisam crescer, enfrentar seus nemesis e sair de um estado anterior de apatia e desconhecimento para enfim terminarem o seu batismo de fogo. E todos eles em algum momento sofrem uma derrota, sofrem uma decepção, e experimentam um lado desagradável da cidade que viveram e se acostumaram e vieram a gostar. Pelas palavras do pai de Scout, e então da própria menina, o Mockingbird – do título em inglês To Kill a Mockingbird – representa essa inocência, tanto num sentido figurado, quanto em um sentido legal. E “Matar uma cotovia”, um mockingbird seria um grande crime nas palavras dos personagens, pois é um pássaro que não faz nenhum mal, possui a sua beleza e vive melhor se deixado em paz.
Mas mesmo isso fica em segundo plano quando se trata das questões raciais. O livro se foca bastante em mostrar as diferenças entre os brancos e os negros na época, as interações sociais entre os dois grupos, e o que os negros precisavam enfrentar para simplesmente viverem as suas vidas. As pessoas aparentemente pacatas e humildes de Maycomb vão aos poucos revelando os seus preconceitos, ódios e inconsistências, sendo escassos os moradores que conseguem ser tão íntegros e respeitarem a igualdade, tanto no papel quanto na moral, quanto Atticus Finch.
Tendo sido criada por seu pai na forma que só ele seria capaz de fazer, Scout sequer entende a ideia por trás do racismo e da desigualdade, de início, embora ela tenha a suspeita, a impressão de que há algo de diferente entre negros e brancos. Ao decorrer da obra, no entanto, esta realidade é algo que ela acaba precisando descobrir, entender e também sofrer, conforme a questão do pai ser um “adorador de pretos” se espalha dos adultos para as crianças da cidade.
Apesar da seriedade dos temas, em nenhum momento a leitura se torna pesada. Tudo isso é apresentado pela leveza de uma criança de 7 anos e tais discussões são tratadas de uma forma diferenciada e emocionante. Talvez não seja o melhor método para se discutir e debater a questão do racismo e não se enquadre na preferência de muita gente sobre como tratar de uma questão tão delicada e importante para milhares de pessoas, mas como uma produção artística que busca lidar de forma consciente com tal preconceito, O Sol é Para Todos acaba sendo uma obra realmente poderosa.
O Sol é Para Todos é um livro simplesmente magnífico e que continua atual mesmo décadas após o seu lançamento. Sua leveza e simplicidade, que não se deixam cair no trivial, bem como os personagens e a narrativa genial devem agrada a maioria dos leitores. Nunca é de bom gosto afirmar que essa ou aquela obra é de leitura indispensável para qualquer pessoa. Cada um busca pelo o que se interessa e precisa descobrir a arte ao seu próprio ritmo. Mas se algo assim existisse, o primeiro romance de Harper Lee encabeçaria o topo da lista.