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Segundo romance protagonizado por Geralt de Rivia, mas o quarto livro da saga do Witcher, Tempo de Desprezo continua desenvolvendo a relação entre o bruxo e Ciri, além de acirrar as questões políticas dos reinos em guerra, pouco a pouco mostrando que a aprendiz de caçador de monstros e de feiticeira é o elemento mais importante da trama. Nesta obra, Andrzej Sapkowski elabora não só a trama de sua série, mas também seu estilo e estrutura, dando um ar único para cada capítulo do livro e trazendo alguns dos momentos mais memoráveis de sua saga.
O livro abre pouco depois do término de Sangue dos Elfos, preocupando-se primeiro com a geopolítica da guerra contra Nilfgaard para só então tratar dos personagens já conhecidos da série. Durante a obra, o bruxo Geralt continua em seus esforços para descobrir quem está atrás de sua protegida Ciri e de eliminar as ameaças que a cercam. No entanto, mais importante do que a jornada do caçador de monstros, é o caminho que tomam Ciri e Yennefer. Mestra e aprendiz se dirigem para a ilha Thanned, onde, à contragosto da jovem, a feiticeira pretende inscrevê-la na academia feminina de magia. O destino dos personagens, contudo, pode acabar não sendo o que pretendiam, pois a reunião de feiticeiros que acontece na ilha acaba trazendo consequências catastróficas pra os protagonistas e também para a guerra.
A primeira coisa a se observar sobre Tempo do Desprezo, é que ele oferece uma conclusão, ou pelo menos uma alteração à muitas das linhas narrativas que haviam sido estabelecidas no livro anterior. Sangue dos Elfos acaba tendo um final estranho e uma organização um tanto quanto indefinida e muitos dos eventos que lançam acabam parecendo que não foram bem desenvolvidos. O quarto livro da série corrige tudo isso, satisfazendo tanto no sentido de trazer uma leitura que passa uma sensação de plenitude quanto no retorno à qualidade das coletâneas de contos que iniciam a série.
Mas Tempo do Desprezo acaba fazendo mais do que nortear a saga de Geralt de Rivia. Nele fica mais claro que o autor tem em mente uma estrutura diferenciada. Cada capítulo da obra funciona quase como um conto, trazendo um tema, uma história e o seu próprio desfecho, ainda que quase sempre fique um gancho para o seguimento do livro. Até a divisão entre Sangue dos Elfos e Tempo do Desprezo talvez seja justificada por tal modelo, com cada livro tendo um tema e tom específico como objetivo.
Os acertos do autor vão além trama e de sua organização peculiar, contudo. Conforme Tempo do Desprezo avança, vai ficando claro que Ciri não é um mero plot device que motivo o bruxo e coloca a trama em seus trilhos. A leoazinha de Cintra é um personagem interessante e bem moldado, cujo crescimento é uma das melhores coisas que a saga Witcher tem para oferecer. É impossível negar que Geralt é um personagem muito atrativo, principalmente devido aos jogos que lhe prestam grande honra, mas a jornada de aprendizado de Ciri as vezes consegue lançar uma sombra no bruxo, sendo muito mais significativa e atraente. Sem dúvidas o witcher é o protagonista, mas a história de sua saga é mais sobre Ciri do que sobre qualquer outro.
Ainda assim, são os diálogos do bruxo, e não da jovem, que se sobressaem. Sapkowski demonstra mais uma vez que possui uma capacidade de criar diálogos cada vez mais impactantes para Geralt. As vezes é coisa bem simples, como um comentário breve usado no momento certo, uma piada de humor negro ou um cinismo rasteiro e quase doloroso que não passa batido nem pro leitor e nem para os outros personagens. Talvez seja justamente por isso que o capitulo do encontro de feiticeiros se sobressai. Para seu desgosto, sempre ligado aos eventos importantes, Geralt acaba participando desse jantar magicamente aristocrático, cheio de costumes estranhos, espionagem e armadilhas sociais. Durante a noite, ele precisa duelar com palavras contra diversos personagens novos e antigos, e acaba que o capítulo inteiro praticamente se mostra como uma grande conversa de inúmeros participantes, onde o que foi conversado com um respinga no que será falado com outro. E isso é apenas parte das sequencias fenomenais que a ilha de Thanned tem para oferecer.
Se existe um baque com a mudança das antologias de O Último Desejo e a Espada do Destino para o romance de Sangue dos Elfos, a questão é completamente resolvida em Tempo do Desprezo. É bem possível que um leitor fique com dúvidas no terceiro volume da série, estranhando as diferenças e ainda tentando se acostumar com a proposta de Sapkowski. Contudo, o quarto livro da trama consegue ser melhor do que todos os seus predecessores, oferecendo passagens memoráveis tanto em história quanto em forma e estilo, além de elaborar as relações entre os protagonistas, o mundo, e os vários coadjuvantes.