
Diferente de outras publicações de Star Wars, Herdeiro do Jedi não possui uma narrativa em terceira pessoa, trazendo dessa vez os acontecimentos pela visão e comentários do aspirante a Jedi, nosso herói Luke Skywalker, justamente na época em que tentava sozinho aprender mais sobre os caminhos da Força que lhe haviam sido apresentador por um agora falecido Ben Kenobi. Ao mesmo tempo em que lidava com sua crescente fama entre a Aliança Rebelde, por ter sido o único sobrevivente da famigerada Batalha de Yavin, quando destruiu a Estrela da Morte com um tiro certeiro de seu X-Wing.
No livro, encontramos Luke lidando à sua maneira com essas situações, enquanto pensa sobre a reviravolta que sofreu em sua vida, que até pouco tempo atrás resumia-se à fazenda de umidade de seus tios, assassinados pelas mãos do Império. Realizando pequenas missões para a Aliança, que resumem-se a angariar aliados políticos, armas, suprimentos e um local para que os rebeldes possam utilizar como base, Luke se vê em uma importante missão de resgate, quando a inteligência da Aliança recebe a informação de que uma genial criptógrafa chamada Drusil Bephorin pretende oferecer seus serviços em prol dos rebeldes, desde que ela e sua família sejam colocados em segurança. O grande problema é que Drusil está sendo mantida sob custódia do Império. Para esse trabalho Luke conta com a ajuda de uma nova personagem, recém integrada ao cânone, e que pode gerar alguma polêmica entre os fãs da série: a jovem Nakari Kelen.
Particularmente, considero a relação entre Nakari e Luke o grande atrativo do livro – lado a lado com suas descobertas sobre a Força, claro. Como a trama do livro é relativamente simples e se arrasta em diversos desdobramentos até alcançar seu clímax (que por incrível que pareça, é anti-climático), a diversão acaba ficando toda por conta de desvendarmos os pensamentos de Luke, que nessa época ainda não tinha ideia de que Darth Vader era seu pai, por exemplo. O jovem Skywalker é escrito com perfeição, mostrando que Kevin Hearne é no mínimo um grande fã da franquia, ou que pelo menos realizou um ótimo trabalho de pesquisa. Seu Luke é ingênuo, heroico, curioso, orgulhoso, e Hearne consegue transparecer nas páginas todas as nuances que vemos no personagem durante filmes. Características que aprendemos a amar.
Herdeiro do Jedi marca ainda a sua importância no cânone por mostrar como Luke aprendeu a mover objetos por meio da Força, além de já plantar indícios de como o personagem veio a aprender a construir um sabre de luz entre os episódios V e VI, onde surge com um sabre verde. Mas voltando a Nakari Kelen, Hearne ousa por inserir a personagem como um possível relacionamento amoroso para Luke, com o jovem Jedi chegando realmente a se render aos encantos da moça. Apesar de alguns não gostarem da ideia, a personagem é bem introduzida e bem trabalhada, com o relacionamento dos dois se desenvolvendo de forma natural, e ainda assim não atrapalhando ou descaracterizando qualquer evento futuro da franquia, e sim agregando ao personagem. Ao final do livro – que obviamente não me aprofundarei para evitar spoilers – na verdade passamos a entender melhor certos posicionamentos de Luke, e o porque dele ter se tornado algo tão próximo à figura de Obi-Wan Kenobi quando surge como um Cavaleiro Jedi em O Retorno de Jedi. Ao terminar a leitura, aumentei ainda mais a minha convicção de que o caminho correto para Luke no cânone é mesmo o de um solitário Jedi, fiel apenas à sua crença, como a Ordem pregava em seus dias de glória. O que por si só já elimina qualquer teoria do personagem ser o pai de Rey nos novos filmes, por exemplo.
De um forma geral, apesar da trama simplória e pouco importante dentro do cânone, o crescimento de Luke é algo interessantíssimo, preenchendo com perfeição as lacunas entre os filmes, e entregando um material digno para aqueles que pretendem ter um conhecimento maior acerca de suas ideias e convicções.