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Quem assiste a série animada Star Wars: Rebels – sucessora de The Clone Wars – já está bem familiarizado com o grupo de rebeldes liderados pelo ex-padawan Kanan Jarrus e a Twi’lek Hera Syndulla. Mas afinal, como eles se conheceram? É o que o autor John Jackson Miller se dispõe a contar em Star Wars: Um Novo Amanhecer, um dos primeiros livros do novo cânone da franquia, agora sob controle criativo da Disney, e que já foi publicado no Brasil pela editora Aleph. Seja como forma de apresentar os novos personagens, ou de “vender” a nova série, o importante é que o autor consegue contar uma boa história, recheada de elementos e detalhes que nos trazem todo o sentimento de estar novamente nessa galáxia muito, muito distante.

Um dos pontos positivos do livro é já nos colocar em uma situação confortável desde  o seu início, começando com o bom e velho Obi-Wan Kenobi ensinando jovens crianças que um dia viriam a se tornar Jedi. Em um livro que serve para apresentar novos personagens da franquia, tal ligação com personagens já consagrados se faz absurdamente necessária, trazendo aquela sensação de que estamos em casa, afinal. E o tema escolhido pelo autor é muito interessante, pois se trata de um dos eventos mais dramáticos e controversos do universo Star Wars: a famigerada Ordem 66. Somos apresentados ao jovem Caleb Dume, padawan da mestre Jedi Depa Billaba, e sobrevivente do trágico ataque onde o exército de Clonetroopers da República executou todos os Jedi devido a uma ordem secreta inserida em sua programação pelo Lorde Sith Darth Sidious. Extremamente jovem, ainda sem ter terminado o seu treinamento, e já se vendo em uma situação onde é caçado pela galáxia, o jovem padawan muda seu nome para Kanan Jarrus e passa a viver uma vida em fuga, pulando de planeta em planeta e sempre com medo de ser encontrado pelo Império.

E é assim que encontramos o protagonista do livro. Já adulto, acostumado a lidar com o Império, e decidido a nunca criar vínculos com ninguém, Kanan está constantemente tentando se desligar da Força, mesmo sabendo que isso é impossível para um Jedi. Durante a leitura, enquanto Kanan lembra de sua conturbada adolescência e início da vida adulta sempre se escondendo e tentando ocultar seus poderes, é inevitável a vontade em saber como foi essa trajetória, algo que infelizmente não é narrado no livro. Uma pena, mas compreensível quando lembramos que a Marvel publica a série em quadrinhos Kanan: O Último Padawan, que trata exatamente de mostrar como foi a vida do garoto após a Ordem 66. No livro ficamos sabendo apenas que Kanan vive se mudando e conseguindo pequenos trabalhos nos planetas por onde passa, sem nunca criar qualquer tipo de vínculo com os habitantes locais. Dessa vez trabalhando como entregador de explosivos para as minas da lua de Cynda, que orbita o inóspito planeta Gorse, Kanan acaba se envolvendo mais do que queria em uma trama que envolve diretamente a ganância e a corrupção do Império Galático.

Isso porque o local é um dos poucos na galáxia que ainda concentra uma boa quantidade de torilídio, um minério extremamente necessário ao Império, por ser a matéria prima utilizada para a construção de suas naves espaciais. Com tamanha importância estratégica para o Imperador, não demora para um emissário ser destacado para assumir a responsabilidade sobre a mineração no local, e assim surge o cruel Conde Vidian, um personagem criado por Jackson para a história, e que apesar de não ser exatamente um combatente e sim algo mais voltado para um diplomata, acaba sendo tão mortífero e perigoso quanto o próprio Darth Vader. Praticamente mais máquina do que homem, Vidian foi acometido por uma doença degenerativa alguns anos antes, precisando ter diversas partes de seu corpo trocadas por peças cibernéticas, e chega em missão ao lado da Capitã Rae Sloane, outra personagem criada por Jackson Miller e que pode ser vista também no livro Star Wars: Marcas da Guerra, onde já é uma almirante.

É em meio a esse cenário que Kanan acaba se vendo mais envolvido do que gostaria, seja emocionalmente ou por circunstâncias do destino, mas muito também pelo seu lado galanteador que o leva a querer ajudar a misteriosa Twi’lek Hera Syndulla. A personagem é muito bem introduzida na história, e a forma como o autor trata sua “missão” é muito bem desenvolvida, sem jogar na cara do leitor que ela faz parte de qualquer tipo de Aliança Rebelde, mas já deixando claro que existe alguma facção de insatisfeitos com o Império surgindo e ganhando força. Esse clima de insatisfação, aliás, é também algo bem estipulado por Jackson, que mostra com detalhes a corrupção e a crueldade utilizada pelo Império Galático para manter girando as engrenagens de sua máquina capitalista, dando pouca ou nenhuma importância para o povo. Portanto não demora para Hera conseguir os mais estranhos aliados em sua empreitada, como o mineiro bombista Skelly, a especialista em segurança Zaluna, e é claro, o próprio Kanan, que pela primeira vez se vê envolvido em algo maior e que simplesmente não é de sua conta, colocando em risco sua própria identidade como Jedi, escondida com tanto afinco até então.

 Se for para reclamar de algo da história, reclamaria do fato de Kanan simplesmente não usar o seu sabre de luz em momento algum da história, ao contrário do que indica a capa do livro. Até mesmo a Força só é utilizada pelo rapaz em dois momentos durante as mais de 400 páginas que compõem o livro. Obviamente, isso fica guardado para que atice mais a curiosidade dos potenciais leitores que irão procurar mais do personagem em Star Wars: Rebels, mas achei que nesse caso um pouco de fanservice não faria mal a ninguém. Salvo essa ressalva, o livro é excelente, e traz uma divertidíssima aventura no melhor estilo Star Wars, com espaço para batalhas entre naves, uma grande variedade de raças alienígenas (esteja com o google aberto caso não seja familiarizado com as espécies), e a boa e velha luta de rebeldes contra o Império. Quem já leu Kenobi, escrito pelo mesmo autor, sabe que John Jackson Miller é muito bom em criar jornadas ao melhor estilo dos clássicos western, e aqui não é diferente.

E se o objetivo, do ponto de vista comercial, era fazer com o que os leitores do livro se interessassem pela série Star Wars: Rebels, diria que pelo menos comigo, a missão está cumprida. A curiosidade para ver até onde irão esses personagens é grande, e o carisma dedicado a eles é tão bem trabalhado que faz você querer acompanhá-los em suas aventuras durante muito tempo. 

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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