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Nem sempre é fácil analisar aquelas obras aclamadas da cultura pop, produções de tempos passados que se tornaram que marcaram história e se tornaram clássicos de sua época e segmento. Algumas delas, muitas até, apresentam uma qualidade técnica e artística intrínseca, que não deixa dúvidas sobre a sua importância e é preciso muito pouco para entender o porque dela ter alcançado o estatuto de “marco”. Já outras acabam sendo mais mistas, com qualidades e defeitos – às vezes até mais defeitos – mas que conseguiram estabelecer uma estética própria e única, representar o espírito de uma época ou então simplesmente estar no lugar certo e no tempo certo. Akira, nome quase mítico no meio dos quadrinhos, representante não só de um segmento, mas também de uma ideia, tem seus vários pontos positivos, mas, no que consta o seu primeiro volume, se enquadra no segundo grupo.

Com mais de trinta e cinco anos desde o seu lançamento, Akira, de Katsuhiro Otomo, tem história. Lançado em 1982, década auge da cultura Punk e antecedendo até mesmo obras seminais como o romance Neuromancer, o mangá surge durante um período de retorno da Guerra Fria e numa época de intenso sentimento anti-establishment. Contexto este que acaba fazendo parte da cerne do mangá, que logo em suas primeiras páginas introduz uma Neo-Tokyo pós-destruição nuclear que é infestada de uma juventude transviada que faz da rebeldia a sua maior arma contra o governo e os militares. Não só representando o espírito de uma época que viu a cultura punk lentamente adentrar a cultura pop, a obra acabou por representar a própria produção cultural dos quadrinhos japoneses.

 

Akira foi levado ao ocidente em 1988, a obra de Otomo foi um dos primeiros mangás a serem traduzidos para o inglês e estabeleceu muito do que se imagina da estética dos quadrinhos japoneses, influenciando o gênero do Cyberpunk. Junto com Blade Runner, o mangá estabeleceu boa parte da estética que seria usada em trabalhos sobre futuros distópicos com conspirações pessimistas, tornando possível obras como Ghost in the Shell, outro grande expoente do gênero, e marcando tropes e clichês que são usados até hoje no segmento. Em 92, o anime também sairia do ocidente, e apesar de possuir uma história muito resumida da obra original, conquistou instantaneamente o estatuto de obra cultuada, marcando o imaginário de toda uma geração dos pioneiros ocidentais no que toca os trabalhos japonesas. Apesar de aos poucos ter tido sua fama diluída, Akira já foi – e de certa forma ainda é – um sinônimo para mangá. Uma obra lendária, memorável e cheia de ícones (quem não tem a imagem de Kaneda em sua moto gravada a ferro na memória?).

Ainda assim. Apesar da lenda, da fama e do carinho dos fãs, o seu primeiro volume está longe de ser perfeito.
É inegável o esmero de Katsuhiro Otomo em sua obra. Apesar de Akira ser uma obra voltada para o entretenimento, não é de forma nenhuma leviana, e consegue abordar temas atemporais em sua construção. Apesar de nunca expor diretamente o pensamento, a primeira edição da obra traz um claro sentimento anti-guerra e antimilitarista, apresentando as consequências sociais de uma terceira guerra mundial e criando uma imagem de um exército conspirador e controlador, disposto fazer experiências com civis apenas por que eles estavam no lugar errado e na hora errada. A obediência civil é enaltecida. Os rebeldes recebem uma exposição positiva, embora a gangue de motoqueiros delinquentes sejam os grandes heróis, desprezando tanto exército quanto sociedade, mas não se deixando dominar por métodos facistas dos militares.

Contudo, apesar de fazer boas introduções sobre esses elementos dentro da ficção, o autor não elabora muito nenhuma dessas particularidades. O grupo de rebeldes, do faz parte a personagem Kei, única garota da trama, mal possui história, método ou motivos nesse volume, estando lá quase porque é algo que deveria ser natural. Os delinquentes da gangue de Kaneda, por sua vez, apesar de serem bem fundamentados dentro de sua própria cultura, acabam não tendo uma abordagem mais refinado. Em um ponto de vista quase infantil, eles usam drogas e fogem da escola, e se metem em brigas e violências porque é tudo “cool”, mas em nenhum momento esta rotina é tratada de forma madura. Acaba parecendo que são apenas rebeldes com a causa de serem heróis da história.

Ainda assim, o autor consegue pintar uma imagem interessante de Kaneda e da gangue, tomando tempo para apresentar como é a situação escolar do grupo, como interagem entre si e alguns de seus outros passatempos que não envolvem corridas de moto. A relação de Kaneda com os outros não é tão explorada, mas é introduzida em mais de um momento e de forma competente o suficiente para que se perceba os laços de amizade e lealdade do grupo. Não se pode dizer, contudo, que nenhum de tais personagem é complexo ou multifacetado. Todos são quase exemplos perfeitos dentro de seu meio, não apresentando nenhum traço negativo dentro de sua própria lógica, apenas alguns traços de caracterização. Não só à parte e rebeldes em relação à sociedade, estão quase acima da própria humanidade, não tão diferente dos vampiros hedonistas e arruaceiros do filme Garotos Perdidos, lançados em 87.

Se o próprio Kaneda e seus amigos secundários não sofrem muitos problemas quanto a apresentação de sua vida na gangue, o antagonista inicial da história, Tetsuo, acaba sendo prejudicado de forma imperdoável. O mangá abre com uma sequencia de corridas de moto noturnas da gangue, e logo nela já acontece o evento que inicia a trama principal de Akira, fazendo com que Tetsuo seja levado para um lugar desconhecido e seja colocado no caminho para o antagonismo. Contudo, esse contexto perde muito a força porque em momento nenhum a história mostra de forma efetiva a relação dele com o resto da gangue – e principalmente com Kaneda – quando todos eram amigos e tudo estava bem e normal. Mais tarde, o mangá mostra cenas de interações amigáveis entre Kaneda e Tetsuo, mas já acontecem atritos na relação dos dois, e o efeito de criar laços com o passado de Tetsuo não é conseguido. Uma falha muito grande – e até amadora – no roteiro do mangá.

Se o personagem Tetsuo não recebe tão bom tratamento, pelo menos a rivalidade entre ele e Kaneda é bem desenvolvida. O primeiro volume do mangá funciona para estabelecer os princípios da trama e da ambientação e também para apresenta a formação da inimizade entre os dois personagens. Ela evolui de forma convincente no lado das reações de Kaneda, que demora para acreditar no que está acontecendo e até mesmo se preocupa com Tetsuo. Já as reações de Tetsuo não ficam tão claras devido á falta em apresentá-lo em seu estado normal, mas uma possibilidade interessante para os seu comportamento é ele se ressentir de ser mais jovem, menos capaz e estar abaixo na antiga hierarquia da gangue, além de possíveis desequilíbrios devido aos efeitos colaterais dos poderes psíquicos que ele desenvolve.

Coisa semelhante acontece com Kei, a única personagem feminina relevante do primeiro volume. A personalidade dela é bem estabelecida, seus modos são bem desenvolvidos, e o leitor identifica ela como uma protagonista da história. De gênio forte e cheia de seriedade, ela não se impressiona com os modos de Kaneda e de ninguém, em momento nenhum sendo colocada como uma donzela a ser salva. Aliás, ela em geral sempre aparenta ser mais madura e capaz do que Kaneda, sendo sua filiação a um grupo rebelde uma das coisas que a coloca como estando acima do delinquente. No entanto, assim como Tetsuo, os rebeldes não recebem muita atenção ou razão de ser no primeiro volume, o que torna parte da história da personagem vazia e carente. Quem são eles? Porque lutam? Responder isso não parece importante ao autor, apenas que eles existem.

No entanto, não são esses os maiores defeitos da obra. O maior problema que existe em Akira é que Katsuhiro Otomo não é muito bom com o ritmo e suas passagens de quadro são, no mínimo, canhestras. A história do primeiro volume é boa – apesar de não excelente fora do seu próprio contexto – e estética levantada e fomentada pela obra são fenomenais, mas tudo parece acontecer em um ritmo muito artificial sem delimitar muito bem o tempo e em vários segmentos é até um pouco complicado seguir a construção que um conjunto de quadros querem passar. Uma técnica imperfeita, sem dúvidas, mas que de alguma forma colabora com a poética do anarcopunk que circula Akira. Um traço de humanidade e rebeldia que – acidentalmente ou não – se insere muito bem na composição do todo, ecoando de forma interessante com os panoramas pobres, sujos e desorganizados de Neo-Tokyo.

E falando em Neo-Tokyo, Otomo faz um ótimo trabalho em caracterizar a cidade. A arte do pano de fundo que apresenta a ambientação é bem feita e bem escolhida e as várias passagens mostrando os horizontes do lugar conseguem criar o clima apropriado para a história, claro que, sem sair de toda a ideia do punk. Nesse sentido, o trabalho de Otomo em personificar Neo-Tokyo chega a ser tão bom quanto o que Frank Miller fez em seu tempo á frente do Demolidor. Mas as qualidades dos traços do mangaká não terminam aí. Se ele parece ter dificuldade com o ritmo e o encadeamento dos quadros, individualmente os desenhos são muito bons, no ângulo certo e na medida certa para ter o seu melhor efeito. As expressões dos personagens também são muito boas. Mais diversas e características que na maioria dos mangás, conseguem conservar uma dose de verossimilhança e não saem tão exagerados quanto várias outras obras japonesas. Além dos próprios rostos dos personagens, os seus trejeitos e modos denotados pela arte conseguem muito bem lhes passar uma identidade, apesar de deslizes pontuais.

Não, Akira não é uma obra perfeita, neste primeiro volume o autor oscila entre o muito bom e o quase amador. No entanto, o mangá é 100% autêntico, possuindo uma identidade e que foi responsável por ajudar a estabelecer alguns segmentos da cultura pop. É uma obra lendária e que merece a leitura e o tratamento que foi dado pela JBC faz jus a sua importância no meio artístico dos quadrinhos. Ainda assim, é possível que alguns leitores mais jovens, ou menos experientes, tenham dificuldade em aproveitar o material. Quanto a isso, pequenos gafanhotos, tenha paciência. É respirar fundo, buscar entender a proposta, a época e a formulação da estética, e tentar adentrar no mundo e no contexto de Akira. Aos que já viram o filme, não se preocupem, só nesse volume 1 há bastante para valer a leitura. E de qualquer forma, uma obra tão relevante para os quadrinhos quanto o magnum opus de Katsuhiro Otomo não se trata meramente de ler uma história, mas de ter uma verdadeira experiência estética.

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