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A reintrodução de um personagem nos quadrinhos pode ser uma questão complicada. Não basta o roteirista contar bem uma boa história e ter aquela sincronia com o artista, ele precisa fazer tudo isso enquanto deixa claro as mudanças de tom, personalidade e estilo que envolvem o personagem. Problemas nesse tipo de introdução, bem como nas novas concepções, podem comprometer a revista por bastante tempo, e até mesmo trazer uma mancha no nome dos envolvidos.

No caso do Arqueiro Verde, foi o roteiro de Benjamim Percy (Novos Titãs), e as artes de Otto Schmidt (A Saga de Korvac) e de Juan Ferreyra que ficaram responsáveis por revitalizar o herói na nova fase da DC, o Renascimento. E embora existam boas ideias na HQ, é por bem pouco que se conseguiu um pontapé inicial satisfatório para o personagem. Cheia de probleminhas de apresentação a revista se safa por leve e refrescante, mas na soma de tudo, não consegue encher os olhos.

Na edição, Oliver Queen já está bem estabelecido como o Arqueiro Verde e patrulha as ruas promovendo a “justiça social”. Ao investigar o caso do sumiço de moradores de rua, seu caminho acaba se cruzando com a da Canário Negro, com quem havia tido apenas um breve contato nos Novos 52. Trabalhando juntos para desvendar o mistério, acabam descobrindo a operação de uma organização secreta chamada O Nono Círculo, que atua como uma espécie de banco para o mundo do crime, além da cruel descoberta que a empresa de Oliver pode estar envolvida com esse novo grupo de vilões.

Dentro dessa história, Percy faz um trabalho interessante de estabelecer a personalidade e motivo do Arqueiro Verde. Há um esforço em representá-lo como um herói dos oprimidos e deixar clara a sua veia liberal – no sentido voltado para o social, não no econômico como se costuma usar no Brasil – em defender as minorias e se opor ao que percebe ser as injustiças do modelo capitalista. Até a escolha do grupo vilanesco, o Nono Círculo, criado para essa abertura no Renascimento, reforça essa ideia, colocando o herói lutando contra banqueiros corruptos e malignos que predam os desfavorecidos, funciona, e muito bem, para denotar essa ideia.

Contudo, se a escolha do vilão foi muito boa e a concepção do Nono Círculo um bom acréscimo à mitologia do Arqueiro Verde, o roteirista falha em quase todo o resto que tenta estabelecer sua personalidade. As duas primeiras edições do encadernado são focadas quase que exclusivamente em apresentar o Arqueiro em sua nova existência no Renascimento, utilizando a presença da Canário Negro para justificar as várias explicações que o personagem faz sobre si mesmo.

De início a Canário considera Oliver um hipócrita riquinho e mimado que finge que se importa com questões sociais, mas que no fim das contas faz parte do sistema, e, já interessado na heroína e também buscando defender a sua honra, ele se esforça para mostrar que não é assim. Não se pode negar que na HQ isso funciona para estabelecer esse lado da caracterização do personagem – que foi muito pouco explorado nos Novos 52 –, contudo tudo fica tão rápido e forçado, tão jogado na cara do leitor, que de forma nenhuma se consegue um bom efeito. Ao invés de apelar para vários diálogos – diálogos estes que muitas vezes mau escritos e canastrões – teria sido melhor para a revista uma abordagem mais sutil e, principalmente, mais bem distribuída entre todo o arco.

As interações entre Oliver – de novo com seu cavanhaque – e a Canário são boas, e é interessante vê-los juntos e iniciando um relacionamento depois de tanto tempo que isto foi apagado da cronologia. A dinâmica entre o casal e Emi, irmã do Arqueiro Verde introduzida nos Novos 52, consegue funcionar bem. Mas ter atolado as primeiras edições em caracterizações forçadas prejudicou a história em nível estrutural, assim, tanto a trama quanto a exposição do personagem ficam ambas prejudicadas. O ideal seria uma história mais simples e mais focada em ir apresentando o Arqueiro.

O que salva a revista é que os conceitos utilizados são interessantes, e a ideia do todo é boa. Mesmo pecando na execução, a obra consegue ter seus atrativos e uma leveza que colaboram muito para ser palatável. Fosse mais pesada, talvez acabasse ficando simplesmente ruim.

Se o roteiro tem seus defeitos, o mesmo não pode ser dito da arte – ou das artes. A primeira metade do encadernado, com a arte de Ferreyra, com um estilo leve e colorido que presta um ótimo serviço ao dinamismo e aos momentos de ação. Quando os traços e as cores passam a ser de Schmidt, a revista perde um pouco de sua autencidade, em nível de qualidade, ele não está nada abaixo de seu predecessor, sendo até melhor em algumas circunstâncias, mas não se pode deixar de pensar que os traços – e principalmente as cores – anteriores eram mais interessantes e casavam melhor com essa nova história do Arqueiro Verde.

O primeiro volume do Arqueiro Verde não decepciona, mas também não maravilha. É uma obra que pode divertir a maioria dos leitores e acaba valendo o investimento por ser o primeiro volume. É de se esperar uma melhora nas edições seguintes, visto que o roteirista poderá se concentrar apenas na trama. De uma forma ou de outra, a HQ vale pela arte, que possui disposições interessantes de quadro, bom uso das cores e uma narrativa mais dinâmica e interessante do que a rigidez que muitas obras acabam tendo.

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