Comentários

Em 2017, a Ubisoft repaginou a sua franquia de maior sucesso, Assassin’s Creed, que vinha passando por um processo de saturação com lançamentos que já não traziam mais qualquer originalidade e que vinham amargando notas e vendas cada vez menores. Assassin’s Creed Origins foi a resposta a esta situação, e não poderia ser mais bem sucedido. Vendendo mais do que o dobro do capítulo anterior, Origins revitalizou a franquia, apresentou um gameplay mais robusto em uma nova engine, e inseriu os elementos de RPG que pautariam a série principal dali em diante.

Na sequência, vieram Odyssey e Valhalla, que seguiram as tendências de Origins e pesaram a mão no RPG – e não apenas isso, mas usaram e abusaram também da fantasia. Essa soma de fatores fez com que muita gente (especialmente jogadores mais antigos) começassem a reclamar do distanciamento da série de suas raízes; afinal, para se ter uma ideia, os protagonistas dos dois últimos games sequer eram assassinos (ou ocultos, como são chamados nesse período). Assim, quando uma das DLC’s planejadas para Assassin’s Creed Valhalla começou a tomar uma proporção grande demais, a Ubisoft decidiu que seria bom não apenas transformá-la em um jogo completo, mas também (por que não?) trazer uma espécie de “volta às origens”.

Dessa forma, surgiu Assassin’s Creed Mirage, um retorno ao clássico não apenas em escopo (com uma duração bem menor que a dos últimos jogos) mas também em tom e narrativa. Dessa vez, voltamos à pele de um Oculto/Assassino, Basim, um dos personagens vistos em Valhalla. Visitamos o passado desse personagem, seguindo a sua jornada de um batedor de carteiras em Bagdá para um membro da Ordem dos Ocultos. Mas será que essa promessa de “retorno aos clássicos” pode ser levada ao pé da letra? Seria esse um jogo para agradar apenas ao jogadores mais antigos? Ou seria o contrário, apenas mais um jogo de RPG com uma skin de Assassin’s Creed raiz? Bem, digamos que Mirage é um pouco de cada. 

Assassin's Creed Mirage na BGS
Reprodução/Ubisoft

Como citado, acompanhamos o início da jornada de Basim, e só isso já é o suficiente para trazer aquela nostálgica sensação de fazer parte do Credo. Não à toa, a Ubisoft se aproveita disso, despejando boas doses de lore para os mais imersos na série. Basim se junta ao Credo, conhece sua base, recebe treinamento, aprende todas a regras, princípios e ideologias dos Ocultos, e passamos por tudo isso de uma forma como nunca antes vista na franquia (talvez o mais próximo disso tenha sido em Assassin’s Creed Unity). Assim, no que se refere a estar de fato inserido na Ordem dos Assassinos (Ou Ocultos nesse caso) o game realmente entrega uma sensação que não entregava há anos. 

Essa sensação, é claro, estende-se para o design de quests, mas engana-se quem pensa que estará praticamente jogando uma reimaginação dos primeiros jogos da franquia. Embora os elementos RPG tenham sido (muito) amenizados e exista um foco em resolver as situações com o uso do stealth e dos assassinatos às escondidas, é preciso lembrar que, antes de qualquer coisa, Mirage seria uma DLC de Valhalla, e portanto conta com a mesma engine e muitos dos mesmos assets. Assim, obviamente, existem muitas similaridades entre os dois jogos. 

A mobilidade de Basim é basicamente a mesma de Eivor, protagonista do jogo anterior, com a mudança apenas de que Bagdá possui uma arquitetura de prédios e instalações interligadas que propiciam o parkour muito mais do que a aventura viking. Da mesma forma, conforme já citado, existe um cuidado na direção de questlines para que o jogador precise trabalhar muito mais nas sombras, o que intensifica esse senso de estar de volta às raízes. Mas esse é o ponto. Trata-se muito de uma mudança de tom e direção, mas não de jogabilidade. Não espere a mobilidade e o parkour de Assassin’s Creed Unity, por exemplo, que muita gente acreditou que seria recriado neste jogo. Tampouco espere pelo sistema de batalhas antigo, que contava basicamente com um simples apertar de dois botões na hora certa; Mirage conta com o mesmo gameplay de batalha dos últimos jogos, com um sistema de defesa, ataque e esquiva – bastante inspirado nos soulslike que tomaram a indústria de assalto na última década.

Reprodução/Ubisoft

Portanto, sim, esse “retorno às raízes” se dá muito mais por uma questão narrativa. O jogador é conduzido a viver uma experiência clássica, o que é um ponto muito positivo da direção do game, aliás. Para isso, vários dispositivos são adicionados ao gameplay, reforçando um estilo de jogo que prioriza as habilidades de um Oculto. Itens que muitos jogadores sentiam saudades, como bombas de fumaça e facas de arremesso estão de volta, tornando o gameplay furtivo muito diverso e possibilitando diferentes estratégias.

Para que tudo isso tenha sentido, é claro, os assassinatos são o grande foco do game, na maioria esmagadora das missões. Nesse sentido sim, temos um total retorno aos jogos mais clássicos da franquia, onde precisamos seguir pistas, ouvir segredos e fazer toda uma investigação para encontrar nossos alvos e, só então, planejar e melhor estratégia de ataque. 

No entanto, ainda é possível sim resolver as situações propostas pelo game de formas mais… intensas. No entanto, há um preço para isso. Agir fora das sombras, tocando o terror à luz do dia para que todos te vejam, vai resolver a situação mas virá com um gosto amargo. Basim passará a ser procurado por Bagdá, em um sistema que passa por diferentes níveis e que dificultará a sua locomoção. Afinal, dependendo do seu nível de procurado, até mesmo cidadãos comuns poderão criar caso diante da sua presença – o que vai gerar a desagradável presença de guardas. Existem métodos de diminuir o seu nível de procurado, é claro, como arrancar os cartazes com o rosto de Basim espalhados pela cidade – mas talvez muita gente comece a achar preferível seguir a linha furtiva.

Reprodução/Ubisoft

E por falar em Bagdá, sim, a cidade é muito bonita. A Ubisoft não costuma errar na ambientação, sendo esse sempre um dos pontos mais fortes de Assassin’s Creed desde os seus primórdios, mas é preciso citar que não há nada de realmente impactante nesse aspecto. Como já dito, Mirage utiliza a mesma engine e muitos dos mesmos assets de Valhalla, então a verdade é que não há muito espaço para inovação nesse sentido. Os NPC’s da cidade seguem aquele mesmo padrão básico, seguindo um script de comportamento que não compromete mas que também não ajuda na imersão. E como o escopo é menor, não espere por um mapa muito grande; Bagdá na verdade está mais para as últimas duas localizações das expansões de Valhalla: Irlanda e Paris.

A impressão que fica, é que Mirage é, talvez, uma experiência da Ubisoft. Misturando as duas fórmulas utilizadas na franquia, o estúdio parece buscar um ponto comum que agrade diferentes estilos de jogadores. E particularmente? Acho que foram muito bem sucedidos nisto. Embora não inove em nada (afinal essa nunca foi a ideia), Mirage é um produto sólido, que consegue mesclar bem o melhor de dois mundos e oferecer uma proposta muito divertida. Na verdade, se tivesse uma duração um pouco maior e uma história menos básica e que conseguisse se desvencilhar melhor dos clichês que levam a um final já esperado, poderia facilmente figurar entre os jogos lembrados pelos fãs com mais carinho. No entanto, deve ficar mesmo naquele espaço reservado aos jogos transicionais de geração. Quem aí lembra de Assassin’s Creed Rogue?

Leia mais sobre Assassin’s Creed Mirage:

Assassin's Creed Mirage
  • Desenvolvedora: Ubisoft
  • Publisher: Ubisoft
  • Plataformas: PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox One, Xbox Series X|S e PC
  • Review feito no: PlayStation 5
  • Também testado no: PlayStation 5
Nota 8