
Às vezes… às vezes eu acho que o Asilo é uma cabeça. Estamos dentro de uma cabeça que nos sonha. Talvez seja a sua cabeça, Batman. Arkham é um país dos espelhos. E nós somos você.
É o que diz o Chapeleiro Louco em uma linha reveladora de “Asilo Arkham: Uma séria casa em um sério mundo”. O material explora o relacionamento de Batman e sua famosa galeria de vilões, além de contar histórias do fundador do lugar, Dr. Amadeus Arkham, e dos encontros de Batman com os habitantes do asilo.
A história do Dr. Arkham é contada através de seus diários e colocadas ao lado do que ocorre com o Batman no asilo e o efeito que ele e os vilões possuem uns sobre os outros. Grant Morrison conta um conto de Batman e sua família de vilões, um conto adulto, cheio de simbolismos e interpretações diferentes. O material nos faz pensar que Batman é mais similar aos seus antagonistas do que ele mesmo acredita.
Ao lado de Morrison, temos o artista Dave McKean, famoso por seus trabalhos com Neil Gaiman, porém, seu trabalho é tão poderoso quanto o roteiro. As imagens são surreais, lembrando filmes de horror, ainda assim, cheias de expressão. Esta história de símbolos e loucura consegue chegar a um nível absurdo, graças à imaginação de Morrison e o talento de McKean. A sinergia dos dois faz com que a graphic novel seja reveladora, madura e altamente inteligente.
Como dito, o relacionamento entre o simbolismo e a loucura é o ponto alto deste material. O simbolismo do tempo, traduzido pelo relógio, aparece através da história do Dr. Arkham, assombrando seu mundo. O tempo é um pano de fundo para a tragédia e a angústia que permeiam seu mundo. Em várias cenas do material, podemos perceber a presença de engrenagens do relógio (inclusive na capa), acrescentando uma sensação de uma lenta tomada da loucura, O simbolismo do tempo também está presente na história do Batman, ele entra no Asilo em 1 de abril (dia da mentira), o que é especialmente apropriado, visto que o Coringa o convida para entrar neste dia. Um trágico uso do relógio cuco e sua inocência é um símbolo de perversão, espelhando o renascimento de Bruce Wayne como Batman. Os simbolismos estão em todos os lugares, basta olhar.
Batman como um símbolo é totalmente abraçado por Bruce Wayne quando o Comissário Gordon diz que ele entende se estiver com medo de entrar no asilo sozinho. Batman responde:
“Batman não tem medo de nada. Ele é grande demais para ter medo. Sou eu. É de mim que tenho medo. Medo de que o Coringa esteja certo sobre mim. Às vezes… questiono a racionalidade de minhas ações.
Tenho medo de que, quando atravessar os portões do Asilo… quando entrar no Arkham e as portas se fecharem atrás de mim… Eu me sinta voltando para casa.”
Obviamente, Batman é um símbolo para Bruce, um símbolo que o protege contra seus inimigos. Mas ao perceber que ele é exatamente como seus inimigos por causa do conforte de uma identidade alternativa, ele sabe que ele está à beira do precipício da insanidade. O medo que Bruce Wayne sente como homem, vai além da máscara. É um medo racional. Ele sabe que se vestir como Morcego não é normal, ainda assim, isso faz com que ele se sinta mais forte contra seus inimigos. Quando Batman entra no Asilo Arkham, McKean cria uma linda imagem espelhada de quando Amadeus entrou no asilo, algumas páginas antes. Entretanto, quando Batman entra, a atmosfera é bem mais sombria. Esses dois homens, um do passado e outro do presente, se tornam mais similares à medida que a história progride. A conexão se torna assustadora e revela muito sobre o herói.
O Coringa e o Batman são mostrados como completos opostos aqui. Enquanto o Batman caminha entre imagens e simbolismos, encontrando significados em objetos e ideias, o Coringa é o verdadeiro agente do caos. Dra. Ruth observa que o Coringa não tem controle sobre a informação sensorial que ele recebe do mundo, o que faz com que ele gere todo o caos. Ela observa que em alguns dias, ele é um palhaço travesso, enquanto em outros, ele é um psicopata assassino. Ele não tem uma personalidade real. Ele se recria todos os dias. Ele vê a si mesmo como rei de um mundo em que o absurdo é a lei. Enquanto isso, Batman tem completo controle de si mesmo e de tudo que ocorre ao seu redor. Ele controla seu mundo para se tornar algo que traga conforto a si mesmo e para destruir a maldade que causou tanta dor. Batman é o senhor das regras, ordem e da ideia de que o bem sempre vence o mal. O Coringa desenhado por McKean é a representação da loucura, da feiura e da deformidade. Sua face é vista distorcida em uma horrível massa de barro, formada como uma máscara. Porém, vemos que ele é visto diferente a cada página, mostrando a natureza caótica do personagem e o horror que ele traz para quem ele escolhe matar ou torturar.
Quando o Coringa pede para a Dra. Ruth e o Batman começarem um jogo de associação de palavras, Batman diz que não tem medo, que são apelas palavras. Porém, McKean e Morrison vão fundo na cabeça do Morcego com essas associações. A cada palavra que a doutora fala, vemos uma imagem, um símbolo da história do Batman. A palavra “mãe” faz com que ele se lembre de “Pérola”. E a imagem de um colar se quebrando aparece. Ao lado, vemos uma imagem de uma freira rezando. As imagens religiosas estão presentes no livro e trazem uma nova dimensão para a interpretação. Quando a palavra “Arma” é mencionada, ele se lembra do “Pai” e um desenho de um boneco de palito é mostrado na frente de alguém sem rosto. Ele diz “pare”, com a dor tomando conta de sua cabeça. Batman mostra que é dominado por símbolos e como isso o afeta. Assim como seus inimigos, exceto pelo Coringa, o simbolismo o ajuda a manter o foco, além de assombrar seus sonhos.
Vale dizer que a arte de McKean é fantástica. Ela enriquece o roteiro de Morrison, misturando diferentes estilos e fazendo verdadeiras colagens nas páginas. Vemos pedaços de tecido, fotografias, tudo misturado e adicionando um efeito mágico, que transforma a história em algo muito maior.
Visualmente e psicologicamente, este livro faz com que o leitor viaje com Amadeus Arkham e Batman em uma jornada de palavras, símbolos e imagens. Eles procuram sobreviver em um mundo que os fragmentou. Batman diz que ele é apenas um homem, quando é confrontado com a acusação de que ele vem alimentando o Arkham com maldade. Nesta cena, a imagem de Cristo aparece ao lado dele, mostrando que, assim como Cristo, ele é um símbolo para outros, um símbolo de esperança. Batman também é um símbolo de medo para seus inimigos, mas é a esperança para aqueles que buscam proteção. Neste conto, o símbolo do Morcego demonstra seus poderes através da história. Batman, seus inimigos e toda a humanidade são atingidos pelo poder do simbolismo, chegando a um ponto em que a história desses personagens que tanto amamos, acaba se tornando, de diversas formas diferentes, a nossa própria história.
Você ainda pode encontrar o título, com desconto, clicando aqui.