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panini_mortedafamiliaEsse mês a Panini lançou o terceiro encadernado da fase Novos 52 do Homem-Morcego, que conta com a equipe criativa Scott Snyder e Greg Capullo. Intitulado como “A Morte da Família”, o volume em capa dura compila as edições de Batman 13-17 e Batman & Robin 15-17, em 252 páginas que trazem o retorno daquele que é considerado o maior inimigo do Batman: o Coringa, desaparecido desde Detective Comics #1 de Tony S. Daniel, quando fez o vilão Criador de Bonecas arrancar o seu próprio rosto para deixá-lo de lembrança para o Batman.

De volta a Gotham, a primeira parada do Palhaço do Crime é no DPGC, onde aterroriza o Comissário Gordon e deixa um rastro de dezenas de policiais mortos, tudo apenas para dizer que está de volta e recuperar o seu rosto da sala de evidências. Aos poucos, enquanto recria vários de seus antigos e mais famosos crimes, o Coringa vai revelando seu verdadeiro propósito para Batman, enquanto anda por aí com a pele do rosto amarrada com tiras de couro na cabeça. Aqui, Snyder mostra que pelo menos fez sua lição de casa. A caracterização do Coringa, que alguns podem considerar exagerada em diversos momentos, é completamente condizente com a trama proposta, e a narrativa deixa bem claro – inclusive utilizando personagens como Arlequina para isso – que o Palhaço do Crime está agindo pior do que nunca, e diferente de outrora.

“Não aguentava mais sentir sua falta. Mas agora eu estou aqui. Matraqueando na sua janela. Procurando você, minha sombra. Pedindo pra vir aqui fora pra brincar. Você vem?”

O controverso sentimento que o Coringa tem com o Batman, muitas vezes comparado com alguma espécie doentia de amor, já foi abordado outras vezes, não apenas nos quadrinhos mas até mesmo na série de games Arkham. A Piada Mortal, clássico supremo de Alan Moore, já havia estipulado anos atrás que o Coringa simplesmente não consegue viver sem chamar a atenção do Batman, enquanto que o Homem-Morcego parece ter alguma obsessão em perseguir o seu nêmesis, como se precisasse dele para ser quem é. Aqui, Snyder expande esse relacionamento, e retira a cortina da sutileza, reproduzindo em palavras aquilo que até então era implícito. O amor do Coringa pelo Batman, em toda sua estranheza, é foco constante e elemento crucial durante toda a narrativa, com o vilão não apenas declarando sua paixão e sua necessidade pelo herói, quanto com momentos onde Bruce Wayne admite que procura ignorar o fato de encontrar apenas um sentimento dentro daqueles olhos perversos e aparentemente sem emoção: amor.

Death in the family
E é movido por esse sentimento que o Coringa volta a Gotham, disposto a trazer de volta o seu Batman, que em sua concepção está mudado e mais fraco, devido ao fato de ter, com o passar dos anos, criado laços com sua bat-família. O Palhaço decide então preparar uma verdadeira festa, um banquete para Batman e sua família, no qual supostamente dará ao Cavaleiro das Trevas a opção de abandonar aqueles que o deixam limitado, optando por uma vida livre onde os dois poderão caçar um ao outro, como nos velhos tempos.

“Eles te tornam tudo o que você não quer ser. Tudo que tem medo de ser. E você sentiu medo quando acolheu esse pessoal. Eu sei. Tudo bem, velho amigo. Foi um momento de fraqueza…”

Na verdade, a história acaba sendo uma enorme ode não apenas ao Coringa, mas ao seu relacionamento com o Batman, funcionando como uma enorme homenagem a todas as grandes histórias envolvendo os personagens. Existem referências que vão desde a primeira aparição do Coringa em Batman #1 (1940) passando por A Piada Mortal, até outros crimes cometidos pelo palhaço ao longo de sua história. No entanto, apesar de uma boa execução, a obra divide opiniões devido à sua conclusão, considerada por alguns como algo apressado, anti-climático e que “engana” o leitor. O grande problema aqui, responsável por essa polarização, é o quanto a história se estendeu em seu lançamento original, sendo não apenas um arco, mas todo um grande evento construindo por todos os bat-títulos. No encadernado publicado pela Panini, somamos um total de 8 histórias, com 5 contendo a trama principal de Snyder e Capullo, enquanto 3 reúnem os tie-ins ocorridos na mensal Batman & Robin, de Peter Tomasi e Patrick Gleason. Com essa distribuição, a história se torna mais coesa e eficiente, mas é compreensível a reclamação de alguns leitores.

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Apesar de, sim, o final parecer um pouco apressado e todas as resoluções serem apresentadas em apenas um capítulo, considero que ele é bem executado e condizente com a narrativa desenvolvida até ali. Os capítulos vão avançando em um excelente crescendo, com interlúdios no final de cada um, mostrando os planos do Coringa para o tão alardeado jantar. Não havia motivos para prolongar a história, e sequer meios de se fazer isso sem comprometer sua qualidade e prejudicar a narrativa. Talvez o único problema seja o fato de haver muita preparação, e o clímax acabar chegando de forma abrupta. No entanto, isso não acontece se pensarmos que o clímax em si já começa a partir do momento que o Batman adentra o Asilo Arkham para a “festa” de seu anfitrião. 

Para mim, o grande ponto da história não está no fato do Coringa não matar de fato a bat-família, como o título prenunciava (alguém realmente acreditou que isso aconteceria?), ou mesmo a suposta covardia de Snyder em deixar que as flagelações impostas pelo Palhaço do Crime nos aliados do Batman não tenham passado de uma piada. Existe um status quo dentro de editoras como Marvel e DC, um ciclo de eternidade que rege esses personagens e seus universos, o qual não permite que certas atitudes decisivas sejam tomadas. Isso limita um escritor e pode acabar colocando em cheque sua história? Óbvio que sim. Mas acho injusto que isso seja aplicado nesse caso.

Mesmo com as limitações e os caminhos que sabia que não poderia cruzar, Scott Snyder entrega uma verdadeira carta de amor ao relacionamento Batman/Coringa, elevando a trama dos dois a um patamar acima. Algo difícil de se fazer em personagens com mais de 75 anos de histórias, dentro das quais já se encontraram e se confrontaram centenas de vezes, em diversas mídias diferentes. A cena final, onde Batman divide com Alfred um momento de sua vida onde confrontou o Coringa em sua persona de Bruce Wayne, é carregada de simbolismo e diz muita coisa a respeito dos personagens, e de como o Palhaço do Crime simplesmente não se importa com a identidade de seu rival. Na verdade, é mais do que isso. O Coringa simplesmente não suporta a ideia de parar para pensar a respeito da identidade do Batman, sendo esse talvez o seu maior medo. Estragar a diversão.


Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


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