
Amor, decepção, amizade, traição, justiça, vingança, sabedoria, ira, alegria… Todas essas palavras representam manifestações dos espectros de nossas emoções. E acredite, todas elas são bem representadas em “Capitão América: Guerra Civil”.
Tal coisa só poderia ser feita nas mãos certas e a Marvel não encontrou apenas duas, mas quatro. Os Irmãos Russo se tornaram os diretores preferidos de muitos fãs ao apresentarem “Capitão América: Soldado Invernal” anos atrás, um thriller político que encantou até aqueles que torciam o nariz para os filmes de super-heróis. Agora, eles nos trazem um thriller psicológico (como eles mesmo o chamam), mas eu diria que é uma verdadeira montanha-russa de emoções.
Para os fãs de quadrinhos, o nome já deixa tudo bem claro: o filme trata de uma divergência de opiniões, aqui, vemos todas as consequências e eventos mostrados em filmes anteriores servindo como abertura do filme. O mundo foi salvo pelos Vingadores, mas cada vez que isso acontecia, pessoas se machucavam, cidades eram destruídas, vidas eram perdidas, mas de quem era a responsabilidade? Tudo isto é intensificado quando mais um evento desastroso acontece e a ONU cria um comitê que oferece um tratado assinado por mais de uma centena de países – a ideia é que eles decidam quando, onde e se os Vingadores devem ser acionados. Funcionando como uma força militar de última instância.

Tony Stark, carregado de culpa desde Vingadores: Era de Ultron, acredita que os Vingadores devem assinar o acordo para continuar salvando o mundo. Ele acredita que a supervisão dos países é o caminho mais lógico. Vale ressaltar como Robert Downey Jr. consegue fazer uma de suas melhores atuações como Tony Stark, o personagem mostra um sofrimento real por tudo que acontece no filme.
Steve Rogers, munido de seu senso de justiça, com o patriotismo ferido após o “Soldado Invernal”, acredita que a equipe dos Vingadores deve se manter livre das ordens dos políticos, que como sabemos, são corruptíveis e possuem seus próprios interesses. Palavras são trocadas, argumentos são apresentados e vemos a equipe se dividir entre independência e segurança.
Claro, não é apenas isso que causa o embate entre as duas novas equipes, afinal, ninguém partiria para a porrada se não existissem outros interesses em jogo. Aliás, todas as motivações e personalidades dos personagens são bem trabalhadas e isto é que faz o filme ser tão forte. Aqui temos o Homem-Formiga sendo o Homem-Formiga, o Falcão é o Falcão, o Soldado Invernal é o Soldado Invernal. Se você assistiu os filmes anteriores, você não irá se decepcionar, eles não fogem daquilo que você já conhece.

Caso você possua algum medo quanto ao vilão ser desperdiçado, fique tranquilo, Zemo, que é vivido por Daniel Brühl, apesar de diferente de sua contraparte dos quadrinhos, é um vilão que consegue surpreender, demonstrando uma motivação lógica, clara e, acredite, tocante. Em um mundo em que super-heróis podem existir, as suas ações são críveis. Ele mostra que cada um de nós pode cair nas armadilhas de nossos sentimentos, podemos ser tragados pela dor, ira ou vingança, caso permitamos, ligando perfeitamente com os dilemas de nossos heróis. E ele não precisa de máscaras, muito menos de títulos.
Tal qual “Soldado Invernal”, “Capitão América: Guerra Civil” busca explorar vários temas que já vimos nos quadrinhos e que são frequentemente discutidos na mídia: Terrorismo, uso de força militar, controle estatal – e o ficcional vigilantismo. Claro, a dose é bem mais leve aqui. Tudo isso é traduzido na forma dos Acordos de Sokóvia, que substituem a Lei de Registro Super-Humano das HQs. Porém, isto abre a discussão para algo ainda mais complexo: as escolhas e ações que tomamos ontem, podem gerar inesperadas consequências no presente ou no futuro. E isso é tratado o tempo todo em tela.

É a mistura de tons leves e pesados que faz com que Capitão América: Guerra Civil funcione tão bem. O filme é cheio de cenas de ação, do começo ao fim e ele usa estes vários momentos para fazer com que personagens menores brilhem no filme. Os novos personagens são introduzidos de forma orgânica sem interferir o fluxo da narrativa. O Homem-Aranha, certamente a adição mais antecipada, tem uma participação limitada, mas natural e com uma caracterização perfeita, talvez a melhor já feita nos cinemas. Outro grande destaque é o Pantera Negra, vivido por Chadwick Boseman, que consegue cativar o público e roubar a cena. Todas as suas cenas são espetaculares, apresentando seu estilo de luta único, mas principalmente, nos momentos finais do filme, T’Challa mostra a sabedoria característica do personagem dos quadrinhos.
Mas mesmo entre tantos personagens, fazendo lembrar um novo Vingadores, este é o filme do Capitão América. E não há dúvidas disto. O arco iniciado em “Capitão América: Primeiro Vingador” é bem resolvido neste filme, Steve Rogers percebe que aquele mundo que ele conheceu no primeiro filme está desaparecendo, isso acontece através da morte. Logo, você passa a entender o motivo dele agarrar tão fortemente a ideia de proteger seu amigo, algo que vai além do sentimento de amizade ou fraternidade, ele não faz tudo que faz apenas por Bucky, ele também faz por si. Há nuances de egoísmo e de medo, ele tem receio de ver desvanecer tudo que ele já amou.

Quem leu a nossa resenha de Guerra Civil (o quadrinho), deve ter visto que eu critiquei certos pontos, entendo que para alguns fãs, a HQ possa parecer impecável, mas acredito que o filme possui mais camadas e consegue acertar onde a HQ falha. Sem precisar trazer tons de vilania para Tony Stark, o filme consegue fazer com que Tony e Steve sejam antagonistas um do outro. Imperfeições? Sim, existem, mas nada que tire o brilho do filme ou estrague sua experiência como fã. Como um filme, “Capitão América: Guerra Civil” apresenta um ritmo muito melhor do que “Vingadores: Era de Ultron”, trazendo grandes momentos e desenvolvendo melhor seus personagens sem precisar desacelerar fazer quebras bruscas. O que é um ótimo sinal para Vingadores: Guerra Infinita.
Capitão América: Guerra Civil consegue mostrar toda a força dos personagens do Universo Cinematográfico da Marvel, se beneficiando do fato de já termos nos ligado profundamente a esses heróis. Os diretores conseguem cumprir a árdua tarefa de balancear diversos tons em 2 horas e meia de filme. Neste filme, vemos que os Vingadores, a equipe mais poderosa da Terra, são tão humanos quanto qualquer um de nós, sujeitos a sentimentos que qualquer um pode experimentar. Se este filme é uma amostra do que veremos daqui para frente, os fãs podem comemorar, pois um ótimo futuro está vindo para a Marvel.






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