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500_9788544104378_clube_da_luta_2Clube da Luta talvez seja uma das obras contemporâneas mais aclamadas da cultura pop. O livro escrito por Chuck Palahniuk traz uma linguagem anárquica, questionadora, que parodia e ironiza não apenas o nosso mundo, mas a forma com a qual desperdiçamos nossas vidas em futilidades. A obra acabou tendo um filme realizado em 1999 pelo diretor David Fincher, que colocou Edward Norton e Brad Pitt nos papéis principais, e conseguiu levar com maestria para o cinema tudo aquilo que as páginas apresentavam. Apesar da baixa bilheteria na época – muito por culpa de um marketing mal feito que vendia a ideia de um filme de ação – o longa acabou se popularizando no mercado  home video, alcançando rapidamente o status de cult. 

E eis que em 2015, quase 20 anos depois da publicação do livro, o escritor Chuck Palahniuk – agora já com uma série de livros escritos, embora nenhum tenha alcançado o sucesso de sua maior obra – decidiu que o mundo precisava de uma continuação para Clube da Luta. Mas não em livro como o original, e sim em quadrinhos, algo que lhe daria uma liberdade… diferente. E assim surgiu Clube da Luta 2, série em 10 edições publicada pela editora Dark Horse, contando com roteiros de Palahniuk, e arte do excelente Cameron Stewart. Obviamente, como acontece nesses casos, a pergunta dos fãs era uma só. E não era “será que vai ser bom?” Não, essa pergunta só surgiu bem depois. A primeira, surgiu como um peso no estômago de cada fã de Clube da Luta: “Por quê?”

O fato é que Clube da Luta é uma daquelas histórias que não precisam de continuação. Onde não há sequer espaço para continuação. Histórias que surgem com um propósito, cumprem o seu propósito, e ficam marcadas eternamente por sua mensagem e importância. Mas se vai ter uma continuação de qualquer forma, lá vamos nós conferir, torcendo para ser no mínimo tão legal quanto o original. Às vezes acontece. Pode ocorrer até mesmo de superar o original. Mas não aqui. Nenhuma das duas opções se aplica aqui.

Na trama, o protagonista finalmente ganha um nome: Sebastian. Palahniuk parece esquecer – ou simplesmente não dar a devida importância – ao fato de que o personagem havia terminado o livro original internado em um sanatório, com diversos crimes nas costas, incluindo a morte de seu chefe. Aqui, 9 anos depois, Sebastian segue sua vidinha pacata, casado com Marla e pai de um garoto. No entanto, cansada da vida pacata, Marla troca os remédios de seu marido por aspirinas, fazendo com que Tyler retorne momentaneamente para eles poderem transar. Além disso, é revelado que durante os 9 anos que se passaram, Tyler sempre retorna nas sessões de terapia de Sebastian por 50 minutos, ajudado por seu psicanalista, que é um seguidor dos ideais anarquistas do personagem. Para fechar o plot principal, o filho de Sebastian e Marla é sequestrado por Tyler, e o protagonista retorna à mansão da Paper Street – sede dos “macacos espaciais” – para procurar informações a respeito do paradeiro do garoto.

O problema é que, a partir daqui, em uma clara tentativa de explorar todo o potencial narrativo e visual que os quadrinhos podem proporcionar, Palahniuk entra no terreno da metalinguagem e da quebra da quarta parede, mas de uma forma no mínimo incompetente. O escritor se insere dentro da historia à Grant Morrison em Homem-Animal, e acaba tornando o seu discurso como algo que se sobressai à história principal. A partir desse momento, a metalinguagem aumenta, o roteiro enfraquece, e as soluções se arrastam como um mero plano de fundo da trama, enquanto o autor parece apenas se divertir com as possibilidades. Não há respeito pela obra original, e não há sequer continuidade ou dedicação à história que se propôs a contar.

Se o livro de 1996 explicava que Tyler Durden era um reflexo do niilismo do narrador e de sua completa necessidade de auto-destruição por não mais suportar viver em um mundo acovardado e espiritualmente depressivo, aqui Palahniuk simplesmente cospe nesses conceitos. Tyler é algo como um vírus genético, uma ideia transcendental, algo que passa de geração em geração e que – pasmem – deixa implícito que pode existir desde que a serpente convenceu Eva a comer um certo fruto no Jardim do Éden.

“Nem sempre tive forma humana.”

O maior problema ocorre conforme a HQ vai se aproximando de seu clímax (que é extremamente fraco, aliás), que é quando Palahniuk transforma de vez a história em algo menor, e acha preferível transformar o roteiro em sua jornada pessoal para mostrar que é tão grande quanto Tyler Durden, ainda que seus diálogos procurem desesperadamente demonstrar o contrário. A metalinguagem sai do controle do autor, perde o tom interessante que esse tipo de artifício costuma ter, e vira uma verdadeira paródia de como funciona a metalinguagem nos quadrinhos. Aliás, mais ou menos a partir do terceiro capítulo, a obra aos poucos já vai se tornando algo que não lembra em nada o original, até chegar às fatídicas cenas do zumbi Bob (sim, ele não morreu, e sim se tornou um zumbi) e das crianças com Síndrome de Hutchinson-Gilford pulando de paraquedas e portando fuzis, metralhadoras, granadas e lança-chamas. Eu já citei que o Bob virou um zumbi?

O pior de tudo, é que mesmo se você, ao chegar ao final da história, imaginar  como seria arrancar toda a metalinguagem, as bizarrices, o surrealismo e as extravagâncias de Palahniuk, ainda assim o que sobra é uma história fraca. Que não apenas não faz jus à original, mas que a deturpa e a desrespeita. Sei disso porque Tyler sabe disso.