Em seu relançamento para a Marvel Now, o Mercenário Tagarela acabou ficando nas mãos de dois desconhecidos no campo dos quadrinhos. Brian Posehn e Gerry Duggan já haviam escrito uma ou outra HQ no passado, contudo, a experiência da dupla era mais voltada para o campo da comédia e da área audiovisual. Até que fazia sentido, afinal de contas, a visão da época – e também a atual – sobre Deadpool se focava bastante em trazer histórias divertidas e engraçadas, então, colocar comediantes à frente do personagem era algo interessante e até mesmo lógico.
Ainda assim, isso poderia não ser o bastante. Mais experientes com uma linguagem voltada para o cinema e a televisão, era possível que os dois roteiristas não conseguissem trazer uma boa narrativa para os quadrinhos, e acabassem entregando uma história que não desse certo e não agradasse. Mas não foi o que aconteceu, e é com uma história hilária envolvendo presidentes mortos-vivos, gore e diálogos inteligentes que o Mercenário Tagarela estreia o seu primeiro encadernado da Marvel Now.
Também, com a premissa de Meus Queridos Presidentes, seria preciso bastante esforço para estragar tudo. Na HQ, um necromante da SHIELD que quer “consertar” o país acaba invocando as versões zumbis de vários antigos presidentes dos Estados Unidos, e, para completar, esses governantes mortos-vivos retornaram à vida desprovidos de sua humanidade. O único desejo desses personagens históricos é consertar o seu país. Para começar, destruindo tudo o que existe nele. Como o pessoal do marketing da SHIELD não achou uma boa sair na capa dos jornais o Capitão América decapitando Harry Truman, acabaram contratando alguém com quem ninguém se importava. O que, claro, significa Deadpool.
Uma história dessas seria no mínimo divertida, e Brian Posehn e Gerry Duggan conseguiram tirar o melhor dela. Os ritmos da ação e da comédia funcionam muito bem juntos e a história vai sendo contada na progressão certa. Não se pode dizer que existem grandes artifícios narrativos, tirando o ocasional bom uso de páginas duplas, mas, na simplicidade do uso dos quadros, os roteiristas entregam uma história bem contada. No decorrer do arco de Meus Queridos Presidentes, Deadpool vai atrás de seus ilustres alvos em desventuras recheadas de referências e com uma violência gráfica pra lá de escatológica.

Apesar dos autores conseguirem utilizar muito bem o lado visual da HQ para criar comédia, a maior parte dela está dentro dos balões de fala. E é realmente nos diálogos que a dupla se sobressai, valendo-se tanto do óbvio quanto do sutil para apresentar as piadas. É possível se entreter apenas com as nuances mais óbvias do humor de Posehn e Duggan, mas alguém que não consiga adentrar as várias referências e pequenas notas de comédia estará perdendo a melhor parte de Meus Queridos Presidentes.
É justamente nesse ponto que também reside a maior crítica à obra, ou melhor, o seu maior “porém”. Enquanto muito do conteúdo dela é de fácil entendimento para os norte-americanos, o público brasileiro que não tenha um certo conhecimento sobre a história do Estados Unidos acabará deixando passar muitas das tiradas humorísticas. Em se tratando de versões zumbificadas malignas assassinas de grandes personalidades americanas, é de se esperar muitas tiradas envolvendo detalhes sobre os presidentes e de um pouco da política de suas épocas. Entretanto, esses personagens históricos não são a única fonte de humor da revista, que também explora bastante o viés do humor violento e utiliza referências tão próximas quanto outros heróis da Marvel e tão distantes quanto uma citação de Inigo Montoya, personagem do livro/filme A Princesa Prometida – um momento de comédia tão sutil que usa até mesmo a relativa dificuldade da tirada ser percebida para fazer graça.

No entanto, mesmo quem passe batido pelos momentos mais elaborados de humor, ainda vai encontrar diversão e entretenimento. Meus Queridos Presidentes não só consegue trabalhar bem com Deadpool, como também apresenta três sidekicks novos para o personagem. É inegável que Michael, o Necromante, Benjamin Franklin e a agente Preston são muito bem escritos. De fato, em apenas uma história, os autores conseguem fazer com que sejam tão carismáticos quanto Bob e Fuinha. É preciso elogiar também a forma como os outros heróis da Marvel são tratados na obra. É verdade que acabam sendo apresentados de forma caricata demais, ainda assim, cabem muito bem dentro da história criada por Posehn e Duggan.
Não é preciso de muito esforço para apreciar Meus Queridos Presidentes, e é provável que apenas aqueles que guardam algum rancor especial para com Deadpool se desagradem com a trama. No fim das contas, com seus ótimos diálogos, ação – literalmente – visceral, e confrontos de luta livre contra Abrahan Lincoln, o primeiro arco da fase de Posehn e Duggan entra com facilidade no rol das melhores histórias do personagem mais metalinguístico da Marvel.
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