Finalmente, após os fãs praticamente implorarem durante anos a fio, a Panini resolveu que era hora – e é a hora certa mesmo, com o sucesso da série – de publicar a aclamada fase do escritor Brian Michael Bendis pelo defensor da Cozinha do Inferno, o Demolidor. Contendo 354 páginas e reunindo as edições de 26 a 40 da revista americana Daredevil, Demolidor: Revelado traz o início da famosa fase de Bendis ao lado do artista Alex Maleev. Uma fase quase tão importante e influente para os quadrinhos do personagem quanto a de Frank Miller na década de 80.
Isso porque assim como Miller fez outrora, Bendis também resolveu dar uma chacoalhada na vida de Matt Murdock dificultando as coisas para o advogado cego que enfrenta os tribunais durante o dia, e os becos e ruelas à noite. Se em A Queda de Murdock, a vida do herói já havia se tornando um inferno simplesmente pelo fato do Rei do Crime ter descoberto a sua identidade secreta, aqui Bendis resolve brincar com um conceito novo e mais abrangente: e se, de repente, todo mundo soubesse a identidade do Demolidor? É partindo dessa premissa que o autor entrega uma das histórias mais interessantes que o personagem já teve, construindo uma complexa e intrigante trama policial onde por diversos momentos o leitor chega a esquecer que está diante de um gibi de super-herói, tamanhas seriedade e realismo com os quais o roteiro é trabalhado.
O fato é que Bendis tem duas qualidades incríveis como roteirista. A primeira e mais conhecida por aqueles que acompanham o seu trabalho são os diálogos extensos e interessantes que o autor cria durante a história. Bendis é o cara que consegue fazer com que dois policiais coadjuvantes conversando sobre a vida dentro de um carro sejam incrivelmente interessantes. O domínio narrativo e a criatividade do escritor dentro dos diálogos é algo que chega a lembrar o estilo utilizado pelo cineasta Quentin Tarantino em seus filmes. A segunda qualidade de Bendis é a sua capacidade em escrever boas histórias com temas urbanos como crimes, polícia, investigação e máfia. O que acaba se tornando reflexo em suas melhores histórias como Alias (que será adaptado no seriado Jess
ica Jones da Netflix), Cavaleiro da Lua, e o próprio Demolidor. Até mesmo em sua fase pelos Vingadores, o autor trouxe os Heróis mais Poderosos da Terra para o nível das ruas criando histórias mais urbanas e colocando na equipe personagens como Luke Cage, Punho de Ferro e Homem-Aranha.
E Revelado nada mais é do que uma excelente história urbana. Tudo começa com um plano para derrubar o Rei do Crime, arquitetado por um personagem introduzido na história por Bendis, chamado Sam Silke. Aliado ao filho do Rei, Richard, o misterioso Silke consegue fazer com que os próprios homens de Wilson Fisk se voltem contra seu chefe, em uma cena que remete à derrocada do imperador romano Julio César. O interessante é que a trama, construída detalhadamente nos primeiros número do encadernado, acaba se revelando apenas como construção narrativa para chegar ao que realmente interessa: a revelação da identidade do Demolidor. Não vou estragar a surpresa de ninguém contando como a situação acontece, mas o que posso garantir é que o modo como Bendis vai carregando a história até chegar a esse momento crucial é algo digno de nota. É bem escrito, bem direcionado, bem construído. O leitor rapidamente compra a ideia e se vê emaranhando na rede narrativa que o autor cria. E quando tudo acontece e vemos o desenrolar da trama afetar diretamente Murdock, percebemos como tudo foi feito de maneira crível e plausível. São super-heróis sendo trazidos para a vida real, com todas as repercussões que esse realismo traz, porém sem que essa verossimilhança atrapalhe o fato de ser um bom e velho quadrinho de super-heróis coloridos usando colantes. É tudo muito bem dosado.

Após a identidade do Homem Sem Medo ser divulgada de forma nacional pelo jornal Globo Diário, vemos as repercussões da revelação da forma mais real possível. Paparazzis como abutres na porta da casa de Murdock, programas de TV falando sobre o assunto do momento, e é claro, – como não poderia ser diferente em um quadrinho no qual o personagem principal é uma advogado – as implicações legais do caso.
A profundidade e o realismo com que a situação é tratada nos fazem pensar que, se super-heróis existissem e a identidade de algum deles fosse revelada, o resultado seria exatamente esse. Um circo de horrores arquitetado pela mídia e pela justiça, cada um querendo um pedaço da peça central do acontecimento, sem que sequer seja avaliado tudo de bom que este cidadão tenha trazido para a população em seus atos como vigilante. E é exatamente isso que acontece com o Demolidor.
O legal também é ver que Bendis entende do personagem, mantendo as características estipuladas por Frank Miller desde a década de 80. Fica notório por exemplo, em diversas passagens da HQ, o quanto Murdock é um cara perturbado e com uma psique frágil e alquebrada. O Demolidor não tem uma cabeça muito normal, e desde a época de Miller isso era trabalhado nas histórias de maneira explícita, principalmente em clássicos como A Queda de Murdock. Bendis se utiliza desse artifício para mostrar como a mente fragilizada de Murdock recebe toda a quantidade de informação ao ver a possibilidade de ter sua vida destruída. E é claro, apresenta também outro fator marcante da personalidade do herói: a capacidade de cair e se reerguer novamente.
Enfim, Demolidor: Revelado é uma obra essencial para um fã do personagem, além de ser um material indispensável para qualquer leitor de quadrinhos disposto a ler um bom material. A Panini já confirmou que irá compilar toda a fase de Brian Michael Bendis seguindo esse padrão de encadernado deluxe, e inclusive avisou que a ideia é dar sequência à fase que sucedeu a do escritor, escrita pelo aclamado Ed Brubaker e com um material tão benquisto quanto. É uma boa época para ser fã do Homem Sem Medo.







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