Comentários

Demorou, mas finalmente temos um novo jogo numerado da franquia Final Fantasy, após um longo hiato. Final Fantasy XVI chega quase 7 anos depois de seu antecessor, Final Fantasy XV, mas diferente daquele jogo – que teve um desenvolvimento conturbado e um lançamento mais ainda – esse aqui chega com toda a pompa e contando com a produção de Naoki Yoshida, o cara conhecido por ter “salvado” o problemático MMO Final Fantasy XIV, transformando-o em um sucesso.

Sendo assim, Final Fantasy XVI chega cheio de promessas e expectativas. Mas será que faz jus a elas? Sim, podemos dizer que o novo capítulo da série é digno de figurar entre os melhores títulos que Final Fantasy já ofereceu, especialmente por sua história. Quem assistiu a qualquer um dos trailers e materiais promocionais já entendeu rapidamente qual foi a inspiração dos produtores para esse novo jogo: Game of Thrones.

Com uma forte inspiração na série da HBO e seus reinos em guerra, Final Fantasy XVI nos leva até Valisthea, uma terra cravejada pelos gigantescos Cristais-Máter, montanhas gigantescas que providenciam o éter aos habitantes de seus reinos, de forma a que possam realizar magia para tarefas cotidianas. Existem cinco nações principais em Valisthea que brigam pelo poder dos Cristais, e alguns desses reinos possuem cada um seus “Dominantes”, um homem ou mulher abençoado com a habilidade de incorporar um Eikon, criaturas místicas extremamente poderosas.

Visual do Final Fantasy XVI
Reprodução/Square Enix

Nesse contexto, seguimos Clive Rosfield, que embora seja o filho primogênito do arquiduque de Rosária, não herdou as chamas do Eikon Fênix, como seria esperado. Essa dádiva acabou indo para o seu jovem e adoentado irmão, Joshua. No entanto, existem muito mais mistérios ao redor da existência de Clive do que ele pensa, e seu mundo logo é revirado de cabeça para baixo.

Fiel à sua inspiração, a Square não pisou no freio na questão de encher o mundo de Valisthea de reinos, conspirações, reviravoltas e personagens, muitos personagens. Assim, para manter o jogador sempre contextualizado com o mundo ao seu redor, algumas mecânicas foram implementadas. É possível, por exemplo, com o uso de um botão, acessar uma janela de eventos a qualquer momento do jogo, para ler informações do local em que você está, os personagens ao seu redor e a situação política da região.

Para quem quer um nível de detalhamento maior, existe ainda uma biblioteca no jogo que pode ser acessada sempre que Clive volta ao seu Esconderijo, e que vai sendo atualizada conforme o jogo avança. E se você é ainda mais fissurado em lore e gosta de estar completamente dentro da situação sociopolítica dos jogos… existe ainda uma espécie de mapa cronológico, onde é possível acompanhar todos os eventos importantes de Valisthea ao longo dos anos, verificando as nações e os personagens que foram cruciais naquela situação específica.

Final Fantasy XVI
Reprodução/Square Enix

Mas calma, embora exista sim um foco muito grande na narrativa, isso não quer dizer que o fator gameplay tenha sido deixado de lado. Curiosamente, Final Fantasy XVI vem sendo alardeado como “o primeiro Action RPG na linha principal”, o que me faz pensar que alguém esqueceu que Final Fantasy XV já não utiliva um sistema por turnos. Mas tudo bem, talvez isso seja para chamar atenção ao fato de que esse novo jogo na verdade é praticamente um hack n’ slash.

E embora só a citação desse termo possa fazer alguns virarem a cara, já que o gênero foi se tornando ao longo do tempo sinônimo de algo simplório e visto pejorativamente como “esmagamento de botões”, podemos dizer que Final Fantasy XVI consegue aplicar isso em seu combate com elegância. Isso porque o diretor de combate do game, Ryota Suzuki, além de ser um veterano na indústria, teve como último trabalho o aclamado Devil May Cry V.

Sendo assim, embora talvez afaste os mais puritanos, o combate de Final Fantasy XVI é muito dinâmico e divertido. Apesar do estilo mais livre puxado para o hack n’ slash, ainda é possível ser bastante estratégico em batalha, já que os golpes normais podem (e devem) ser mesclados com as diferentes habilidades eikônicas que Clive vai adquirindo ao decorrer do jogo. Isso faz, inclusive, com que as batalhas fiquem mais rápidas conforme se avança – e digo isso porque a lentidão dos primeiros confrontos pode assustar alguns.

Reprodução/Square Enix

No entanto, embora seja divertido e bem realizado, é preciso deixar claro que o combate é… fácil. Muito fácil. Mesmo no começo, quando Clive ainda não possui diferentes habilidades, as lutas contra oponentes supostamente muito mais poderosos são apenas demoradas. O que é até meio frustrante, porque é o tipo de luta que você sabe que inevitavelmente vai vencer sem muito esforço, mas que vai ter que esperar alguns bons minutos para diminuir aquela barra de HP insanamente grande do seu oponente.

Esse é apenas mais um indicativo de como o foco do jogo realmente está na narrativa. E não que eu seja daqueles que acreditam que todo jogo onde o personagem tem um espada na mão precise necessariamente ser um soulslike, mas é uma escolha no mínimo curiosa que a Square tenha decidido ir na contramão da tendência. Obviamente, um combate mais puxado para o oferecido em Devil May Cry V combina muito mais com a franquia, mas é decepcionante que os inimigos não ofereçam desafio.

E por falar em combinar com a franquia, fica bem óbvio que a ideia da Square foi não se afastar muito da essência de Final Fantasy. Não é a toa que temos de volta em um título numerado uma ambientação medieval, assim como acontecia nas origens da série. E essa homenagem de Final Fantasy XVI aos clássicos vai muito além da escolha de ambientação. Caminhar por vilarejos, cruzar prados verdejantes, entrar em castelos, conversar com transeuntes, cada pequeno detalhe do game remete a uma experiência clássica com um Final Fantasy 2D.

Reprodução/Square Enix

No entanto, é preciso dizer que o game peca um pouco nesses momentos, pois a interação de Clive com personagens aleatórios pelo mundo de Valisthea é muito, mas muito inferior aos momentos mais importantes da história. Personagens sem alma, com movimentação corporal estranha e um design preguiçoso e repetitivo são muito comuns nessas situações.

O mesmo pode ser dito das missões secundárias que o jogo apresenta. Diferente do que se tornou tendência nos últimos anos na indústria, não existe qualquer interesse em criar missões secundárias com alguma complexidade. São todas no estilo mais simples possível, do tipo pegue o item A e leve ao local B.  No entanto, curiosamente, o jogo consegue fazer disso algo positivo, pois há pelo menos um esforço em, durante essas missões, contextualizar um pouco mais a situação geral de Valisthea.

Algumas dessas missões, por exemplo, são bastante focadas nos Portadores, pessoas inferiorizadas por nascerem com o dom de usar magia sem precisarem do uso de cristais, e que por isso são marcadas no rosto e tratadas como escravos. E se você acha estranho que pessoas que podem usar magia são escravizadas pelas que não podem, basta lembrar de X-Men, por exemplo. O medo do diferente e do superior é um tema recorrente quando falamos dos Portadores, e a escravidão é tratada de uma forma bem interessante no jogo, fazendo com que fiquemos realmente revoltados com a forma como os Portadores são tratados.

Reprodução/Square Enix

Embora não seja um jogo de mundo aberto, Final Fantasy XVI possui um mapa-múndi, onde acessamos diferentes regiões com tamanhos variados. E para um jogo focado em narrativa, essa foi uma excelente escolha. A linearidade do game consegue torná-lo mais dinâmico, sem que o jogador precise perder tempo com explorações inúteis, como se tornou comum em muitos jogos de mundo aberto da indústria nos últimos anos, que não passam de espaços vazios enormes para uma locomoção demorada. Com suas pequenas áreas intercaladas dentro de um mapa maior, embora tire do jogador o senso de exploração, Final Fantasy XVI entrega uma urgência que casa muito bem com a situação dos personagens e de Valisthea.

E por falar em personagens, a forma como Clive é desenvolvido ao longo da história, bem como aqueles que o cercam, é digna de nota. Nesse aspecto, são poucas as obras na indústria que conseguem fazer algo parecido, sendo o aclamado Red Dead Redemption 2 um bom exemplo. Como Valisthea é um mundo em guerra, onde as ações dos reinos impactam diretamente as vidas dos principais personagens, o game é muito feliz em retratar isso em cada detalhe da narrativa.

Personagens amadurecem, envelhecem, ganham cicatrizes, mudam suas perspectivas a respeito da vida e do mundo. Regiões que antes gozavam de alguma segurança mínima, podem se ver envoltas em tragédias devido a algum acontecimento político que mudou a região. A Square foi extremamente bem sucedida nesse aspecto, trazendo uma imersão pouco vista na indústria.

Dito tudo isso, é inegável, Final Fantasy XVI é um jogo incrível. Porém, quando saímos dos aspectos de história, não apresenta grandes novidades, nem dentro da própria franquia, nem para os games de uma forma geral. Muito provavelmente vai ganhar todos os prêmios possíveis nos que se refere a narrativa, que é de longe o seu grande ponto forte, mas no que se refere a jogabilidade, não consegue ir muito além do que já vimos em Final Fantasy VII Remake, por exemplo. No entanto, é inegável como o game se beneficia de seu tom adulto e estilo artístico para criar reviravoltas que surpreendem o jogador e o deixam preso na história. A quantidade de momentos épicos, especialmente em grandes boss fights, o torna automaticamente um Final Fantasy inesquecível.

Leia mais sobre Final Fantasy:

Final Fantasy XVI
  • Desenvolvedora: Square Enix
  • Publisher: Square Enix
  • Plataformas: PlayStation 5
  • Review feito no: PlayStation 5
Nota 7
Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.


Comentários