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20 anos após o seu lançamento no Japão e 15 após o seu término, GTO – Great Teacher Onizuka – finalmente chega ao Brasil através da New Pop Editora. A obra, aclamada como um dos melhores mangás de comédia e um clássico de sua época, não deixa de perder sua força, apesar do tempo passado. Tal trabalho do autor, Tooru Fujisawa, no entanto, apresenta elementos e ‘gags’ que já não são interessantes à atualidade e precisa ser contextualizado com o momento que viabilizou à sua existência. Muito mais polêmica do que quando foi originalmente lançado, obra só pode ser aproveitada por quem situá-la em tempo e espaço para relevar os seus machismos – ou por quem não se importa com essa característica.


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No mangá Eikichi Onizuka é um ex-delinquente virgem de 22 anos que, tendo passado pela escola e pela universidade, busca encontrar emprego. Contudo, seus maneirismos pouco adequados e seu estilo gangster juvenil, afastam qualquer possibilidade. Ao sair com uma garota e descobrir que na verdade ela namorava com um professor muito mais velho que ela, Onizuka decide lecionar para conseguir o seu sustento e também estar em posição para conseguir impressionar e dar em cima das garotas. Sua estratagema falha por ele descobrir-se incapaz de se aproveitar de alunas, e verdadeiramente incomodado com a forma com que as escolas funcionam e os alunos são tratados, busca se tornar o “melhor professor do Japão” com o seu método atípico de ensino.

É inegável que toda a premissa do mangá é incrivelmente problemática. A história começa não apenas tocando questões extremamente machistas, mas também lidando com questões de poder entre adultos e menores de idade e beirando a pedofilia. Fosse escrita atualmente, GTO provavelmente teria dificuldades em cair nas graças do público ou até mesmo em ser publicado. O que de forma nenhuma se configura em uma crítica aos tempos atuais, visto que toda obra só tem como ser criada em sua própria época, e não em um futuro ou passado.

Todo um esforço é necessário para se contextualizar GTO a uma época em que seus problemas recebiam menos atenção, e portanto eram mais trivializados, e também para se colocar a obra no ambiente do Japão, país onde a cultura dos mangás pode ser bizarramente menos rígida com certas questões e apresenta tropes e clichês muito diferentes do ocidente. Não perdoar o mangá e seu autor não é de forma alguma um problema, e a não leitura da obra, ou críticas ferrenhas ao material, de forma alguma são atitudes questionáveis. Mas os que torcem o nariz para os problemas e encaram a obra mesmo assim podem encontrar bons momentos.

Felizmente, a história de GTO não é sobre professores dando em cima de alunas. É sobre um sujeito absurdo e destrambelhado, um deliquente quase profissional, que da forma mais estranha possível descobre que tem o gosto por lecionar. Mais do que isso, descobre que pode ouvir o problema dos alunos e verdadeiramente ajudá-los. Isso em meio à uma série de situações bizarras e exageradas, mas sempre cômicas e algumas vezes até mesmo geniais.

Em GTO há o melhor daquele humor absurdo que só se encontra nos mangás japoneses. Os personagens são sempre exageradamente exagerados, e para cada momento sensível de Onizuka, o personagem imediatamente faz alguma coisa de extraordinária estupidez. Não chega a ser um humor simples demais, como em muitos shounen modernos, mas sim um estilo que remete a produções mais antigas, obras já publicadas no Brasil como Video Girl Ai, e DNA². Tooru Fujisawa, contudo, não deixa de ter um estilo bem próprio e consegue muito bem apresentar Onizuka como um delinquente, perdedor e esquentado, mas de bom coração.

Ainda assim, o primeiro volume acaba sendo difícil de se encarar hoje em dia. Lançando a lamentável premissa inicial da obra, muito dele acaba sendo de gosto duvidoso e em determinado momento se aproxima tanto do execrável que torna a defesa da obra. Qualquer um que seja sensível às problemáticas deve precisar de uma boa dose de esforço e muitos suspiros cansados para tentar seguir em frente com a leitura. Mas existem várias pérolas espalhadas pelo mangá que podem fazer valer a leitura e trazer gargalhadas. O fim da história, nonsense e bem cômico, traz a promessa de deixar para trás as questões de mau gosto e se focar no que o mangá tem de bom.

De uma forma ou de outra, Fujisawa é um ótimo artista. Se seu texto e argumento pode ser duvidoso, o mesmo não pode ser dito de seus traços. O mangá é muito bem desenhado e possui um estilo bem sólido. O realismo que a arte busca em suas páginas enaltece várias sequências de humor e, principalmente, as reações exageradas dos personagens. Quem gosta das artes de mangás dos anos 90 não irá se decepcionar com GTO, que traz um bom refúgio para os que estão cansados dos estilos atuais.

Apesar da edição da New Pop ser bem trabalhada, com sobrecapa, papel de boa gramatura e uma tradução que se adequou extremamente bem à obra, o tamanho do mangá não colabora com a sua arte e até mesmo torna difícil a leitura de algumas falas menores e secundárias à histórias (muitas contendo piadas). O tamanho é próximo dos tanko japoneses, é verdade, mas talvez uma edição em dimensões maiores fosse beneficiar bastante a obra máxima de Fujisawa e o fenômeno mundial que foi GTO.

GTO – Great Teacher Onizuka é um dos mais famosos mangás de comédia e trata muito bem do clichê dos delinquentes. A premissa inicial da obra, que leva o protagonista para onde o autor quer que ele chegue, acaba sendo muito problemática nos dias de hoje e pode alienar muitos leitores que, justificadamente, considerem que a obra é sexista demais. No entanto, para quem encarar a obra, poderá encontrar pontos e talvez aguardar pelo segundo volume, que promete deixar seus pontos polêmicos para trás e se concentrar no que torna Onizuka um bom personagem e em seu trajeto para se tornar um bom professor e ajudar os seus alunos. Sempre de formas bizarramente hilárias, claro.

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