
Compre Hellblade: Senua’s Sacrifice por apenas 55,99 no GOG!
Um jogo “Triplo A independente”. É assim que o Ninja Theory, estúdio que desenvolveu o aclamado Enslaved: Odissey to the West, descreve a sua nova obra: Hellblade: Senua’s Sacrifice. O título foi lançado na última semana, em oito de agosto, sendo um single player de ação e aventura que mostra a jornada de uma mulher para resgatar a alma de seu amado. Mas uma trama divertida e cheia de ação passa longe dos objetivos do jogo.
A obra busca oferecer uma experiência profunda, adentrando na mente perturbada da personagem e oferecendo um conceito artístico único. Não são poucos os jogos que acabam não conseguindo oferecer um produto final que combine de forma satisfatória jogabilidade, história, atmosfera e algum diferencial. Terminando por mirar alto demais e não atingir a excelência em nada. Esse não é o caso de Hellblade, que alcança o equilíbrio certo entre suas partes e oferta uma experiência tão fantástica quanto única.
A base da trama é simples. A guerreira celta Senua está em uma busca desesperada para salvar a alma de seu amado, Dillion. A personagem acaba indo para o reino dos mortos nórdico, o Helheim, domínio da deusa Hela, filha de loki e senhora do submundo na mitologia nórdica. A história bem poderia ser o mote de algum clone de God of War, como foi o caso de Dante’s Inferno. No entanto, muito antes de querer ação e violência desenfreada, mostrando humanos enfrentando monstros e deuses em cenas cheias de sangue, o primeiro inimigo de Senua é a sua própria mente.
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E o jogo consegue fazer isso funcionar muito bem.
Durante o desenvolvimento da obra, a Ninja Theory consultou neuro-cientistas e psiquiatras. O objetivo era entender e recriar os efeitos da psicose na mente humana. O sucesso dessa empreitada fica claro desde o início. Senua é acompanhada por diversas vozes que a insultam e predizem seu fracasso e incompetência. Esses estímulos não surgem de forma ordenada ou compreensível, mas como um turbilhão caótico de estímulos auditivos, confundindo tanto personagem quanto jogador. Isso combinado com alucinações e efeitos visuais consegue criar uma atmosfera bastante inquietante e opressora, principalmente quando combinados com o estilo limitado da câmera do jogo.
Dúvida e impotência são dois dos grandes temas do jogo. Tanto os efeitos da psicose quanto as mecânicas trabalham para que Senua – e também o jogador – sintam que não vai conseguir continuar, que irá falhar. Nos momentos de puzzle, vozes constantemente chamando a personagem de burra, questionando suas ações e dizendo que ela irá fracassar. Isso também acontece nos combates, onde às vozes podem ajudar, pressionar ou confundir. A sucessão de inimigos se materializando um atrás do outro traz a sensação de que o confronto não tem como acabar se não com uma derrota. Apenas andar pelo cenário já desencadeia a multidão de vozes internas de Senua. O que cria um clima inquietante e faz com que uma simples caminhada seja uma experiência bem sólida.
No entanto, não se pode ignorar que a obra também é sobre persistência e enfrentamento. Apesar das dificuldades, apesar de cair, Senua sempre se ergue. Seguir em frente é tudo o que ela busca, e para isso supera tanto suas próprias limitações quanto figuras divinas do panteão nórdico. Mais de uma vez a personagem vislumbra o fracasso, misturando situações do “agora”, no caminho para o mundo dos mortos, com cenas e traumas de sua vida. Mas sempre encontra forças para triunfar suas armadilhas mentais e os desafios jogados contra ela. O jogador, no entanto, fica sem saber o quanto daquele percurso sobrenatural é verdadeiro e o quanto é apenas fruto dos delírios de Senua.

Essa narrativa funciona devido ao trabalho primoroso em representar os efeitos da psicose. Com menos esmero e menos pesquisa, o jogo inteira poderia acabar sendo forçado e incoerente. Isso sem falar em um desserviço quanto a representação de problemas mentais. Felizmente, o Ninja Theory não caiu na armadilha de tratar perturbações psicológicas de forma caricata ou exagerada. Conseguiram lidar com o assunto com responsabilidade e coerência, sendo esse um dos maiores triunfos do jogo.
Também é preciso elogiar a modelagem de Senua. Seus movimentos, estão muito fluidos e as expressões do rosto muito detalhadas. Coisa imprescindível para representar seus momentos de agonia mental e sua interação com seus próprios medos.
As mecânicas do jogo são simples, mas eficientes. Boa parte da jornada de Senua são puzzles colocados em seu caminho pelos deuses. A resolução normalmente envolve usar a mecânica do “foco”, que aproxima a região para onde a personagem está olhando”, e conseguir encaixar runas de forma correta, combinando movimento e câmera. Um esquema simples, mas elegante. Acompanhado pelas sempre presente vozes e também por narrações sobre a cosmologia nórdica e o passado e personalidade de Senua. Narrações estas que também ficam entre a realidade e alucinação.
O sistema de combate do jogo é elaborado apenas o suficiente para funcionar. Golpe forte, golpe fraco, esquiva e bloqueio são as suas bases. Em momentos de luta, a mira sempre fica travada em um inimigo e toda a movimentação da personagem muda. Não é um sistema que oferece muita variedade ou momentos impactantes. Mas funciona para a proposta e para o clima do jogo. Apesar dos inimigos comuns poderem ser repetitivos, conforme vão aparecendo, a luta adquire um aspecto desesperado. E as sequencias contra os chefes conseguem ser empolgantes. Mesmo as lutas não sendo muito difíceis, o jogo consegue criar um clima em que a todo instante a derrota pareça iminente.
Hellblade: Senua’s Sacrifice não é um jogo que irá agradar a todos. Os que estiverem buscando por uma obra focada na ação e em movimentos frenéticos podem ter dificuldade em apreciar esse novo jogo do Ninja Theory. Mas aqueles que se deixarem absorver pela narrativa e atmosfera da obra, encontrarão um jogo muito bom, que traz uma experiência profunda e inquietante.
Custando metade de um jogo grande em lançamento, ou 55 reais na Steam, Hellblade vale a pena para jogadores brasileiros. Ainda que sua duração fique em torno das 7 e 8 horas, o conjunto da obra mais do que compensa o preço.




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