
Metal Gear Survive foi um jogo controverso desde suas primeiras notícias. Sem participação do diretor e criador da série, Hideo Kojima, e trazendo temas como zumbis e viagens dimensionais, os fãs logo ficaram resistentes à ideia. Apesar de ser veiculado como um spin-off, a ideia não agradava o público, que logo faz comparações ao fracassado Umbrella Corps, spin-off multiplayer da série Resident Evil. Enfim, Metal Gear Survive foi lançado, e os temores dos fãs acabam se concretizando. No entanto, o problema não está em ser um Metal Gear com zumbis, viagens dimensionais, spin-off e sem Kojima, mas como a combinação de todas essas coisas foi aplicada de forma forçada não só na história de MGS quanto na própria proposta do jogo. Há um grande acerto na parte que diz respeito ao “survive”, mas acaba não conseguindo sustentar esse Metal Gear.
O jogo até que tenta. Na sua introdução, o jogador é apresentado a uma longa sequencia mostrando a Sessão Wardenclyffe, uma agencia semi-secreta dos Estados Unidos dedicada a estudar uma espécie de realidade paralela que já a alguns anos entra em contato com a Terra. Há uma disputa interna, e um dos membros da agência, Goodluck, decide enviar para essa outra dimensão – Dite, como foi batizada – um soldado que sobreviveu aos eventos finais de Metal Gear Ground Zeroes. O soldado em questão é enviado por ter sido infectado por essa estranha forma de vida, e uma cutscene onde Goodluck aparece na antiga base dos Militaires Sans Frontiéres passa a ideia de que mistérios envolvem a presença dele no lugar.
Contudo, isso é praticamente tudo de história que o jogo apresenta de forma direta. Após Metal Gear Survive começar de fato, a trama só é levada para frente através de alguns poucos diálogos e gravações que dão detalhes divertidos, mas sem muito foco. O problema não está nos zumbis, ou na dimensão de Dite, a introdução do jogo até mesmo empolga para a possibilidade de haver uma história mais concreta. E no fim das contas, todas essas questões de paranormalidade e agências secretas de estudos sobrenaturais fazem parte dos temas recorrentes em histórias de guerra na época da Guerra Fria. Era possível fazer uma boa história de Metal Gear usando a premissa que o Survive aborda. E executada do jeito certo (conspirações, reviravoltas e etc) poderia funciona muito bem. O jogo poderia ter sido um acerto nesse sentido, as partes originais de sua introdução e a concepção geral da Sessão Wardenclyffe mostram que a equipe do jogo poderia ter realizado algo de interessante caso tivessem focado nesse aspecto.
https://www.youtube.com/watch?v=7lPdpAfpXug
Mas não quiseram. Ou, pelo menos, não puderam. O fato é que quase tudo de relevante da trama do jogo está em seus primeiros quarenta minutos, funcionando como uma mera “desculpa” para se dizer que existe algum motivo para os zumbis e para a existência do jogo. Isso faz com que tudo seja simplesmente improvisado de forma forçada. Se dá para aceitar um MGS com os temas propostos, já não dá para engolir a forma forçada com que tudo acontecesse. É esperar demais que soe natural que se forme um portal para Dite JUSTAMENTE na base do MSF, JUSTAMENTE quando Big Boss havia acabado de fugir e que JUSTAMENTE um soldado do grupo consiga não ser sugado, sobreviver à queda e ser convenientemente infectado para serve de “agente perfeito” para a missão da Sessão Wardenclyffe. Muito mais natural teria sido contratarem ex-soldados da MSF devido a competência deles em campo. Dificultaria um pouco a reciclagem de gráficos (e olha que os pedaços destruídos que aparecem em Dite não são da mother base da MSF, mas da dos Diamond Dogs), mas seria mais honesto.
Em questão de jogabilidade, Metal Gear Survive tem muitos acertos. Quase tudo já estava pronto devido ao trabalho soberbo que fizeram no Phantom Pain, e a forma de se controlar o personagem, atirar, golpear, se esgueirar e tudo mais, é uma das mais gostosas em um game de ação em terceira pessoa. Tudo flui com a mesma naturalidade que os jogadores já viram. E houve um bom trabalho em adaptar a forma de se jogar com Big Boss para um jogo de sobrevivência. O personagem não é um super-soldado, medidores como fadiga fazem com que seja preciso ter cuidado e ser econômico com as ações, as opções de combate tornam complicado enfrentar vários inimigos diretamente.
Com um tempo isso vai mudando. É possível evoluir o personagem e comprar novas habilidades que o deixam mais competente no combate corpo-a-corpo, mais forte e resistente, além de melhor equipado. Algumas coisas no entanto, continuam sendo uma regra. Fome e sede fazem o personagem ter menos vida e fadiga para enfrentar os inimigos, e independente do quão forte o personagem esteja, não prestar atenção nessas coisas pode deixar o personagem incapacitado para lidar com situações desesperadoras. O problema é que a forma de conseguir recursos para sobrevivência não é muito divertida ou animadora. Resta ao jogador ficar andando por mapas vazios e sem graça à procura de animais ou, mais para frente, criar plantações no acampamento, que usa sistema semelhante ao da mother base, conceito que por algum motivo obsessão do jogo desde o Metal Gear Peace Walker.
Fora da base, o jogador logo descobre que precisa entrar nas áreas de névoa. Locais perigosos, com visibilidade baixa, onde o mapa não está disponível e inimigos rondam a todo canto. Nessas áreas, onde reside o verdadeiro desafio do jogo, é preciso também gerenciar o oxigênio, pois não é possível lá respirar. Boa parte do gameplay está atrelado a esse lugar, pois é onde se consegue a maioria dos recursos para se criar itens e equipamentos, bem como novas receitas para se permitir o uso de armas mais avançadas.
https://www.youtube.com/watch?v=iWVs5LkrveI
O jogo consegue ser bastante divertido nesses momentos. Com sua jogabilidade muito bem implementada, é uma boa distração entra nas áreas de névoa, explorar o lugar, coletar recursos, tentar não chamar muita atenção dos zumbis e então criar equipamentos novos. Há algo de viciante nessa fórmula e ela funciona muito bem. Pode ser bastante divertida e até mesmo empolgante. O problema é que, no que toca o single player, isso é basicamente a única coisa que o jogo tem para oferecer.
A forma como as missões do jogo progridem não ajuda muito. Basicamente tudo se resume a entrar nas áreas de névoa, chegar até um lugar, pegar informações de um terminal, ativar uma máquina de teletransporte e retornar para a base. No acampamento, duas I.As que auxiliam o personagem terão alguns diálogos muito breves com os NPCs, que podem eu dizer coisas divertidas, bem ao estilo Metal Gear, ou óbvias como “ele morreu devido a tiros, se minha teoria estiver certa, deve ter sido morto por pessoas, não zumbis”.
É possível se divertir com Metal Gear Survive, e as partes do jogo que receberam atenção conseguem ser bem executadas. O problema é que em sua maior parte, tudo parece ter sido feito de forma apressada e vazia, quase como se quisessem testar uma proposta sem ter o problema de criar um jogo completo. Menos que Spin-off, Metal Gear Survive é quase um “modo extra” de Phantom Pain. Funcionaria bem dentro desses termos, mas como jogo em separado, acaba lhe faltando corpo para apresentar algo que valha a pena a compra.
Um jogo mediano, com potencial desperdiçado. Fosse feito com mais afinco e carinho, poderia não só ter uma grande história à lá Metal Gear, mesmo usando os seus temas, como apresentar um gameplay vasto e variado com as possibilidades de survival e craft que apresenta. Infelizmente, de todas as abordagens que Metal Gear Survive poderia tomar, a obra parece querer ficar no meio termo de não desenvolver nada. Isso para não mencionar as microtransações (10 dólares para poder ter outro save), e só poder jogar o singleplayer enquanto conectado à internet, que só servem para ofender o jogador. É possível se divertir com Metal Gear Survive… mas é melhor deixar isso para quando houver uma grande promoção.




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