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Indicada ao Hugo Award de 2016 (um dos mais importantes prêmios no campo da fantasia e da ficção científica), O Divino é uma HQ curta, que mistura guerras modernas, fantasia e crianças soldado em uma história simples e direta, mas eficiente. Escrita pelo israelense Boaz Lavie e ilustrada pelos gêmeos, também israelenses Tomer e Asaf Hanuka, a obra não revoluciona, mas é bastante competente em sua mistura de temas, apresenta uma ótima união entre arte e roteiro, e deixa explicitas referências muito boas, indo de do mangá Akira à histórias verídicas sobre crianças que se viram obrigadas a guerrear.


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O roteiro segue o olhar de Mark, um americano expert em explosivos que está para ter o seu primeiro filho e acaba aceitando um trabalho freelance oferecido pelo seu velho e babaca amigo Jason. A tarefa acaba levando-o para o Quanlom – país fictício do sudeste asiático – onde seu caminho cruza com um grupo de crianças-soldado lideradas por dois gêmeos conhecidos como “O Divino”. Entre o seu trabalho, sua consciência, e sua amizade com Jason, Mark acaba entrando em um confronto que envolve a destruição das armas modernas e o poder bruto da magia desconhecida.

A arte de O Divino logo salta aos olhos. Não é que ela seja a melhor que pode ser encontrada por aí entre várias histórias em quadrinhos indie e mais comerciais. Mas o trabalho de Tomer e Asaf Hanuka acaba sendo bastante distinto, característico. É possível perceber certa influência japonesa, mas os desenhos não são só isso, combinando muito bem uma estética oriental e ocidental, e também algo meio Gorillaz para culminar em uma arte que poderia se tornar a marca da dupla.

Os quadros mais próximos dos personagens nem sempre parecem bons, se sobressaem os que mostram grandes planos e paisagens. De perto, as crianças-soldado podem parecer mau desenhadas. Algo como uma criança-velho-bicho. Mas isso casa muito bem com a proposta de apresenta-las como seres que perderam a sua infância, que não são o que deveriam ser. Os cigarros aos lábios, as vezes dois ou três, são apenas uma cereja no bolo.

Ainda assim, a obra não seria tão bela sem o trabalho das cores. Sempre chapadas, sempre destoando-se uma das outras para compor cenas belíssimas, cheias de ênfases e emoções, elas conseguem não só caracterizar os personagens, como a própria terra de Quanlom em um efeito curioso em que menos cores fazem tudo parecer mais vivo e mais colorido.

Se a arte é digna de nota, o roteiro de Boaz Lavie é apenas bom. Ele funciona para levar a história adiante e é bastante competente em apresentar elementos, e conceitos e ideias tudo certinho no momento em que se deve para serem usados mais tarde para compor a história. É bem adequado para uma história curta, mas a narrativa é bastante comum e não chama tanta atenção. Um ritmo bem padrão sem nada que pareça muito extraordinário. Bem feito, redondo, mas pouco além disso. Ficando atrás do próprio conceito da história.

E foi realmente uma ideia muito interessante essa mistura da “democracia” americana com os mistérios de um país asiático, sem falar no uso das crianças soldados. Os gêmeos “O Divino” são inspirados em dois personagens históricos Johnny e Luther Loo. Se a atividade das crianças, tão jovens, mas ainda assim tão velhas, calejadas, brutais e impiedosas parece inverossímil, infelizmente não deixam se adequar à realidade. Os personagens históricos lideravam a guerrilha Exército de Deus e, como muitas crianças em situações semelhantes, perderam tudo o que tinham devido a forças invasoras e acabaram vivendo apenas para a guerra. Se os poderes mágicos da dupla real eram verdade ou lenda, não compete a essa resenha se debulhar, mas o gêmeo super-poderoso da HQ tem as suas habilidade completa e competentemente inspiradas em Akira, sendo a manifestação dos poderes alguns dos momentos mais terrivelmente belos a serem representados pela arte.

Os personagens são muito bem trabalhados dentro da limitação de tamanho e espaço dos personagens. Mark é um protagonista interessante, e suas ações e sua vida pregressa ao trabalho em Quanlom são bem estabelecidos no início da HQ. Jason também tem o seu destaque, sendo um completo “asshole” no maior estilo soldado machão americano. Funciona muito bem para a proposta, e a interação dele com Mark é bem trabalhada. Os gêmeos “O Divino” entram numa categoria a parte. A personalidade é bem estabelecida, com segmentos mostrando as duas faces das crianças soldado, e com a arte funcionando muito bem para irem apresentando tanto eles quanto o resto de seu grupo de guerrilha.

A história não é para quem busca grandes cenas de ação. O Divino possui a sua dose de violência, mas ela vem de forma mais pessoal e menos na forma de uma guerra expressa. Mais como o clima de medo e as incertezas de um tour durante a guerra do Vietnã do que os confrontos diretos nos fronts europeus da Segunda Guerra Mundial. A obra possui um roteiro bem direto e econômico, não se valendo de fanservices de violência ou adrenalina, mas mostrando apenas o que precisa. É o suficiente.

O Divino é uma boa história, interessante e cheia de potencial. Entre os vários heróis Marvel e DC, é uma boa pausa para se refrescar em uma obra autoral mas ainda assim com um pé no entretenimento. Para o leitor brasileiro, a grande vantagem é o seu preço. Apesar de custar elevados R$ 59,90 para as parcas 160 páginas, pode ser encontrada por apenas 19,90 em várias das promoções. Precisando apenas dela para ler e se divertir, é uma ótima opção para passar a tarde com algo diferente e de boa qualidade. Sem dúvidas, um ótimo lançamento do Geektopia, selo da Novo Século que está trazendo boas HQs com uma pegada mais alternativa. Tomara que continuem com o bom gosto e a trazer mais material.



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