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Tom King é um roteirista que está pavimentando a sua carreira. Nos últimos anos, seu trabalho na Marvel na revista do Visão atraiu bastante atenção da crítica e do público, embora pequeno, que conseguiu reunir. Mais recentemente, conseguiu o título principal do Batman no Rebirth, chamando atenção para um trabalho de qualidade que abriu muito bem a nova fase do homem-morcego. No entanto, há um trabalho anterior que pode merecer tantos ou mais elogios quanto essas duas séries. Publicado esse ano pela Panini, o primeiro encadernado de O Xerife da Babilônia (lançado em 2015 lá fora), já apresentava uma qualidade impar. Com personagens bem construídos, conceito bem pensado, e um belo domínio da técnica narrativa, além de casar muito bem com a bela arte de Mitch Gerads, a obra é digna das velhas histórias do selo Vertigo e apresenta um trabalho quase impecável.


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O ano é 2004, o local: Baghdad. Se valendo da história da Invasão do Iraque, a obra mostra uma cidade semi-destruída, se recuperando com dificuldade dos esforços americanos para tomar o lugar. Saddam foi expulso da cidade, os americanos tentam colocar ordem no lugar através da Zona Verde e os iraquianos buscam se organizar em um governo que atue entre o próprio povo e os americanos. Neste panorama, o honesto e esperançoso policial Chris Henry é contratado para treinar policiais iraquianos, se vendo em situações além de sua própria alçada. Já Nassir, grisalho veterano da força policial de Saddan e pai de duas filhas mortas por bombas americanas, só quer ver seguir em frente com sua vida. Além disso, há Sofia. Criação americana, mas coração iraquiano, a jovem ocupa uma cadeira no conselho e sabe sempre com quem falar para ver as coisas serem feitas. Um assassinato e algumas ligações de celular os une. E logo a investigação que deveria ser simples os coloca na mira dos fundamentalistas que se escondem em uma Baghdad cheia de cicatrizes.

A obra é bastante direta. Estabelecendo sua ambientação após a Batalha de Baghdad com maestria e apresentando dados históricos o suficiente para que um leitor atento saiba o que está se passando. Não há muita explicações nesse ponto, o que talvez seja complicado para alguns leitores brasileiros, provavelmente menos familiares com os eventos do que o público americano. Mas isso não importa tanto. As questões históricas estão lá para quem consegue captá-las ou para quem vai atrás delas, o importante é como a dupla King e Gerads trabalham para criar o tom e a personalidade da obra.

Personagens, ambientação e narrativa. Esses são os três pilares de O Xerife da Babilônia, e pontos que são atingidos com precisão cirúrgica. Tudo colabora para ir criando uma bela visão do que está acontecendo. A introdução de cada personagem consegue apresentar muito bem as suas principais características ao mesmo tempo em que aproveita para mostrar o funcionamento da cidade. Destruição, violência, política, atentados à bomba… mas também momentos de felicidades, amenidades e gargalhadas. Está tudo na obra. Humanidade.
Mas nada é usado de forma leviana ou gratuita. King consegue dosar muito bem o que insere na história, em momento nenhum pintando uma imagem ruim de islâmicos ou iraquianos, apesar de lidar com temas como terrorismo e fundamentalismo religioso. Se ele cumpre bem o seu lado da barganha, também o faz Mitch Gerads, cujos panoramas ilustram muito bem as visões da cidade e de seus habitantes. Os iraquianos estão muito bem desenhados, tendo traços distintos e característicos mas sem cair em estereótipos ou repetições. Os personagens da obra parecem humanos. Tanto em personalidade quanto em aparência. Tanto no roteiro quanto na arte, não há respostas fáceis para a guerra no Iraque, e King e Gerads deixam tudo competentemente em uma área cinzenta onde não existe bem e mal.

E tudo isso meio a um ritmo muito bem estabelecido. O primeiro encadernado de O Xerife da Babilônia possui uma narrativa sensacional, onde nada é desperdiçado. Cada um dos três protagonistas possuem seus arcos narrativos muito bem desenvolvidos, se misturando com o seguimento da trama de forma muito natural. King apresenta toda a sua competência de ser econômico ao mesmo tempo em que apresenta uma obra complexa e cheia de nuances. O encadernado tem apenas seis edições, mas consegue estabelecer e trabalhar três personagens e vários conceitos sem sofrer de superexposição, diálogos carregados por demais ou usar de uma narrativa de apoio. O roteirista claramente sabe o que está fazendo, e tanto o seu domínio da técnica quanto as suas ideias para a trama são muito bons.

A obra é essencialmente visual. E roteirista e artista souberam combinar muito bem os diálogos e os quadros para apresentarem a história e os personagens. Os gestos, as expressões e os movimentos são muito importantes para a formulação da obra, e foram pensados e executados com esmero, cumprindo muito bem a sua função em fazer o leitor ir ligando os quadros para compor a trama. É quase como assistir uma série. E se fosse o caso, dado teor e estilo de desenvolvimento dos personagens e cenário, ela provavelmente levaria o nome de True Detective.

O trabalho de King talvez se sustentasse por si só, mas muito de seu brilho também se deve à Mitch Gerads. O artista conseguiu um estilo muito interessante em seu desenho e tanto os traços quanto as cores servem com perfeição ao conjunto da obra. Tem algo de realismo, sendo possível enxergar as mais diferentes e características feições nos personagens, bem como cenários muito reconhecíveis e adequados à composição, mas ainda assim conserva claramente todo um aspecto de história em quadrinhos com uma trama policial. As cores, do próprio Gerads, são muito bem escolhidas e deixam a arte com um estilo tão característico e interessante que se torna uma pena o artista não ser tão reconhecido. Tudo se encaixa perfeitamente com a proposta de o Xerife da Babilônia e os personagens que ele cria são memoráveis, expressivos e únicos.

O Xerife da Babilônia: Bang Bang Bang é uma ótima obra e vale o investimento por si só. Mais do que uma pena, seria um crime a editora Panini não investir no lançamento da continuação. Uma obra muito bem feita, dificilmente encontrará leitor que desgoste de seu conjunto. Alguns podem ter mais dificuldade em se situar no quando e no onde, mas a trama e o desenvolvimento dos personagens conseguem pôr tudo nos trilhos ainda assim. De qualidade magistral, é um excelente material para o selo Vertigo, que nos últimos anos não tem trazido tanto, nem no Brasil e nem no exterior. É uma obra que o cenário editorial, independente do país, precisa: não se limita, não toma saídas fáceis, mergulhando em temas e construções elaborados, contudo entretém e apresentam ritmo e história impecáveis, capazes de arrebatar qualquer leitor.

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