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Goste ou desgoste de H.P Lovecraft, esse escritor norte-americano do início do século XX se tornou um ícone quando o assunto é o terror e o estranho. Ao longo do tempo o conjunto de sua obra, que veio a ser conhecido como Os Mitos de Cthulhu, se tornou grande referência na cultura pop, influenciando de músicas à jogos de RPG. Quando então Alan Moore, mago inglês que revolucionou os quadrinhos com Watchmen, V de Vingança e trouxe várias outras obras distintas em estilo e qualidade, resolve se embrenhar na mitologia lovecraftiana, a obra resultante é algo que precisa ser prestigiado.


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No entanto, nem sempre as promessas se cumprem. Em sua primeira obra inspirada inteiramente em Lovecraft, a oneshot The Countyard, Moore conseguiu trazer uma história boa, mas não surpreendente e um tanto prejudicada pela arte de Jacen Burrows. Já Neonomicon, desta vez uma minisérie em 4 partes, que prometia uma abordagem dos temas lovecraftianos passada em tempos atuais, conseguiu trazer novas visões e significados para o que foi estabelecido por Lovecraft, mas sua história em si, cheia de polêmicas e, no fim das contas, sem uma trama muito desenvolvida, acabou bastante criticada e considerada muito distante dos bons trabalhos do autor.

Quando Providence foi anunciada, contudo, a expectativa de uma boa obra dos Mitos de Cthulhu escrita por Alan Moore se reacendeu. O mago inglês deixaria de lado a ambientação moderna e usaria o setting original de Lovecraft, situando a história nos Estados unidos 1919, logo antes da Proibição, em uma história completa em 12 edições. O tamanho maior da obra, que poderia trazer um conteúdo mais desenvolvido – além de relembrar a configuração do cultuado Watchmen – e o uso de um cenário mais próximo ao clássico lovecraftiano certamente são bons augúrios, mas a sombra de Neonomicon ainda existia sobre as produções do Mitos escritas por Moore.
A obra enfim chegou ao Brasil este ano, publicada pela editora Panini, dois anos após o seu lançamento original. O encadernado brasileiro “Providence”, traz 4 das 12 edições da série – formato que também foi utilizado pela Avatar Press no exterior – e para a felicidade dos fãs de ambos os autores, esse primeiro ato consegue cumprir o que promete. Mais do que isso, em sua narrativa, o primeiro encadernado de Providence consegue alcançar um patamar de maestria tão alto quanto o de Watchmen. A obra, no entanto, acaba prejudicada em relação à outra por já não revolucionar o segmento e também por ter um público muito restrito.

A história é protagonizada por Robert Black um escritor gay e judeu que de início trabalha como jornalista no New York Herald. A história toma o seu rumo quando, em busca de uma matéria para o jornal sobre o livro Sous le Monde – obra fictícia criada por Moore que, em sua história, teria influenciado O Rei de Amarelo, de Robert Chambers – Black acaba conhecendo o Dr. Alvarez. Versado em literatura e temas ocultistas, Alvarez impressiona a Black, e conversa somada com a menção de um tomo alquímico pouco conhecido, o Kitab Al-Hikmah Al-Najmiyya, incita Black a viajar pela Nova Inglaterra a fim de escrever sobre o “país dissimulado e escondido abaixo da sociedade” que a trilha do livro lhe revelaria.

As palavras ditas por Alvarez na primeira edição estabelecem boa parte do mote da obra: “Eu tenho os meus segredos e você tem os seus, creio. Outras pessoas também”. Conforme viaja, Robert Black entra em contato com segredos de vários personagens que conhece, enquanto lida com as suas próprias omissões e dissimulações. Gay e judeu, Black esconde ambas características da sociedade ao seu redor, e isso lhe define, afeta sua história e tem um papel crucial para colocar nos trilhos da trama de Providence.

Em sua busca por grupos e pessoas que estariam fora da sociedade convencional americana, Black atravessa várias cidades da Nova Inglaterra, de grandes centros a pequenos interiores, enquanto segue as pistas do Kitab Al-Hikmah Al-Najmiyya. Nesse esquema, cada uma das quatro edições funciona de forma quase isolada, com o protagonista conhecendo mais pessoas envolvidas com questões ocultistas, se embrenhando na história que circula o tomo árabe e conhecendo alguma nova localidade.

Apesar do personagem ter contato com segredos sombrios e verdades inquietantes, na maioria das vezes ele é alheio à tudo isso. A história é vista através do seu próprio percurso, mas Black é incapaz de correlacionar tudo o que ele encontra e acaba colocando uma capa de normalidade na maior parte do que enxerga. O personagem sim, percebe coisas inquietantes. Mas até este ponto do percurso ele enxerga um inquietante apenas mundano e não sobrenatural. Ecoando as palavras de Lovecraft em O Chamado de Cthulhu, o personagem de Moore é poupado do pior devido ao pensamento de que “A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo.”

Mas isso não quer dizer que o leitor não perceba. Ligando os pontos, ou apenas acreditando na possibilidade da existência do fantástico e do sobrenatural, é possível enxergar aquilo que Robert Black não consegue perceber. E assim questões que para ele eram corriqueiras, tomam um aspecto mais perturbador e lovecraftiano. A própria configuração dos quadros da obra servem para sugerir esta ideia de que há muito para se ver, de que há muita coisa escondida e segredos a serem descobertos. As páginas são sempre organizadas em quatro quadros “retangulares” que oferecem uma vista não só do que querem focar, mas dos arredores, cheios de detalhes e nuances. Quase nunca Black ou suas reações é o único foco dos quadros, mas sim o que existe aos arredores e a busca por mostrar que tudo é vasto e pode conter segredos.

O leitor tem muita mais facilidade do que Robert Black em visualizar o que se esconde por trás da normalidade, mas isso não quer dizer de forma nenhuma que Providence é uma obra direta ou que deixa tudo muito explícito para o leitor. Moore passa as informações à conta gotas e na maioria de forma indireta. O mago inglês vai criando um mosaico tanto com questões históricas da época – através de diálogos, da composição dos quadros ou de detalhes sem muito enfoque – quanto do universo lovecraftiano que ele vai criando. Ele brinca tanto com a simbologia ocultista quanto a do próprio Lovecraft e assim como a distribuição dos quadros em suas páginas, a história também é feita de camadas. Uma leitura bastante atenta é tudo o que basta para entender a história de Providence, mas para reconhecer todas as referências, um leitor precisa de conhecimentos além dos explicitados apenas na revista.

É claro que a maior dessas referências é a obra de Lovecraft. A todo momento saltam pontos de interesse, personagens ou acontecimentos que remetem ao mestre do horror cósmico. E não se trata apenas de utilizar os seus contos mais famosos, como O Chamado de Cthulhu ou Nas Montanhas da Loucura. Muitas das referências utilizadas por Moore se baseiam em histórias que provavelmente apenas um fã de Lovecraft que tenha consumido todos os seus escritos poderia captar. Isso cria uma terceira camada interpretativa da obra. Além da camada do mundano, percebida por Black, e a do sobrenatural, visualizada pelos leitores. Quem conhecer e identificar os elementos lovecraftianos utilizados em Providence poderá correlacionar personagens e locais com diversas outras obras, adentro ainda mais nos segredos que cruzam o caminho de Robert Black. No entanto, isso nem sempre é fácil ou direto. As referências podem ser muito sutis e, ao invés de usar diretamente nomes e personagens, Moore acaba por usar “versões” levemente diferenciadas deles. Ou com outros nomes ou com outras características, mas podendo ser remetidos ás suas histórias originais. Além de, claro, entranhar esses velhos (des)conhecidos com criações novas feitas especificamente para Providence e misturá-las com referências à Neonomicon e The Countyard.

Mas há ainda mais. Se Providence é uma obra lovecraftiana, ela também é uma obra anti-lovecraftiana em certo sentido. Polêmicas à parte, Lovecraft enquanto pessoa era dado a comportamentos xenófobos, racistas e preconceituosos, e Moore parece oras zombar oras escancarar estas questões em sua obra. O protagonista, gay e judeu, é quase uma afronta ao criador dos Mitos de Cthulhu, ao mesmo tempo, os personagens de Providence podem ser ostensivamente preconceituosos, sem a dissimulação que Lovecraft usava em suas obras para rebaixar culturas, raças ou comportamentos sem parecer que estava colocando uma opinião em tais aspectos. De forma semelhante, o sexo e a sexualidade são sempre presentes em Providence, tanto no ponto do protagonista gay se manter furiosamente no armário quanto em assuntos como pedofilia e bestialidade que são insinuados como parte do mundo ocultista durante a história.

Muito puritano e com problemas com o sexo oposto, Lovecraft ainda assim usava – de forma consciente ou inconsciente – muitas metáforas relacionadas à genitália e atos sexuais como parte de suas criaturas, colocando como algo anormal e aterrorizante em seus monstros. Moore pega essa e outras características do autor e as expõe, tanto fazendo uma releitura menos recatada da obra do autor quanto mostrando que, assim como os personagens de Providence, Lovecraft também tem segredos.

Providence faz um trabalho genial em expor a sua trama, dividir a sua narrativa em camadas e trazer uma nova visão – talvez uma visão muito real – sobre o trabalho de Lovecraft. No entanto, o ritmo lento e cuidadoso da história pode afastar muitos leitores. Sem falar de que boa parte do interessante da obra surge com o conhecimento das obras de Lovecraft e outros temas de terror. Muito sutil, mesmo aqueles versados nos trabalhos de Moore podem não conseguir aproveitar o que Providence tem para oferecer. Apesar de toda sua qualidade e do trabalho magistral que a dupla Moore-Burrows fizeram, esta é uma obra que apresenta muitas barreiras para ser aproveitada em sua plenitude por muitos leitores e acabará relegada a um nicho pequeno dos fãs tanto do mago inglês quanto do mestre do horror cósmico.

Assim, o primeiro arco de Providence é uma ótima obra em si só. Mas de forma nenhuma é uma obra que funciona sozinha. Ele é claramente um início, um prólogo e, da forma como foi escrito, melhor teria sido lançado em apenas um volume, para que pudesse ser lido todo de vez. É possível que nas edições seguintes Moore perca a mão, como foi em Neonomicon, contudo, com início tão proveitoso, é de se imaginar que isto não acontecerá e que, no fim das contas, esta seja a melhor obra inspirada em Lovecraft que já alcançou os quadrinhos.

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