
“Reino do Amanhã” começa com uma profecia, tirada diretamente da bíblia e acompanhada pelas imagens do fim dos dias. Wesley Dodds, o Sandman original, está vivendo nos mais sombrios dias do Universo DC, mas ele vê algo infinitamente mais sombrio pela frente. Wesley testemunhou a destruição do mundo e ele tem pouco tempo para convencer seu pastor, Norman McCay, de fazer algo a respeito. Norman precisa achar ajuda. Infelizmente, as únicas pessoas que podem ajudar são as mesmas que são a causa do apocalipse.
O artista (e coautor) Alex Ross e o roteirista Mark Waid mostram um futuro em que o Universo DC é habitado por uma nova geração de super-humanos (sim, eles não tem nada de heróis). Houve uma explosão populacional de meta-humanos e o mundo é reinado por vigilantes imprudentes que lutam uns contra os outros apenas pelo prazer da ação, sem se preocupar com os efeitos de seu comportamento destrutivo. Cidades são destruídas, prédios são demolidos sem nenhuma preocupação com os inocentes que os habitam. Durante uma destas lutas, um horrível acidente acontece. O estado do Kansas é devastado, deixando milhões de mortos e causando uma crise financeira global. O responsável é o herói Magog que usou uma força desmedida (e desnecessária) para derrotar o Parasita.
O sucesso de “Reino do Amanhã” acontece graças à complexidade do mundo que Ross sonhou para sua história. É, ao mesmo tempo, uma homenagem a tudo de bom que o Universo DC já criou, misturado com aquilo que o mesmo universo se tornaria dentro de 30 anos. Ross e Waid imaginaram o que aconteceria se os maiores heróis se retirassem para abrir espaço para uma nova geração, livres das restrições da verdade e da justiça, aquelas virtudes que inspiraram as massas no passado. É impressionante como esta história se expande no Universo DC, Waid e Ross conseguiram envolver diversos personagens e lugares em um conto fantástico. As páginas estão repletas de personagens, mas, ao contrário do que se pode imaginar, a história não é prejudicada por isso, ela é enriquecida.
A arte de Ross é um trabalho cheio de amor. Com sua habilidade detalhista, ele consegue imaginar o futuro do Universo DC de maneira surpreendente, mas lógica. Em certas páginas, temos tantos personagens que eles simplesmente se tornam parte do cenário, enquanto você se concentra na ação que toma conta dos painéis. Vale a pena parar e olhar cada milímetro dos desenhos. Ross cria sua segunda geração de heróis fazendo uma homenagem à cultura pop em geral, são inúmeros personagens inspirados nos quadrinhos, literatura e entretenimento. Sherlock Holmes está do lado do Questão, o Sombra e Rorschach estão em um quadro, enquanto uma equipe superpoderosa do Village People se esconde em um canto de um quadro. É um ótimo exercício prestar atenção em cada quadro para achar algum Easter Egg.
Como todos sabem, Ross usa fotos como referência para seu trabalho e isso tem um efeito espetacular nesta HQ. O artista faz com que os personagens pareçam vivos, é como se fossem fotografias de um filme de super-heróis. Cada painel traz uma expressão realista atrás da outra, seja de admiração, tristeza, terror ou amor. O estilo de Ross permite que seus personagens “atuem” e as emoções sejam transferidas para as páginas, dando uma dimensão de realismo que produz um efeito fantástico no leitor. Além disso, Ross sabe quando focar em um personagem para trazer mais dramaticidade para a cena, demonstrando seu talento como artista e contador de histórias.
Reino do Amanhã não existe apenas para entorpecer os leitores com páginas maravilhosamente trabalhadas. A HQ possui um roteiro que é tão bem executado quanto o trabalho artístico. A América sofre nas mãos de megalomaníacos que se chamam de super-heróis, enquanto Superman, Mulher-Maravilha e Batman se desentendem quanto à forma de consertar as coisas. Superman é apresentando como um Jesus Cristo, ele quer ensinar à nova geração o significado de heroísmo, mesmo que precise usar a força para fazer isso. A Mulher-Maravilha sente o mesmo, porém, sua ideia de força é bem diferente daquela do Homem de Aço. Batman, mais cheio de si do que nunca, decide não se unir aos seus antigos colegas de equipe e opta por uma abordagem mais discreta e disciplinada para atingir o inimigo. Aqui vemos a Trindade tentando achar uma forma de colocar o mundo de volta nos trilhos, visto que os cidadãos estão cansados de serem ameaçados pelos meta-humanos.Tudo isso é observado pelos olhos de Norman McCay, que foi escolhido pelo Espectro para observar os eventos que levarão ao fim do mundo, fruto da profecia.
É interessante como a história de “Reino do Amanhã” se torna mais sombria a cada página, mas ainda assim, mantém a essência de seus personagens. A situação em que Superman e Mulher-Maravilha se encontram é complicada e impossível de ser resolvida de forma simples. Os heróis percebem que as decisões que eles tomaram em tempos anteriores, abriram espaço para este futuro negro. Enquanto Batman sempre foi um herói torturado por seu passado, Waid faz um trabalho inteligente ao mostrar como Superman e Mulher-Maravilha não estão acostumados em ver a vida de uma perspectiva similar à do Cavaleiro das Trevas.
O roteiro de Waid é habilmente desenvolvido, sem pausas e repleto de camadas. “Reino do Amanhã” tem um bom número de personagens, histórias e ideias que se desenvolvem simultaneamente, mas Mark Waid consegue garantir que a história nunca fique confusa. Ele também mantém um tom religioso na história, usando citações e referências bíblicas para construir a profecia de Dodds. O escritor usa o seu famoso talento para o diálogo, especialmente no caso do Batman, que é sempre sarcástico e, alegremente, toca na ferida de todos. Quando Superman vem recrutar o Batman, ele não resiste e chama o Homem de Aço de “Clark”, mesmo depois do Superman pedir que o seu nome humano seja evitado.
No fim, temos um epílogo de oito páginas que é totalmente emocionante e reúne a Trindade depois de um ano após os eventos de “Reino do Amanhã“. Waid traz a tridimensionalidade dos heróis, que é tão rara nas adaptações mais modernas. Eles estão felizes, confortáveis uns com os outros, eles ficam frustrados com as peculiaridades das personalidades de seus colegas (principalmente do Batman), mas eles não conseguem manter segredos, eles são amigos, eles são uma família.
“Reino do Amanhã” é uma história que lembra aos heróis que todos eles possuem um poder fundamental para proteger a humanidade: prover esperança. Os heróis foram derrotados, tiveram seus espíritos quebrados, o mundo se tornou um inferno, mas no fim, eles encontram a determinação necessária para vencer. A mesma determinação que os definiu quando eles apareceram pela primeira vez há algumas décadas. Ross e Waid, com um enorme respeito pelos personagens, fizeram algo fascinante. E ainda que pareça impossível, eles fizeram com que tudo isso fosse crível.





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