Quando Resident Evil foi lançado, em 1996, o game já contava com muitos dos elementos que conquistariam jogadores por anos a fio. O título da Capcom consolidou o gênero survival horror ao unir escassez de recursos, quebra-cabeças e o bom e velho backtracking: uma mecânica essencial que exigia que o jogador memorizasse rotas e retornasse constantemente a áreas já exploradas após obter chaves ou itens específicos para liberar o avanço na campanha.
Durante muito tempo, essa foi a fórmula de sucesso de Resident Evil, até que em 2005, o diretor do primeiro game, Shinji Mikami, resolveu aproveitar o novo hardware para levar a franquia a uma direção diferente. Com um novo sistema de câmera, Resident Evil 4 mostrou que o velho game de survival horror poderia sim apostar na ação. Claro, a identidade ainda estava ali (mesmo sem zumbis), mas era uma… nova forma de Resident Evil – e não à toa, serviu como porta de entrada para muitos jogadores.
O problema foi o que aconteceu depois: com a saída de Mikami da empresa, a Capcom começou a apostar cada vez mais na ação, e títulos como Resident Evil 5 e 6, embora tenham vendido bem, deixaram os fãs com um gosto amargo na boca. As reclamações foram suficientes para que a Capcom reimaginasse a franquia mais uma vez, trazendo Resident Evil 7 e Resident Evil Village, que embora mudassem mais uma vez a perspectiva do jogador, agora para uma câmera em primeira pessoa, parecia muito mais próximo dos games clássicos, apostando na tensão, no horror e na sobrevivência. E nesse meio tempo, remakes de Resident Evil 2, 3 e 4 relembravam aos jogadores o que, afinal, tornou essa série tão famosa.
Olha, eu lamento a longa introdução, mas sinto que essa retrospectiva se faz muito necessária para que eu comece o meu review da forma correta, com a afirmação mais honesta possível: Resident Evil Requiem é simplesmente a Capcom encontrando finalmente o caminho perfeito para agradar todos os fãs e jogadores. E o momento não poderia ser mais propício, já que este ano comemoramos os 30 anos de Resident Evil.

Leon e Grace
Para construir o casamento perfeito entre as duas diferentes direções que a série seguiu ao longo de suas três décadas de vida, Resident Evil Requiem nos coloca no controle de dois personagens: a primeira é Grace Ashcroft, uma analista do FBI, filha de Alyssa Ashcroft, personagem que conhecemos em Resident Evil Outbreak, um dos mais famosos derivados da franquia. O segundo, claro, é o nosso agente preferido: Leon Scott Kennedy, mais badass do que nunca aos 51 anos de idade. Na flor da idade.
Diferente de Resident Evil 2, onde Leon e Claire tinham cada um sua campanha, Resident Evil Requiem traz uma campanha só, onde a narrativa é quem decide com qual personagem jogamos, de acordo com o momento da história. Os momentos de gameplay de Grace e Leon são intercalados, o que só serve para intensificar as diferenças entre os dois.
Grace representa as raízes clássicas da franquia, com muita escassez de recursos, doses cavalares de backtracking e uma tensão desesperadora a cada esquina, já que, além de ser mais fraca, ela também conta com menos munição. Dessa forma, encarar até o mais simples e solitário zumbi exige estratégia (e muitas vezes fugir pode ser a melhor opção).

Já Leon… bem, é o Leon. Os momentos em que jogamos com o agente da DSO são repletos de ação, e munição nunca é um problema – exatamente como em Resident Evil 4. Aliás, quem é fã desse game em particular vai se sentir ao casa, já que há uma nostalgia forte ao redor dele no que se refere ao Leon aqui. Até mesmo a boa e velha maleta está de volta, então se prepare (se for como eu) para gastar alguns bons minutos de sua jogatina arrumando os itens do inventário.
Inclusive, embora o jogo conte com a opção de escolha de câmera entre primeira ou terceira pessoa para ambos os personagens, vale dizer que a Capcom sugere, antes mesmo de você começar o game, uma forma “canônica” de se jogar. Essa sugestão seria com Grace em primeira pessoa, para elevar o foco na tensão e no medo, e Leon em terceira pessoa, destacando toda a ação e os inúmeras cenas de finalização que o personagem possui.
Um equilíbrio perfeito
Eu sei que falando assim, pode parecer que Resident Evil Requiem oferece duas gameplays completamente distintas, mas não é esse o caso, e é justamente nesse detalhe que o game brilha para mim. Embora Leon ofereça uma satisfação dopaminérgica através da violência, isso não quer dizer que jogar com ele seja ação desenfreada e sem sentido (coff Resident Evil 6 coff). Especialmente na segunda metade do jogo, também há certa quantidade de backtraking com ele.
Da mesma forma, o gameplay de Grace não se trata apenas de fugir e se esconder. Embora exija uma abordagem mais clássica e estratégica a respeito de seus recursos, jogar com Grace também traz sua dose de confrontos e explosões. Para isso, a Capcom introduziu algumas novas mecânicas para a personagem. A mais interessante tem a ver com a criação do Injetor Hemolítico, um item que não apenas permite eliminações furtivas por parte de Grace, como também impede que zumbis já derrotados retornem como “cabeças pustulentas” – a versão mutada das criaturas.

Para criar o item, o jogador conta com um Coletor de Sangue, um aparelho com o qual Grace pode – como o nome já indica – coletar amostras de sangue de inimigos derrotados. Aqui, também se faz necessária uma gerência com certa estratégia, afinal com o sangue coletado não apenas é possível fazer injetores hemolíticos, mas também Esteroides (que aumentam a vida máxima) e Estabilizadores (que aumentam o poder de fogo e a estabilidade das armas.
Aliás, ainda sobre Grace, é interessante observar como a Capcom até tentou ao longo dos anos inserir alguns novos protagonistas para a franquia, mas sem nunca conseguir se livrar da dependência daqueles que definiram os seus primeiros games (entenda-se: Chris, Jill, Leon e Claire). Porém, dependendo dos caminhos que o estúdio decida seguir com a série daqui em diante, Grace pode muito bem figurar entre os grandes. Além de extremamente carismática, Grace é uma personagem construída com muito cuidado pela equipe de narrativa do game. E isso vai de seu forte senso de proteção ao simples e simpático fato de gaguejar incessantemente quando nervosa.

Sem entrar em muitos detalhes, a trama inclusive gira em torno dela, o que se reflete na quantidade de tempo que jogamos na pele da personagem na primeira metade do game. Mas calma, embora inicialmente pareça que não, você vai ter tempo de sobra com o Leon…
De volta a Raccoon City
Não é segredo para ninguém que Resident Evil Requiem nos leva de volta para Raccoon City, afinal parte do marketing do game foi fortemente sustentado nisso, com cenários não apenas da cratera na cidade, mas da saudosa R.P.D., a delegacia de polícia onde tudo começou para Leon S. Kennedy.
Assim, como não poderia ser diferente, essa parte do jogo é bastante focada em nostalgia. E sim, isso é feito muito bem. Existem as referências mais óbvias, e também as mais sutis – algumas meramente visuais, feitas para deslumbrar o fã hardcore da série.

Como a Capcom deixou claro que o game é um “réquiem” para a Umbrella e suas pesquisas, é normal também que tenhamos alguns retornos e revisitações, mas chega um ponto que sinto que o estúdio pesou a mão nesse quesito. A partir do momento em que a nostalgia começa a servir de muleta, o jogo passa a transparecer uma certa preguiça em seu terço final.
A originalidade presente em 75% do game começa a dar espaço para uma série de repetições que, embora muitos considerem como “parte do pacote” quando falamos dos jogos mais clássicos de Resident Evil, acaba soando apenas como uma certa preguiça em continuar seguindo um caminho original – que sim, seria possível mesmo com a alta dose de nostalgia.
Deixando claro, não é que isso torne o jogo ruim, mas simplesmente o impossibilita de ser… muito mais. O que tornou jogos como Resident Evil 2 e Resident Evil 4 tão marcantes, foi justamente os aspectos que os diferenciavam dos demais – seja em trama, cenários ou nos inimigos icônicos. Já Requiem tinha tudo para seguir o mesmo caminho de autenticidade de seus irmãos, mas acaba sendo “menos”, quando se resume a homenageá-los.
Veredito

De uma forma geral, inegavelmente, Resident Evil Requiem é um dos melhores games da série. Não apenas isso, mas, para quem é fissurado em lore, dá até para dizer que é o que mais oferece isso desde mais de uma década, especialmente se considerarmos que o sétimo e o oitavo capítulos funcionam quase que de uma forma separada (e ninguém tira da minha cabeça que a ideia ali era fazer um soft-reboot que não deu muito certo).
Resident Evil Requiem mostra que a Capcom finalmente entendeu que é possível agradar todos os estilos de jogadores que a franquia conquistou em seus 30 anos, sem precisar deixar para trás qualquer parte de seu legado. Na verdade, de certa forma, esse é um jogo sobre legado.
Mesmo que o peso dessa própria história faça o título tropeçar em seu terço final com um excesso de nostalgia, a jornada até lá é impecável. Ele abraça absolutamente tudo o que veio antes – os acertos, os exageros, a tensão e os personagens icônicos -, entregando uma verdadeira carta de amor a quem acompanhou essas três décadas.
É a celebração definitiva de um passado glorioso e, com a introdução de uma protagonista tão bem construída quanto Grace, a promessa de um futuro com fôlego renovado. Para o fã, Requiem não é apenas um título obrigatório; é a prova definitiva de que o survival horror clássico e a ação desenfreada podem, sim, coexistir em perfeita harmonia.
Leia mais sobre Resident Evil:
- Siga o O Vício no Google e não perca nada sobre Cultura Pop!
- Resident Evil Requiem mostrará Leon com “raiva implacável” e atitude brutal, diz diretor
- Resident Evil Requiem começou a ser produzido há 6 anos, confirma Capcom
- Desenvolvedora: Capcom
- Publisher: Capcom
- Plataformas: PlayStation 5, XBox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC
- Review feito no: PlayStation 5






Comentários