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Sem poder contar com a verba megalomaníaca ou as equipes enormes que compõem um jogo AAA, não é de se admirar que os estúdios independentes busquem a inovação para trazer um diferencial  para seus jogos, naturalmente de escopo menor. Seja no conceito, na jogabilidade, na estética ou até mesmo em uma busca pela excelência técnica e comprometimento com uma ideia que possui apelo para um público órfão, os bons jogos independentes conseguem conquistar o seu espaço e alcançar a sua razão de ser. Resonance – The Lost Score, desenvolvida pela Demerara Games, grupo brasileiro sediado no Rio Grande do Norte, faz parte desse conjunto que consegue aliar a sua visão com uma criação bem construída e inovadora. Sendo uma obra divertida e inovadora, sem se render a fórmulas já passadas.

Na obra, o jogador comanda o personagem Wez, que finalmente encontrou pistas concretas do paradeiro da mística Partitura Perdida. E para ser bem sucedido nessa jornada, é preciso não só se valer no bom uso do reflexo nos botões, mas também da própria voz. O jogo surgiu  no Global Game Jam de 2017, cujo tema foram “ondas”, e a equipe da Demerara Games resolveu fazer uma obra que utilizasse a ressonância sonora, efeito que, entre outras coisas, possibilita quebrar taças de vidro ao alcançar frequência sonora correta com a voz.

O resultado dessa ideia acabou sendo um jogo de plataforma recheado de puzzles que precisam ser resolvidos tanto controlando o protagonista Wez quanto usando o microfone para entoar a frequência e entonação que atinge cada objeto. E os desenvolvedores conseguiram criar um gameplay muito divertido partindo desse principio.

Não basta sair andando e pulando para passar das fases do jogo, mas usar a própria voz para ir quebrando obstáculos e evitando perigos. Se os “ohhhhs” e “aaaaahs” do jogador servem para destruir os cristais que bloqueiam a passagem, também podem fazer cair do teto espigões que causarão a sua morte. Acaba que tudo vira uma brincadeira muito divertida de conseguir entoar a frequência correta pelo tempo correto para afetar apenas o que é preciso. Errar no tom pode fazer com que o jogador tenha que repetir a fase. E faz parte do jogo perceber qual melhor momento para se destruir um obstáculo, retirar perigos e manipular plataformas com a voz.

A ideia pode afastar os que consideram que tem pouco domínio das próprias cordas vocais, condição que deve ser a da maioria dos jogadores. No entanto, o jogo não é mais difícil que um puzzle normal, e auxilia na hora de reconhecer que tom está sendo usado. Cada frequência possui a sua própria coloração, que interage com os objetos que possuem uma “aura” da mesma cor. Com o tempo, o jogador consegue aprender os macetes e ir passando das fases conforme for necessário. As partes mais difíceis são as que exigem que uma frequência seja mantida por bastante tempo, como no caso de controlar o movimento de plataformas, mas no fim das contas não é tão diferente de desenvolver reflexos e coordenação para jogos que exigem mais “massacre de botões”. Só que é bem mais inovador e potencialmente divertido.

O jogo possui dez fases que precisam não só serem ultrapassadas. Cada uma delas esconde uma nota musical que é utilizada no segmento final do jogo. Para terminar Resonance, é preciso conseguir todas elas. Algumas das notas são adquiridas com mera exploração do cenário, já outras acabam sendo parte de puzzles simples, desafios que seria até mesmo tediosos, não fosse a jogabilidade genial do jogo, que os tornam às vezes divertidos e algumas vezes até desafiadores. Infelizmente, o maior defeito de Resonance é que ele é curto. Algo compreensível dado a sua origem no Game Jam. Mas o pouco que traz mostra as possibilidades realmente fantásticas de se construir puzzles usando a sua jogabilidade.

É claro que numa obra como essa os gráficos não são tão importantes quanto a forma de jogar. Ainda assim, a Demerara traz uma estética adequada e carismática, combinando muito com o estilo do jogo. O personagem Wez é simples, mas as expressões que faz conforme o jogador vai cantando para quebrar os obstáculos são divertidas e engraçadinhas. O cenário também responde à voz do jogador, com flores do background aumentando de tamanho ou se movendo conforme entoa o jogador. É um detalhe bem interessante, mas que talvez fosse aproveitado se viesse em maior frequência e variedade.

Resonance – The Lost Score é um jogo simples, mas bem bolado. Uma produção nacional que merece ser conferida e aproveitada. Já existem vários exemplos de que o Brasil consegue produzir jogos bons e inovadores, e Resonance entra com facilidade nesse rol. Barato, divertido e curto, é um ótimo passatempo para uma tarde. A Demerara Games merece todos os créditos e elogios tanto pela ideia quanto pela execução dessa obra. Agora é aguardar por um “Resonance – Another Score” que traga mais desafios e use todo o potencial do estilo que os desenvolvedores criaram.

Resonance – The Lost Score já foi lançado na loja do Itch.io e também está passando pelo processo de Greenlight na loja da Steam

 

 



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