
Seguindo as consequências do evento das Guerras Secretas e das mudanças editoriais da Marvel na época de seu término, o acabou caindo para Mark Waid a tarefa de tocar o título solo da Viúva Negra, que, claro, como algumas coisas da época, tem todo um ar de soft-reboot e retornou a numeração da revista para um grande número 1. Se alguém poderia pensar que a criatividade do autor para personagens urbanos e com níveis mais humildes de poder de fogo tenha se restringido a sua excelente run em Demolidor, esse palpite acabaria se mostrando errado. Viúva Negra – Na Mira da Shield que reúne as seis primeiras edições da personagem pós guerras-secretas, pode não ser daquelas HQs transcendentais que ficam na memória por uma vida, mas a revista se mostra mensal de herói muito boa e com grandes méritos tanto na narrativa quanto na arte.
E no início, houve sons de gente saindo na mão e olhos arregalados. Não há preâmbulos ou explicações. A Viúva Negra já começa com a mais nova e periculosa INIMIGA DA SHIELD (assim mesmo, em caixa alta). E para o azar da personagem, ela está dentro de um Hellicarier da SHIELD. A história segue daí. Com uma excelente primeira edição (na contagem americana) que deixa o James Bond de lado e se aproxima mais do Jason Bourne e de Tom Cruise em Missão Impossível.
Mark Waid acertou muito na abertura de sua run. Por vinte e poucas páginas ele mostra a Viúva usando toda a sua competência para escapar da instalação da SHIELD enquanto tenta não matar ninguém. É uma sequencia muito boa de ação, com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e onde a personagem precisa se esforçar para sair com vida. Silenciosa, ela responde à profusão de novos perigos e ameaças apenas com movimento, sem nenhuma palavra, e a passagem dos quadros consegue de forma muito competente imprimir o ritmo e a adrenalina da sequencia. Um início realmente promissor, que consegue sincronizar muito bem o roteiro, a arte e as cores.

A HQ desacelera depois, se dando tempo para explicar o que, como, quem, quando e onde. A Viúva Negra acabou se vendo chantageada por um chefão do crime misterioso conhecido como o “Leão Choroso”, obrigando a personagem a se colocar em um caminho que não só atrai a inimizade da SHIELD, como também a faz rememorar o seu passado da Sala Vermelha – onde ela e outras crianças foram treinadas para espionagem e assassinato – e precisar encarar velhos demônios.
Não há dúvidas que a primeira edição contida no encadernado é a melhor, e também a mais impactante, mas o resto da história também tem seus méritos e trazem uma obra divertida e bem escrita. Vários tropes e clichês de histórias de espionagem são usados no decorrer da trama, mas de forma tão eficaz que nem parecem batidos ou enfadonhos demais. Em uma das cenas, a Viúva protege Maria Hill em um cemitério, combatendo inimigos sem deixar que ninguém perceba a guerra oculta que acontece. Cena semelhante deve estar na memória de qualquer leitor, vinda de mais de um filme de espionagem e ação, mas Mark Waid faz valer as páginas e torna a sequencia muito fluida e aproveitável.

A personagem da Viúva está bem escrita. Ela é forte, competente, e capaz, mas não é imortal e tem os seus momentos vulneráveis, principalmente quando lida com o passado. Ela não é a mulher faceira e bem humorada que já foi retratada em fases anteriores, é mais séria e melancólica – efeito que é apoiado muito bem pelas cores de Matthew Wilson – embora tenha seus momentos de graça. Não dá para dizer que ela seja muito distinta. Acaba sendo um pouco genérica demais, sem nada muito próprio dela mesma, como a personagem de Scarlett Johansson, mas para a história de Waid, funciona o suficiente para que o leitor simpatize. O problema maior está no Leão Choroso, o personagem, novíssimo, criado para a história, até começa bem e poderia até crescer para outras histórias caso fosse bem trabalhado, mas no final de contas, apenas decepciona.
É uma HQ boa, na qualidade geral das mensais de super-heróis, e não deixar na mão os fãs do gênero. Mesmo os que não tem muito apreço pela Viúva, podem acabar tendo uma boa experiência e virem a se interessar por mais histórias da personagem. O inicio é ótimo, isso não tem discussão. O desenvolvimento é bom, e agradável. O problema maior, está mesmo no fim, que acabou sendo um pouco apressado e até mesmo anticlimático. É interessante para dizer que vai haver uma mudança na história seguinte, mas deixa um gostinho de história meio crua e que teve algumas boas ideias deixadas de lado e desperdiçadas. Um gancho ruim para a continuação, essa é a verdade. E só mesmo lendo a sequencia – ainda não publicada – para se saber se virá uma boa história em seguida.





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