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Chegando no Brasil três anos após o seu lançamento no exterior, Wytches é a mini-série de terror de Scott Snyder (Batman: A Corte das Corujas) e Jock (“The Losers”, “All Star Batman”) que brinca com o com o conceito das bruxas clássicas e as transforma em criaturas não humanas. A obra tem uma premissa bastante autoral, inspirada em brincadeiras e medos de infância de Snyder, mas apesar da origem inocente e crédula, consegue passar uma trama bem com um clima muito adequado de suspense e um horror bem característico de sua premissa. Boa parte do triunfo do título está na forma como a ideia das bruxas é trabalhada e em como o autor consegue criar uma releitura muito cativante das histórias clássicas de bruxa. O ritmo da obra peca em alguns momentos, mas a soma de suas partes consegue ser muito sólida e atingir direto o objetivo, sendo assim um bom começo para DarkSide editora em seu catálogo de HQs.


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Na trama, a família Rooks acabou de se mudar para a cidade de Litchfield, deixando para trás sua antiga casa após um incidente onde espalhou-se o rumor de que Sailor, a filha do casal Charlie e Lucy, teria matado uma garota de sua idade após ser atacada. Pouco depois de se assentarem na sua nova vida, no entanto, a família descobre que não conseguiu deixar para trás os problemas do passado, e percebe que nas florestas existe uma força antiga e horrível. Charlie e Sailor logo descobrem o que significa ser jurado para as bruxas e como há gerações os humanos tem tido relações sinistras com essas criaturas monstruosas.

Snyder consegue fazer uma boa montagem dessa história de horror. A ideia não é nem o gore e nem o jumpscare, mas algo mais voltado para o terror psicológico. As florestas são vastas e hostis e os personagens estão constantemente duvidando do que viram e do que sentiram. Há um quê de Stephen King na história, sendo um terror bem pessoal, que começa estranho e suspeito, confundindo-se com paranoia e com traumas do passado, para então se mostrar em toda sua forma com criaturas bizarras e sequencias com mais ação e violência onde os protagonistas tentam fazer algo a respeito de sua condição. Isso sem falar na ambientação interiorana, longe das grandes cidades, onde as pessoas tem muitos segredo estranhos a guardar.

O roteiro é bastante competente. Snyder vai desenvolvendo os personagens, a ambientação e suas propostas sobrenaturais com bastante desenvoltura. Há alguns problemas em relação ao ritmo. É fácil de perceber que o autor se prendeu no modelo de seis edições e teve um pouco de dificuldade em inserir tudo o que gostaria ao mesmo tempo em que criava o ritmo apropriado para a trama. Isso fica mais evidente no final da obra, um tanto apressado, mas de forma geral, o trabalho do autor se mantém com qualidade e entrega uma trama interessante e cheia de personalidade, que vale muito a leitura e consegue conquistar o seu espaço dentro do gênero.

Onde a obra se sobressai é na construção de seu universo. Wytches traz uma representação muito interessante o original das bruxas. Na obra, elas não são mulheres ou homens que trabalham com magia negra, mas criaturas bestiais e primordiais que vivem nas florestas, tanto predando a humanidade quanto se relacionando com os homens. As bruxas não possuem nenhuma habilidade sobrenatural aparente, por elas mesmas, sendo apenas criaturas monstruosas. No entanto, podem conceder desejos aos homens, desde que eles “jurem” uma pessoa, que poderá ser perseguida e devorada pelas bruxas. Isso faz com que comunidades inteiras tenham um relacionamento pervertido com as criaturas. No fim das contas, as bruxas podem devorar criancinhas, mas são os humanos que lhes dão a permissão para matarem os seus semelhantes.

Mas essa mudança no mito das bruxas não quer dizer que todas as suas lendas são jogadas para o alto. Apesar de funcionarem como um misto de vampiro e fada – na encarnação feérica mais maligna – Snyder utiliza vários elementos das histórias de bruxa, como os caldeirões, os acordos, as casas de gengibre e outros elementos do reportório dessa fábula, só que adaptados à sua visão particular dessas bruxas bestiais. A figura do queima-tocas, um caçador de bruxas tem uma participação pequena na obra, mas bem intrigante, ajudando a formular uma mitologia completa que pode muito bem ser usada em histórias maiores. Não atoa, os direitos para realização de filmes de Wytches já foi adquirido. Mas talvez a obra fosse realmente bem utilizada em uma série.

Se é possível apontar algumas questões negativas no roteiro de Snyder, o mesmo não acontece com a arte de Jock. Os traços do desenhista funcionam muito bem á história, e ele tem uma sinergia imensa com o roteiro. Jock consegue dar um estilo bastante característico á obra, e tanto os personagens quanto o cenário estão muito bons dentro do todo, com a sequencia de quadros conseguindo criar a narrativa e o suspense muito bem. Mas quem realmente se sobressai é Matt Hollingsworth. Numa obra de terror, as cores são essenciais para se passar o clima e o tom da história, mas o trabalho do colorista vai muito além das expectativas, entregando algo realmente único e que fica fantástico nas páginas de Wytches. Por pior que fosse a trama, só as cores de Hollingsworth já conseguiriam fazer a obra valer a pena.

Wytches é uma das primeiras publicações da DarkSide no campo dos quadrinhos (acompanhada por Meu Amigo Dahmer e Fragmentos do Horror, obra do mangaká Junji Ito), e é uma preocupação válida quanto ao trabalho editorial que a revista poderia receber. Felizmente, a DarkSide acerta bastante no seu tratamento com a revista, entregando um produto que não deve em nada para editoras mais experientes no meio dos quadrinhos. Buscando o terror – sua linha editorial – a editora mostra que está mais atrás de obras boas dentro do tema do que se limitar a estilos. Logo de início, seu catálogo já conta com uma HQ americana, um mangá e uma obra de cunho mais jornalístico, sendo, portanto, interessante se, no futuro, figurasse também algo do mercado europeu no seu selo de Graphic Novels.



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