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Em abril chega aos cinemas o mais novo filme da DC, Shazam!, dirigido por David Sandberg e estrelando Zachary Levi e o jovem Asher Angel. E de acordo com tudo que vimos até aqui, em trailers e materiais promocionais, fica bem claro que sua maior influência será a encarnação do personagem nos Novos 52 – que contou com roteiro de Geoff Johns e arte de Gary Frank.

O que mais reforça isso é a escolha de elenco, já que podemos claramente ver que todos os coadjuvantes que fazem parte da HQ do personagem nos Novos 52 estarão presentes no filme.

Mas afinal, quais são as principais diferenças entre o Capitão Marvel original e sua reformulação de 2011 (onde passou a ser chamado oficial e definitivamente de Shazam)?

Para isso é necessário voltar a 1940, em plena Era de Ouro dos quadrinhos, quando o personagem foi criado na segunda edição da revista Whiz Comics, da editora Fawcet, por Bill Parker e Charles Clarence Beck. Apenas dois anos depois do primeiro super-herói ter aberto caminho: o Superman.

A trama, diferente de outros quadrinhos de super-heróis da época, é recheada de elementos mágicos. Somos apresentados a Billy Batson, um jovem que trabalha como repórter de rádio e é escolhido pelo Mago Shazam, devido à sua bondade interior, para ser o campeão da paz e da justiça.

Durante algum tempo o personagem foi um verdadeiro sucesso, vendendo muito mais do que o próprio Homem de Aço. O que fez com que a DC, que  se chamava National Comics na época, entrasse com uma ação judicial acusando o personagem da Fawcett de plágio. Após um longo período sem ser publicado, o Capitão Marvel retornou na década de 70, agora pela própria DC, e mais tarde foi inserido dentro da cronologia dos outros personagens da editora após a reformulação Crise nas Infinitas Terras nos anos 80.

O problema é que o personagem nunca conseguiu ser levado a sério ou se destacar o suficiente, principalmente por que suas histórias continuaram tendo o mesmo tom infantil, simplório e inocente que o definiram nos anos 40. Só que agora, em uma época onde o que estava extremamente popular nos quadrinhos eram temas mais adultos e a desconstrução dos personagens.

Uma nova tentativa de reformulação foi realizada na década de 90, agora por Jerry Ordway, que foi um pouco mais bem sucedida, durando 40 edições. Hoje, é uma das versões favoritas dos fãs, mas a verdade é que o que Ordway fez foi mais uma homenagem a tudo que já havia sido feito com o personagem do que de fato uma reconstrução que o tornasse atualizado para uma nova geração de leitores. Mas em defesa de Ordway, a culpa foi mais do leitores do que dele, afinal era isso aqui que se consumia nos anos 90:

E então chegamos à reformulação dos Novos 52, que apesar de criticada por alguns leitores mais saudosistas, é de um ponto de vista narrativo talvez a maior contribuição para o personagem desde  sua criação na Whiz Comics. Isso por que a versão a Geoff Johns e Gary Frank brinca com conceitos hoje considerados piegas do cerne do personagem, conseguindo torná-lo muito mais relacionável e acessível.

Na trama, somos apresentados novamente a Billy Batson, o garoto que se tornará o herói. E já nas primeiras páginas, percebemos a grande sacada de Johns, na introdução do conceito que servirá como a moral da história. Isso por que, quando conhecemos Billy,ele nos passa a sensação de ser o bom e velho garoto órfão e ridiculamente bondoso das histórias originais. Aquele arquétipo de menino tão bom, que ajuda os velhinhos a atravessarem a rua, ajuda em causas sociais e é bom em todas as tarefas domésticas.

Pois é, aquele conceito de bondade que só vemos em histórias, e que no fundo nos aborrece quando é tão caricatamente exagerado, simplesmente pelo fato de sabermos que aquilo não existe. Ninguém é tão santo. E é exatamente com isso que Johns brinca, pois ele nos apresenta esse ideal de Billy para na página seguinte desconstruir todo o conceito, mostrando que o garoto na verdade é rude, desagradável e mesquinho. Mas será que ele é realmente assim?

Claro que não. Como Johns nos ensina, nada é tão preto e branco. A desconstrução do clássico personagem se faz necessária por dois motivos: primeiro para mostrar que o ideal de um personagem completamente bondoso não existe – principalmente vindo de um órfão que já apanhou tanto da vida com tão pouca idade. Isso é algo que deixa marcas na personalidade. O segundo motivo, tem a ver com o mote da trama, que envolve o Mago Shazam, uma entidade milenar que durante a história vem procurando por um humano que seja digno do título de campeão da magia. O detentor do relâmpago, que irá suceder o Mago e proteger o mundo mágico.

O encontro de Billy com o Mago é o ponto alto da HQ, com um excelente diálogo entre os dois personagens. Ao ser considerado imperfeito, como vários outros candidatos testados antes, Billy questiona o método de escolha do Mago – que busca uma pessoa boa e pura de coração, como no original – e defende seu argumento de que tal ser humano simplesmente não existe.

Como o garoto diz ao Mago, as pessoas são falhas, e por mais que tentem ser boas, sempre tem alguém que se aproveita disso para pisar em seu semelhante. Diante de tal confrontamento, o Mago percebe que esteve olhando para o lado errado e que durante todo esse tempo deveria estar procurando nas pessoas não uma utópica e ilusória “pureza de coração”, mas sim a capacidade de tentar ser bom. Procurar agir com boas intenções, mesmo perante as adversidades.

E isso é algo que o próprio universo cinematográfico da DC já nos mostrou, como o momento de reflexão e dúvida do Superman a respeito da bondade da humanidade em Batman vs Superman: A Origem da Justiça.

Esse, aliás, é um tema recorrente no filme de Zack Snyder, pois temos ainda a cena onde Bruce Wayne e Diana comentam justamente sobre o quanto a humanidade pode ser destrutiva, e o Batman faz a reflexão de que ainda existe bondade no coração dos homens.

Uma bondade que o Mago, ao parar de olhar apenas superficialmente, consegue encontrar em Billy, tornando-o então o detentor do trovão, o Shazam. E o mais interessante é que, nesta versão, mesmo adquirindo a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio, o Shazam ainda é Billy Batson.

O personagem não se afasta  para dar lugar a uma entidade perfeita que tomará todas as melhores decisões e sempre saberá o que fazer. Um dos pontos mais interessantes da caracterização do personagem por Johns é justamente essa: Billy ainda é Billy. Tornar-se o Shazam não é simplesmente a resolução de todos os seus problemas, e sim mais um passo de seu constante aprendizado. E um contraponto, que mostra que mesmo que tenha tantos poderes, ele ainda é um garoto que tem muito a crescer e evoluir. É a prerrogativa máxima de que não existe “mágica” que nos faça melhorar enquanto pessoas. É algo que vem com aprendizado.

Há algum tempo o diretor David Sandberg foi confrontado por um fã no Twitter, que incomodado ao perceber que tudo no filme está refletindo os Novos 52, disse apenas esperar que Billy “não seja um babaca no filme, como é nos quadrinhos”. Ao que Sandberg apenas respondeu: “Ele não é um babaca.”

E sim, apesar de muita gente ter interpretado a declaração de Sandberg como se ele estivesse concordando com o fã e afirmando que não usará essa versão, o que ele disse foi apenas uma constatação: Billy não é um babaca.

Se limitar à obra, se apegando a saudosismo e enxergando apenas o que quer ver, não passa de uma visão pobre, superficial e simplória da construção do personagem. O adolescente de hoje, principalmente um que vivenciou diversos traumas, não é o adolescente da década de 40. Filmes, séries e quadrinhos não possuem mais uma visão tão maniqueísta como década atrás. E no fim, Shazam se trata de um menino no corpo de um homem. Se trata de uma visão mais simples, com a responsabilidade de um adulto. Uma história de aprendizado e de confiança. E de como alguém fechado para o mundo pode novamente reencontrar a amizade e se permitir amar e ser amado.



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