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Em 24 de abril, ao estrear na HBO Max e no [adult swim], Sociedade da Virtude: A Série iniciará uma nova era para a franquia. As esquetes de comic motion tornaram-se algo maior, mais vistoso e elaborado; e mesmo com a pretensão de se consolidar como uma peça de mercado, o resultado permanece autêntico e divertido. A produção chega a um status jamais imaginado por quem assistiu ao primeiro vídeo no YouTube. O texto está menos verborrágico e a imagem ganhou mais lugar de fala. É lindo, inspirador e contagiante ver onde essa empreitada chegou.
São dez episódios costurados por uma ameaça central: o bilionário Lucas Lang Lume, interpretado por Antonio Tabet. Ele planeja dominar o mundo com sua megacorporação sombria e, para derrotá-lo, a Sociedade da Virtude precisará se unir e viajar pelo tempo e pelo multiverso, em uma história sem limites para a criatividade e o sarcasmo.

Conversei com os criadores Ian SBF e Thobias Daneluz, além de Jaime Jimenez, da Warner Bros. Discovery, justamente sobre essa escalada. O resultado é um mergulho profundo nos bastidores de um projeto que, para seus idealizadores, representa o sonho de uma vida.
“Sinto que estou no auge de tudo o que eu queria fazer profissionalmente.” — Ian SBF
Para Ian, um dos fundadores do Porta dos Fundos e diretor com cinco longas-metragens no currículo, a série animada representa um divisor de águas. “É a melhor coisa que já fiz na minha vida, a que mais me diverti fazendo“, confessa. Ele não hesita em dizer que se sente no auge profissional com este projeto.
Thobias reforça o sentimento de Ian, descrevendo o processo como uma evolução natural onde o risco foi o ingrediente principal: “Entramos em um lugar onde não sabíamos como as coisas sairiam… chegou um momento que a gente falou: ‘Cara, vamos fazer isso. Vamos arriscar’.”
De fato, há uma evolução gigantesca do material produzido anteriormente para o de agora. O melhor: isso faz parte da história. A série explora os limites do comic motion e brinca com a linguagem da animação sob o pretexto do multiverso de uma maneira impressionante. Há metalinguagem sobre IA e até um episódio inteiro no estilo das animações dos anos 80 — que você seria capaz de jurar que foi o que mais deu trabalho para a produção; no entanto, não foi.
O verdadeiro nó na produção foi o episódio cinco, que tem o estilo visual predominante da temporada. Originalmente planejado para ser o primeiro da temporada, ele passou por uma reformulação profunda após conversas com os executivos. “Ele mudou muito… ele representa a metade, então você vê que acontece muita coisa, ele meio que dita para onde a série vai“, pontua Thobias. O desafio constante dessa nova estética, segundo Ian, era manter o comic motion e fazer com que a animação ainda parecesse fluida, sem perder a essência da linguagem original do Sociedade.
A Pantera aqui não é Cor-de-Rosa, mas também não sabe o que é passar despercebida
Algo que ficou levemente diferente também foi o protagonismo da franquia. Conforme confessado pelo próprio Ian, a Majestosa foi pensada como a personagem central da série — o que faz sentido, tendo em vista que, até hoje, o vídeo dedicado à personagem de Maíra Goes é o que possui mais acessos no canal do YouTube da Sociedade da Virtude. No entanto, quem rouba os holofotes nesta temporada é a Pantera Ruiva. “Ela é a única pessoa sã no meio daquela galera… ela funciona também como um olhar mais consciente da série“, diz Thobias.
Essa personagem ganhou vida própria, em grande parte, devido a um imprevisto nas gravações de voz. Guilherme Briggs havia sido escalado originalmente para o Big Bang — o equivalente ao Superman desse universo. Porém, ao ler o roteiro, o dublador se apaixonou pela Pantera. O resultado foi tão orgânico que acabou refletindo diretamente na estrutura da série.
O Lex Luthor da vida real
E como Antonio Tabet virou o grande vilão? Para Ian, a escolha foi óbvia desde o início. “O Tabet é o Lex Luthor da vida real“, brinca. O personagem Lucas Lang Lume (com três L’s para ser melhor que o Lex original) foi desenhado por Thobias já pensando em Tabet — outrora conhecido pelo vulgo de Kibe Loco.
Além de empresário, Tabet é ator, publicitário, roteirista, apresentador e já trabalhou com dublagem. Não é como se fosse um star talent qualquer; ele é do ramo e entregou uma performance incrível, aproveitando seu lado geek para dar nuances diferentes a cada versão do personagem.
“Nosso bebê sempre será a Sociedade da Virtude.” — Ian SBF
A primeira temporada termina com um gancho enorme para novos episódios, o que levanta a pergunta: teremos mais? Jaime Jimenez, VP de Estratégia de Conteúdo e Produção Original da Warner Bros. Discovery na América Latina, condiciona o futuro da série ao engajamento do público. “Infelizmente, ainda não está confirmado, mas temos muita vontade de fazer mais. É fundamental ter uma boa performance na estreia e que os fãs engajem“, declarou.
E se o telefone de Ian e Thobias tocasse com James Gunn do outro lado da linha oferecendo um projeto no DCU: o foco seria a segunda temporada ou essa nova escalada? O próprio chefe da DC Studios já admitiu estar trabalhando em uma produção no Brasil com criadores locais.
Desafiado com a pergunta sobre o que faria diante dessa possibilidade, Ian deixou a porta aberta, acreditando ser capaz de conciliar os dois mundos. Ele admite que um convite de Gunn seria impossível de ignorar: “Se uma dessas propostas fosse para fazer algo com James Gunn? Com certeza faríamos“.
Por enquanto, o foco é consolidar Sociedade da Virtude como uma potência da animação adulta na América Latina. E, pelo que vi na tela, eles estão no caminho certo.
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Perguntas e respostas
Começo parabenizando vocês pela produção da série. A animação está em altíssimo nível. Sabemos da pressão que é produzir algo novo sobre uma franquia que já tem bastante coisa e vocês fizeram algo especial, utilizando muito bem o multiverso para brincar com diferentes tipos de animação. Pensando nesse trabalho complexo, pergunto: este é o maior trabalho da carreira de vocês?
IAN: Com certeza. É a melhor coisa que já fiz na minha vida, a que mais me diverti fazendo. Essa série é o sonho da minha vida. Sinto que estou no auge de tudo o que eu queria fazer profissionalmente.
THOBIAS: Foi um trabalho cem por cento. Entramos em um lugar onde não sabíamos como as coisas sairiam. Sabíamos o que queríamos fazer, mas foram vários desafios. Foi um processo de evolução natural; chegou um momento em que decidimos arriscar. Não tenho dúvida de que foi a experiência mais legal e incrível que já produzimos, e deu muito certo.
Qual o maior aprendizado desse novo processo e qual o episódio deu mais trabalho para fazer? Foi aquele da animação dos anos 80?
THOBIAS: Eu acho que o mais difícil foi o cinco, porque ele mudou muito e teve muitas alterações. E o primeiro também, porque ele é o piloto e dita o direcionamento para os outros. O episódio cinco é o meio da temporada, ele dita para onde a série vai depois de apresentar todo mundo.
IAN: O episódio nove (dos anos 80) não foi o mais difícil porque nós já conhecíamos aquela linguagem, crescemos vendo aquilo. Estávamos brincando de replicar algo familiar. O maior desafio de Sociedade da Virtude é como contar a história com uma linguagem de comic motion sem que pareça apenas comic motion, mantendo a identidade visual da série. Sobre o episódio cinco, ele quase foi o primeiro episódio. Tivemos muitas conversas com o Adult Swim e a HBO e repensamos muita coisa na temporada. A série ficou absurdamente melhor por causa dessa repensada no meio do caminho.
Acredito que essa reformulação fez da Pantera Ruiva uma semi-protagonista, já que ela é o fio condutor da investigação. O destaque dela tem a ver com algum fascínio que vocês têm pelo mundo de James Bond?
IAN: Eu acho a Pantera muito carismática e a voz do Guilherme Briggs a torna muito forte. Mas, curiosamente, eu vejo a série muito mais calcada na Majestosa como protagonista do que na Pantera.
THOBIAS: Eu concordo que ela chama muito a atenção. Ela abre o primeiro episódio e vai até os outros personagens. O Ian conseguiu deixá-la como a pessoa mais sã no meio daquela galera; ela funciona como um olhar mais normal e consciente da série. Se você olhar pela escalada, a Majestosa sobressai, mas por carisma, a Pantera vence. Foi algo orgânico. Um exemplo disso é que escalamos o Briggs para dublar o Big Bang — nosso Superman —, mas quando ele viu a Pantera, ele quis dublá-la porque gostou muito da personagem. Ela criou vida própria.
E o Antonio Tabet? Como ele entrou no projeto? Ele participou da criação do “Lex Luthor com três L’s?
IAN: O Tabet é o Lex Luthor da vida real. Quando pensamos em ter um equivalente ao Lex na nossa série, pensamos na personalidade dele. O Kibe (Tabet) é meu amigo de longa data e percebemos que ele encaixava perfeitamente. O Thobias bolou o visual e ficou perfeito. Coloquei três L’s no nome porque queria que ele fosse melhor que o Lex Luthor, que só tem dois. Lucas Lang Lume.
THOBIAS: O Tabet é um grandíssimo dublador e o resultado ficou perfeito. Muitas vezes star talents não têm a qualidade de um profissional, mas ele tem de sobra. Como temos várias versões do personagem, ele trouxe algo diferente para cada uma, o que é muito legal de assistir.
IAN: Além disso — não sei se as pessoas sabem —, mas ele é muito nerd, o que ajuda muito.
A segunda temporada está confirmada, não é gente?
JAIME: Infelizmente, ainda não está confirmada. Mas temos muita vontade de fazer mais. É importante ter uma boa performance na estreia e que o público engaje. Criativamente, a parceria com o Ian e o Tobias é ótima e confiamos que vai dar certo.
Existem rumores sobre investimentos em produções internacionais com criadores locais no Brasil, Japão e Coreia do Sul. Se o James Gunn convidasse vocês para focar em um projeto da DC, como uma série da Fogo ou uma reinterpretação de herói brasileiro, vocês aceitariam ou o foco total é na marca Sociedade da Virtude?
IAN: Obviamente, se alguém chegasse com uma proposta dessas, pensaríamos muito. Temos planos para uma segunda e terceira temporada de Sociedade, mas também temos outros projetos para apresentar ao Adult Swim e HBO Max. Se um desses projetos fosse com o James Gunn, com certeza faríamos. Mas nosso foco principal, nosso bebê, sempre será a Sociedade da Virtude.
Jaime sabe algo sobre esse projeto da DC Studios no Brasil?
JAIME: Não estou sabendo, não. É fato que o Brasil é um dos nossos mercados internacionais mais importantes, mas as diretrizes nesse âmbito mudam com frequência e envolvem níveis de confidencialidade aos quais ainda não tenho acesso. De todo modo, a expansão internacional é um pilar fundamental da nossa estratégia global. Dentro desse contexto, o Brasil se destaca como um dos maiores mercados, o que justifica nosso foco em parcerias com times tão talentosos e o desejo de colaborar cada vez mais.