Quando o Amazon Prime Video lançou a série de The Boys, vários personagens importantes dos quadrinhos ficaram de fora. Mas aos poucos, os produtores vem inserindo adaptações desses personagens, como é o caso da Lenda.
Um importante personagem na trama de Garth Ennis, a Lenda aparece em “The Boys” desde a sétima edição, sendo o cara que sabe absolutamente todos os podres da Vought. Na produção do Prime Video, o personagem é interpretado por Paul Reiser, e tem algumas diferenças bem relevantes em relação aos quadrinhos. No vídeo de hoje vamos cobrir a história da Lenda na HQ e como ele diverge da série.
Stan Lee

Nos quadrinhos de The Boys existem muitas paródias de super-heróis da Marvel e da DC, mas Garth Ennis foi ainda mais longe, fazendo uma paródia de um dos quadrinistas mais lendários de todos os tempos: Stan Lee. Não é a toa que esse seu personagem recebe a alcunha de “A Lenda”.
A Lenda aparece inicialmente na sétima edição dos quadrinhos de The Boys, como um velho pervertido, dono de uma comic-shop, que sabe mais do que qualquer um a respeito da Vought e de seus super-heróis. Ele é constantemente visitado por Billy Bruto quando ele precisa de informações, e é um personagem responsável por oferecer a Hughie várias informações a respeito daquele universo – servindo também como um artifício narrativo para que o leitor fique por dentro de todo o panorama.
A Lenda tem até mesmo uma frase que ele usava em seus quadrinhos quando erado editor: “Explêndiddio”, que é uma piada com o “Excelsior” que Stan Lee usava. Mas para entrarmos no trabalho da Lenda como um editor de quadrinhos e seu papel na Vought, primeiro é importante contextualizar a história da Vought.
A História da Vought

A Vought é uma empresa implacável que valoriza o lucro acima de tudo. Embora tenham uma divisão de marketing de ponta, eles estão sempre tentando economizar, e essa obsessão em poupar dinheiro ao longo dos anos quase os levou à falência devido à sua própria incapacidade de produzir produtos decentes. Um exemplo claro disso aconteceu nos primórdios da empresa, quando eles conseguiram um contrato para fazer um tipo específico de arma para soldados no Vietnã, mas cortaram custos de fabricação e as armas simplesmente não disparavam. Isso levou a um batalhão inteiro de soldados emboscados e assassinados sem poder se defenderem.
Ao longo dos anos, devido a seus produtos sempre de baixa qualidade, a empresa ganhou uma fama extremamente negativa e se tornou motivo de chacota, até formular um novo plano: super-heróis. A Vought-American conseguiu ficar em posse de uma droga criada por um cientista nazista que dava super-poderes às pessoas, chamado Composto V, e a corporação iniciou testes em humanos, gerando assim os seus primeiros super-heróis. No entanto, uma empresa com um histórico tão negativo precisava de um marketing funcional e bem específico para seu novo negócio. É aí que entra a Victory Comics.
Victory Comics

Na HQ de The Boys, as histórias em quadrinhos são extremamente importantes para a Vought, pois é a partir dessa mídia que conseguem construir o background dos seus super-heróis e torná-los vendáveis. Para isso, a Lenda ficou responsável por toda a linha editorial da Victory Comics, e cada um dos supers da Vought tinha um título próprio nos quadrinhos.
Em suas próprias palavras, as pessoas não querem a realidade, elas querem sonhos. Elas não querem que seus heróis sejam humanos e sórdidos, querem que eles sejam altruístas e perfeitos – e assim, os quadrinhos vendiam essa imagem.
Além de criar aventuras heroicas, a Victory Comics tinha também uma função de “controle de danos”. Um exemplo: se dois supers se metessem em uma briga de bar ou algo do gênero, os quadrinhos dos personagens naquela semana criariam uma trama onde os poderes de um deles ficaram fora de controle devido às maquinações de algum vilão, e por isso o outro precisou enfrentá-lo.
Os problemas começaram quando o Capitão Pátria surgiu, pois ele era muito mais destrutivo e sem escrúpulos do que qualquer outro super. A imagem pública de Pátria ficou sob responsabilidade da Lenda, o que significava que se ele destruísse em mil pedaços um super que ficou surtado, seu quadrinho precisava explicar que aquele era um vilão que se autodestruiu.
Rainha Maeve

Nos quadrinhos, a Rainha Maeve é bem diferente da série, embora ainda exista o plot de que no passado ela teve um relacionamento com o Capitão Pátria. Porém, na HQ esse romance acabou quando Pátria a deixou vendada e a enganou para dormir com o Black Noir, achando que estava com ele. Capitão Pátria ainda tirou fotos da relação e mostrou para todos os outros supers, como forma de humilhá-la. Esse acontecimento levou Maeve a se tornar depressiva e alcóolatra, ficando cada vez mais desiludida com os Sete e a Vought.
Nessa época, Maeve procurou se tornar uma informante para a CIA, especificamente para o grupo especial de controle dos supers, o “The Boys”. A Lenda foi a pessoa a quem ela procurou para conseguir esse contato, e dessa forma ele funcionava como intermediador entre Maeve e o grupo de Mallory e Billy Bruto.
Acontece que essa proximidade entre Lenda e Maeve acabou se transformando em um relacionamento amoroso, acredite se quiser. Finalmente tendo alguém que a tratava de forma decente e que se mostrava apaixonado por ela, Maeve se deixou levar e teve um breve romance com a Lenda, e os dois inclusive tiveram um filho juntos.
Galo Galante

O filho de Maeve com a Lenda também nasceu com superpoderes, e mais tarde adotou a alcunha de “Galo Galante”, fazendo parte de um grupo de super-heróis adolescentes chamado Tropa Terror. Ele tem muitas das habilidades vistas… bom, nos galos e galinhas. Ele tem garras afiadas, pode voar baixo e tem um “sensor de galinha” que o avisa do perigo.
O grupo do qual o Galo Galante faz parte está envolvido na primeira missão de Hughie com o “The Boys”, e isso acaba gerando um confronto generalizado entre as duas equipes no meio da rua. Durante a confusão, Hughie, que havia tomado uma dose de Composto V pela primeira vez momento antes e ainda não tinha controle de seus novos poderes, acabou matando o Galo Galante com um soco que atravessou seu peito.
Porém, mais tarde, Hughie descobriu que o Galo Galante ainda estava vivo. Bom… mais ou menos. Acontece que, nos quadrinhos de The Boys, Garth Ennis resolve brincar com o velho conceito das ressurreições da Marvel e da DC. Assim, o Composto V tem um elemento que pode fazer com que as funções cerebrais dos supers voltem, o que é meio que uma “ressurreição”. No entanto, eles voltam apenas com funções básicas, quase como zumbis, e a Vought os usa para algumas aparições públicas de marketing e depois os tranca para sempre.
Pois é, o Galo Galante é um desses que retornam, e o Hughie, que ainda estava traumatizado, precisa matar ele de novo. Ele recebe essa missão como um favor pessoal para a Lenda, e só mais tarde descobre que o Galo Galante era filho dele com Maeve.
Morte

Infelizmente, assim como vários dos personagens de The Boys, a Lenda não tem um final muito bom. Na reta final da HQ, quando Billy Bruto começa a eliminar todos aqueles que poderiam se mostrar como uma possível ameaça aos seus planos de acabar com todos os supers do mundo, a Lenda acaba sendo um dos alvos.
Billy invade sua residência de madrugada, deixando bem claro que está ali para eliminá-lo. Lenda tenta escapar correndo, mas um detalhe importante que esqueci de citar anteriormente é que, bem… ele não tem os dois pés. Enquanto se arrasta desesperado, a Lenda leva um tremendo chute ali onde não bate sol, e morre em meio aos seus quadrinhos.
A Lenda na série do Prime Video

Diferente dos quadrinhos, a versão da Lenda na 3ª temporada da série de The Boys não é inspirada em Stan Lee. Quem revelous isso foi o próprio criador da série de TV, Eric Kripke, que disse ao Nerdist que a versão da série é na verdade uma sátira do produtor Robert Evans.
Ele explica que na obra de Garth Ennis, os quadrinhos eram a grande mídia daquele universo, então fazia sentido que Stan Lee tivesse sido o chefão disso. Mas no mundo da série, os filmes e a televisão são a principal fonte de mídia para os super-heróis.
Robert Evans é um famoso produtor de cinema e TV dos anos 60, 70 e 80, que ficou conhecido por transformar a Paramount Pictures no maior estúdio de cinema dos EUA nesta época. Ele foi responsável pela produção de O Bebê de Rosemary, O Poderoso Chefão, Serpico e Chinatown.
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