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Quando a Netflix anunciou, no ano passado uma série baseada em The Umbrella Academy, confesso que me preocupei. Isso porque a HQ criada por Gerard Way (ex-vocalista do My Chemical Romance) com o brasileiro Gabriel Bá é, na falta de uma palavra melhor, surtada. Surtada de um jeito extremamente genial e criativo. Mas ainda assim, surtada.

Bebendo muito da influência da Patrulha do Destino de Grant Morrison (de quem Way é fã confesso), The Umbrella Academy traz os mesmos flertes com o “estranho” que o careca escocês tanto curte, mas de uma forma, digamos, mais compreensível – afinal, Morrison não é conhecido por facilitar em suas viagens.

Trazendo a história de uma superfamília completamente disfuncional, Way usa de todos os recursos narrativos que o meio dos quadrinhos possibilita, dando vida a tudo que a sua imaginação permitisse. Assim, aliado à arte de Bá, The Umbrella Academy acaba sendo não apenas conceitualmente surreal mas também extremamente gráfico. O que pode ser simplificado com apenas uma palavra: inadaptável. Ou pelo menos impossível de ser adaptado sem perder muito de sua identidade.

E é por isso que quando The Umbrella Academy chegou na última sexta-feira na Netflix e finalmente pude conferir o resultado, me considerei diante de um pequeno milagre.

Um exemplo de adaptação

A transposição de mídia que a Netflix fez com The Umbrella Academy é recheada de acertos. A HQ é graficamente muito estilosa, e isso reverbera também em seu texto – portanto uma série em live-action teria que desenvolver um estilo próprio que mantivesse essa identidade. E é isso que eles conseguem fazer.

A direção é acertada, estilizada, musical, e sempre conta com algum jogo de câmeras que torna mesmo as cenas mais simples em sequência super interessantes -ainda que as limitações de orçamento por vezes impeçam a produção de fazer algo mais arrojado. Nesses momentos a série mantém um pezinho na breguice, mas consegue disfarçar isso muito bem devido à própria natureza surtada da história. Parece que a experiência adquirida com Desventuras em Série foi muito útil aqui.

Outro grande acerto foi a maior diversidade trazida pela adaptação, quando em comparação aos quadrinhos. Afinal, a Umbrella Academy é formada por crianças especiais adotadas de vários cantos do mundo pelo excêntrico bilionário Reginald Hargreeves. Assim, não parece forçado quando a série muda a etnia de alguns dos personagens, e temos assim uma negra (Allison), um latino (Diego) e um asiático (Ben). Na verdade, acaba tornando a história muito mais crível do que no original. Algo que seu criador, Gerard Way, concorda:

“Uma das grandes melhorias em relação ao original é a grande diversidade da série. É uma das coisas que mais tenho orgulho. Deixa a história melhor. E funciona, porque todos são adotados. Hargreeves os encontrou em vários lugares do mundo. Acho maravilhoso.”

Lidando com o orçamento

Um dos motivos que me preocupavam  sobre essa adaptação era o orçamento. Como já disse, a HQ The Umbrella Academy é extremamente imaginativa e Way não mede esforços nas doses de elementos bizarros que insere na história (um dos personagens principais teve sua cabeça implantada no corpo de um GORILA MARCIANO, PELO AMOR DE DEUS!).

Porém, todas as escolhas criativas feitas na tentativa de lidar com a limitação de orçamento foram muito bem escolhidas, mantendo a essência dos personagens e da trama sem qualquer perda. Algumas, diria, acabaram gerando situações e desdobramentos superiores ao original.

Essas pequenas mudanças fizeram com que a série mantivesse a qualidade dos efeitos especiais apenas onde era estritamente necessário, evitando cometer um velho erro que vemos muitas produções cometendo hoje em dia, onde séries tentam oferecer mais do que podem e acabam passando vergonha com efeitos visuais risíveis.

Potencial

As ótimas escolhas de The Umbrella Academy entregaram um material consistente e bem adaptado, que agrada tanto os fãs do quadrinho quanto os novos fãs que nunca ouviram falar do material original. E esse bom trabalho já começa a colher seus louros.

Um bom exemplo aconteceu recentemente, quando a  Parrot Analytics, uma empresa de análise de dados que oferece números precisos sobre demanda mundial de TV, forneceu dados exclusivos sobre o sucesso da série em seu primeiro fim de semana. De acordo com o site, The Umbrella Academy é atualmente o conteúdo original digital número 1 nos Estados Unidos. A demanda cresceu exponencialmente no fim de semana, como mostrado no gráfico abaixo, que compara a série com o restante do top 10 atual.

Curiosamente, a primeira temporada de The Umbrella Academy não adapta apenas o primeiro volume, Suíte do Apocalipse, mas também pega muitos elementos do segundo, Dallas. Dessa forma, os caminhos da série da Netflix podem ser muito diferentes daqui para a frente, já que nos quadrinhos a obra possui apenas mais um volume, o terceiro, intitulado Hotel Oblivion.

Mas sendo sincero, com tudo que foi apresentado aqui, acho que The Umbrella Academy já mostrou ter potencial para seguir adiante mesmo se esgotarem o material base. A série se tornou algo novo e interessante, e particularmente, me sinto tão interessado em acompanhá-la quanto me sinto com a HQ.

Se você quer conhecer The Umbrella Academy, clique aqui.