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Não é segredo que Hollywood vive uma enorme crise de criatividade. Quando parece que tudo já foi feito, criar algo novo pode ser desafiador. A saída mais fácil e preguiçosa para contornar isso, pelo menos de um ponto de vista financeiro, é voltar ao passado.

A nostalgia vende. E como vende! Temos ouvido falar, cada vez mais, de grandes nomes reprisando papéis icônicos, em franquias que, de outra forma, não tiveram, ou não teriam, nenhum sucesso. Os reboots são coisa do passado: os revivais é que estão na moda.

Começou com os tempos da década de 80, depois um pouco com a de 90 e, agora, é principalmente com o que fazia sucesso no começo dos anos 2000.

Veja a quantidade de atores da franquia X-Men, da Fox, que estão confirmados no elenco de Vingadores: Doomsday (2026). Mas quando se olha muito para o passado, despreza-se o presente e, por extensão, o futuro: o que os novos espectadores terão de novo para sentir nostalgia daqui a 20 ou 30 anos?

Isso é um mistério, e pode muito bem vir a ser um ponto de ruptura para a indústria como a conhecemos, eventualmente. Mas não é bem disso que esse artigo trata.

A questão é que a experiência de ver um antigo ídolo retornando a um papel icônico nem sempre é mágica: muitas vezes, ela pode ser vazia, e até um pouco deprimente.

Sentimentos mistos

Uniforme do Homem-Aranha
Reprodução/Sony Pictures

Vou dar um exemplo pessoal: sempre tive enorme simpatia e carinho pelo personagem Indiana Jones.

Harrison Ford é um dos atores mais carismáticos que já passaram pela face da Terra. E a trilogia original, comandada por Steven Spielberg, é simplesmente entretenimento de primeira categoria.

Tudo bem, Spielberg tentou resgatar a franquia em 2008, com o mediano Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), que não foi lá muito bem-sucedido, mas até aquele momento ainda era uma tentativa válida, que poderia ter funcionado com um material de melhor qualidade.

Eis que, em 2023, é lançado Indiana Jones e a Relíquia do Destino, que, honestamente, provavelmente ainda é um filme melhor que o anterior.

Mas Ford já não era mais o mesmo. Com mais de 80 anos, ele obviamente não é mais capaz das acrobacias que era antes. Ele não consegue correr mais. Ele mal consegue montar em um cavalo. No geral, Ford parece ficar cansado e ofegante com o menor esforço.

E é totalmente compreensível que seja assim: afinal, estamos diante de um senhor de idade, cujos dias de astro de ação já deviam ter ficado no passado.

É bem verdade que, até certo ponto, esse é um elemento intencional do filme, que aborda como Indy lida com a sua velhice. Mas essa premissa, aqui, jamais é consistente o bastante para ser justificada na prática.

Além disso, tenho minhas dúvidas se essa evidente má vontade de Ford em fazer qualquer uma dessas coisas era mesmo algo do personagem. E de novo: ainda que fosse do ator, seria uma postura completamente compreensível de alguém com uma idade avançada.

Por falar em relutância, tenho outro ótimo exemplo pessoal. Quando vi Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) pela primeira vez no cinema, me emocionei ao ver Tobey Maguire, o Homem-Aranha da minha infância, de volta em cena.De verdade. Mas passado o hype, só consigo pensar em como Maguire claramente fez todas as suas cenas com a mesma energia e empolgação de alguém preenchendo a declaração do imposto de renda.

Gosto bem menos do Peter Parker de Andrew Garfield, mas sou obrigado a admitir que o vigor desse em cena era um contraste gritante com o de Maguire.

Além disso, também há casos em que a reprise acaba sendo agridoce por motivos externos. Por exemplo: o agora grisalho Adam Sandler claramente estava se divertindo em sua volta como Happy Gilmore no recente Um Maluco no Golfe 2 (2025).

Mas vários dos membros do elenco do original são agora falecidos, e a sequência parece fazer questão de te lembrar disso. É meio triste, se você parar para pensar, mas pelo menos nesse caso a história ainda tinha alguma substância (embora o filme, no geral, acabe sendo só mediano).

Há, ainda, o caso de Beetlejuice Beetlejuice: Os Fantasmas Ainda Se Divertem (2024), de Tim Burton, que teve resultados mistos. Michael Keaton, agora com mais de 70 anos de idade, poderia estar fazendo qualquer outra coisa na sua carreira, mas ainda tem muita energia como Beetlejuice.

Winona Ryder, por outro lado, reprisando o seu papel como Lydia, mal parecia a mesma personagem — talvez a atriz tenha esquecido que não estava no set de Stranger Things.

Casos em que a reprise funcionou

Reprodução/MGM

Obviamente, existem casos em que a reprise funcionou muito bem. Um grande exemplo é o retorno de Sylvester Stallone ao papel de Rocky Balboa em Creed: Nascido Para Lutar (2015).

Ver Stallone reprisar o papel ao qual deve toda a sua carreira, agora como um mentor, foi genuinamente emocionante. E o filme, em si, sabia exatamente o que fazer com isso.

Não à toa, Stallone recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante naquele ano, e poderia muito bem ter levado a estatueta.

Infelizmente, casos como esse são raridade, em meio a tantas “iscas de nostalgia” para marmanjos.

Fique, abaixo, com um vídeo em que Carlos Villagrán, no auge dos seus 81 anos de idade, faz uma apresentação como Quico, de Chaves. Jeito inusitado de terminar esse artigo, eu sei, mas acho que resume bem o sentimento.

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