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Depois de Ainda Estou Aqui (2024) ter dado a aguardada vitória inédita do Brasil no Oscar, e com O Agente Secreto (2025) caminhando para o mesmo destino, o cinema brasileiro está voltando ao seu lugar tradicional de protagonismo em relação ao globo.
Há muita ignorância na internet quando o assunto é cinema brasileiro, talvez em parte por culpa dos veículos de comunicação e divulgação enfatizarem pouco o fato de que o Brasil já teve muita moral nas rodas cinematográficas, principalmente entre os anos 50 e 70.
E não é que somente nesse período o Brasil produziu bons filmes. Nosso país está constantemente gerando obras interessantíssimas, que muitas pessoas deixam de assistir porque não chegam a elas ou até por puro preconceito.
Com o objetivo de desmistificar essa visão, compilei 12 filmes que, com certeza, vão mudar a sua percepção sobre o cinema brasileiro. A lista, sem ordem de preferência, surgiu espontaneamente enquanto eu escrevia e abrange diferentes épocas. E o melhor: não inclui os títulos de sempre — como Carandiru (2003), Central do Brasil (1998) ou Tropa de Elite (2007).
Os Enforcados (2025)

O pai de Valério perde a vida e ele é obrigado a voltar de Miami para o Rio de Janeiro para assumir sua herança no império do Jogo do Bicho. Afogado em dívidas familiares, ele e sua esposa planejam um golpe final para mudar de vida de uma vez por todas. Esse golpe final, no entanto, vai sendo postergado a cada crime cometido pela dupla, o que os deixa cada vez mais paranoicos e violentos.
Levemente inspirado na tragédia de Macbeth, Os Enforcados (2025) é uma divertida comédia de erros sobre o poder destrutivo da ambição, que conta com atuações diabólicas de Irandhir Santos e Leandra Leal. O longa discute profundamente a natureza do mal, mostrando que ela reside na indiferença. Um trabalho de construção de atmosfera primoroso de Fernando Coimbra (Perry Mason; Narcos; Outcast)
Na data da publicação desta matéria, é possível assistir a Os Enforcados (2025) nas plataformas digitais de compra e aluguel.
O Som ao Redor (2012)

A vida em uma rua de classe média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado após a chegada de uma empresa de segurança particular. A presença do grupo traz tranquilidade para alguns, mas provoca muita tensão para outros.
Primeiro longa-metragem do maestro do suspense Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (2012) é um profundo e angustiante ensaio sobre a arquitetura social da classe média brasileira, realizado em Recife, onde o passado agrário e colonial ainda assombra o presente urbano. Olhando de longe, você pode ter o preconceito de vê-lo como um filme parado, mas o domínio que o diretor pernambucano tem sobre os recursos do cinema faz com que essa seja uma obra completamente imersiva sobre os sentimentos de paranoia e a vulnerabilidade.
Você consegue assistir a O Som ao Redor (2012) nas principais plataformas digitais de compra e aluguel, e no Telecine.
O Assalto ao Trem Pagador (1962)

Tião Medonho lidera uma quadrilha para explodir um trem pagador e roubar os 27 milhões de cruzeiros que ele carregava. Moradores de comunidade, os assaltantes têm sucesso no assalto e decidem guardar o dinheiro para evitar suspeitas da polícia. Contudo, o peso do dinheiro intocável e o desejo de consumo testam a lealdade do grupo, expondo o trágico e insustentável contraste entre a miséria e a riqueza.
Baseado em um caso real ocorrido em 1960, o clássico O Assalto ao Trem Pagador (1962) destrincha as entranhas da sociedade brasileira sob a estética do cinema noir e faroeste urbano, expondo a luta de classes, o racismo e a miséria como forças mais destrutivas do que qualquer arma de fogo. O longa, lançado no início do Cinema Novo, chamou muita atenção por usar o popular gênero policial para fazer uma crítica profunda e dolorosa sobre a persistência do racismo e da desigualdade no Brasil.
Você consegue achar O Assalto ao Trem Pagador (1962) fácil para assistir por aí.
O Lobo Atrás da Porta (2013)

Após o sequestro de uma criança, os pais e a amante do pai são interrogados separadamente em uma delegacia. Seus depoimentos contraditórios tecem um thriller sombrio de obsessão e mentiras, que expõe o triângulo amoroso e a violência latente por trás da fachada da vida doméstica.
Primeiro longa-metragem do ótimo Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta (2013) é um thriller psicológico — e por que não noir carioca — interessantíssimo que subverte as convenções do drama policial para investigar a obsessão humana pelo desejo e a violência. O filme é um estudo implacável sobre como o instinto se sobrepõe à razão, e assim como o mais recente do diretor, Os Enforcados (2025), vai fundo na discussão sobre a natureza do mal ambientada na indiferença.
Terra em Transe (1967)

Ambientado no fictício país latino-americano de Eldorado, o filme narra em flashback a trajetória do jornalista e poeta Paulo Martins. Dividido entre o idealismo e a ação política, ele se envolve com líderes populistas e conservadores na busca por uma revolução social.
Um dos filmes mais clássicos e referenciados do Brasil no mundo, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, é um manifesto estético-político sobre a crise de poder e o ciclo vicioso do populismo na América Latina. Em sua escolha excêntrica por ser ambientado em um país fictício, levanta diversas questões atemporais sobre a manutenção das democracias mundo afora. Se você gosta de cinema, você precisa assistir a este filme ao menos uma vez na vida.
Você consegue assistir a Terra em Transe (1967) nas principais plataformas digitais de compra e aluguel e no TeleCine.
O Agente Secreto (2025)

No Brasil de 1977, um pesquisador se muda de São Paulo para o Recife buscando se reconectar com as suas raízes. O refúgio, contudo, se transforma em pesadelo quando ele descobre que uma sombra do passado está vindo à sua procura.
O Agente Secreto (2025), do maestro do suspense Kleber Mendonça Filho, é um thriller atmosférico e visualmente hipnótico, que usa a sombra da ditadura para explorar a resiliência e a teimosia do “jeitinho brasileiro“. A obra navega entre suspense, body horror, espionagem e comédia sombria, apoiando-se em referências que vão de John Carpenter a Cabra Marcado Para Morrer (1984). Este é tranquilamente um dos melhores filmes do ano.
Eu assisti O Agente Secreto (2015) no Recife em setembro, e você vai poder assistir ao filme pela primeira vez a partir de 6 de novembro, quando ele estará nos cinemas de todo o Brasil. A pré-venda de ingressos, vale ressaltar, já está em curso.
O Animal Cordial (2017)

Durante o assalto a um restaurante de classe média-alta em São Paulo, o proprietário, Inácio, tenta proteger seu negócio e clientes, mas a situação foge ao controle. Presos no local, funcionários e clientes revelam seus instintos mais selvagens, provando que a verdadeira ameaça reside no animal cordial que existe em todos nós.
Se você é fã de terror e ainda não conhece o trabalho de Gabriela Amaral Almeida, está perdendo tempo! O filme de maior sucesso dela, O Animal Cordial (2017), é um terror psicológico que funciona como uma metáfora claustrofóbica e sanguinolenta do Brasil contemporâneo. É uma experiência perturbadora que questiona o quão perto estamos de romper com a nossa civilidade.
Você consegue assistir a O Animal Cordial (2017) nas principais plataformas de compra e aluguel, e também no Globoplay.
Falsa Loura (2007)

Uma operária ambiciosa de São Paulo usa a beleza e a atitude de “falsa loura” para se destacar no ambiente hostil da fábrica e sustentar seu pai. Ela projeta seus sonhos de ascensão social na figura de um famoso cantor de rock, por quem se apaixona.
Falsa Loura (2007) é um retrato cru e poético do Brasil urbano, que abraça o brega enquanto discute sobre as ilusões da ascensão social. Rejeitando o didatismo, o filme fala sobre as máscaras que a sociedade usa para esconder suas imperfeições humanas. A obra é um lamento sobre as oportunidades negadas, e um reconhecimento do imenso esforço que a classe trabalhadora faz para manter a dignidade e encontrar um resquício de prazer em meio à dor.
Não é difícil achar Falsa Loura (2007) por aí. O filme está a um Google de distância.
A Rainha Diaba (1974)

No submundo carioca dos anos 70, uma figura negra e homossexual comanda o narcotráfico e o crime organizado com ambição e maquiagem forte. Em uma trama de lealdade e traição, a poderosa chefe precisa criar um bode expiatório para salvar seu amante da prisão.
Livremente inspirado na lenda de Madame Satã, A Rainha Diaba (1974) captura a ferocidade da vida no limite, utilizando uma figura de poder radicalmente queer do submundo do crime do Rio de Janeiro, no auge da Ditadura Militar, para lançar luz sobre as questões de desigualdade que persistem no Brasil. O filme não segue uma figura criminosa que busca redenção nem condenação moral, mas que usa o crime como meio de sobrevivência e a violência como sua moeda. Um típico thriller de vilania como Pinguim ou Breaking Bad, pelo qual você certamente paga pau.
Você consegue achar A Rainha Diaba (1974) com facilidade nas plataformas de pesquisa.
Oeste Outra Vez (2025)

No sertão de Goiás, homens rústicos e brutos se afundam na violência após serem abandonados pela mesma mulher.
Oeste Outra Vez (2025) é um faroeste contemporâneo goiano de Erico Rassi, que se estabelece como um dos grandes filmes nacionais do ano ao dissecar a masculinidade como uma “jaula invisível“, onde o orgulho impede o afeto. Em um universo arcaico e de poeira, o diretor utiliza uma atmosfera densa, em vez da violência gráfica, para expor homens aprisionados pelo silêncio.
Você consegue assistir a Oeste Outra Vez (2025) nas principais plataformas de compra e aluguel, e também no Globoplay.
Terra Estrangeira (1995)

Após a morte da mãe e o confisco da poupança no Brasil, um jovem aceita uma encomenda clandestina para financiar seu exílio em Portugal. A câmera em preto e branco segue sua jornada de desilusão pela Europa, onde ele conhece uma garçonete brasileira que está tão perdida quanto ele.
Dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, Terra Estrangeira (1995) faz um recorte muito preciso do sentimento de desamparo e desterro da geração brasileira da metade dos anos 90. Construído como um thriller neo-noir, com sombras, intrigas de contrabando e fatalismo, o filme questiona a própria ideia de nação, e aponta a busca por pertencimento como um ciclo de perdas onde a única certeza é a impossibilidade de encontrar um lar definitivo.
Você consegue assistir a Terra Estrangeira (1995) na Netflix e no Globoplay
Cabra Marcado Para Morrer (1984)

Em 1962, João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, foi assassinado em Sapé, e o cineasta Eduardo Coutinho tentou fazer um filme sobre o caso. Em 1964, no entanto, a produção foi interrompida pelo Golpe Militar, e Coutinho só conseguiu retomá-la 17 anos depois, como um documentário focado na busca pela viúva, Elizabeth Teixeira, e seus filhos, que, por uma questão de sobrevivência, foram espalhados e isolados.
Cabra Marcado Para Morrer (1984) é a obra sobre memória mais significativa já produzida pelo cinema brasileiro, que sintetiza o que é o Brasil e a resiliência de seu povo. Com uma história real que supera a fantasia dos maiores thrillers de Hollywood, o filme foca em uma verdade útil: o saudoso Eduardo Coutinho não quer provar quem são os assassinos, mas registrar a verdade dos que ficaram.
É emocionante para mim falar sobre esse filme, não apenas porque é um dos meus favoritos, mas porque ele também desempenhou um papel importante na formação do meu gosto por cinema.
Eu nasci em uma cidade chamada Guarabira, no interior da Paraíba, e por muito tempo tive a convicção de que morava “no fim do mundo“. Ao assistir Cabra pela primeira vez, sabendo do peso histórico do filme, fiquei em choque com o fato de a história se passar ao lado de casa, em Sapé-PB. Foi quando tive a convicção de que não era um “alienígena”.
Não só isso: o filme, como memória, é impactante e necessário. Eu cresci e me eduquei em Guarabira, e só vim descobrir a existência de João Pedro Teixeira, que era cidadão guarabirense, quando assisti ao filme pela primeira vez. Se não fosse Eduardo Coutinho ter vindo do Rio de Janeiro para fazer esse grande marco histórico do cinema brasileiro, talvez João Pedro não passasse de uma cova sem nome nas ruínas do tempo.
É emocionante olhar para Elizabeth Teixeira hoje, aos 100 anos, residindo em Sapé como símbolo de resistência, após ter passado décadas longe dos filhos e até ter perdido o próprio nome para salvar a própria vida, e a daqueles que amava.
Cabra Marcado Para Morrer (1984) é um acontecimento histórico do Brasil, que comprova o poder do cinema de transcender como arte. Você consegue assisti-lo nas principais plataformas digitais de compra e aluguel, no Curta! On e no Telecine.






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