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Quando James Gunn foi demitido – temporariamente – pela Disney em 2018, quem não perdeu tempo foi a Warner, que logo o contratou para encabeçar um de seus projetos com a DC. Uma jogada esperta, afinal Gunn era uma das vozes mais criativas do Universo Cinematográfico Marvel naquele momento. E a decisão se mostrou extremamente acertada, agora que o seu O Esquadrão Suicida finalmente chegou aos cinemas.

James Gunn é um cara talentoso. Ponto. E sabe, como poucos, desenvolver um filme de super-heróis. Afinal, não sejamos levianos – não é uma tarefa para qualquer um. Mesmo grandes diretores podem falhar ao tentar levar os coloridos personagens dos quadrinhos para a telona. Mas, do conceito à execução – afinal ele escreve e dirige – Gunn sabe costurar uma boa história,  desenvolver inúmeros personagens, criar situações criativas e ainda referenciar o tempo inteiro os quadrinhos originais, tudo isso sem perder a identidade pessoal que consegue imprimir em seus projetos: muito baseada em cores vibrantes, violência bizarra, humor negro e trilha sonora marcante.

Reprodução/Warner

E a classificação para maiores de idade do filme faz com que consigamos ver Gunn em seu auge. É basicamente o melhor de dois mundos, afinal temos a junção do James Gunn que promove a violência subversiva de Super (2010), e o Gunn fã de quadrinhos de Guardiões da Galáxia (2014). Artisticamente falando, vemos o diretor em sua completude dessa vez. Esse estilo, aliás, para quem não conhece o Gunn das antigas, pode acabar lembrando o de outra obra recente que também se utiliza desse artifício de criar humor com violência exagerada a partir de super-poderes bizarros: a série The Boys.

Mas enquanto a produção da Amazon parte de um caminho mais fácil, afinal adapta uma HQ que por sua vez já é uma paródia escrachada dos quadrinhos de super-heróis, O Esquadrão Suicida tem ainda um importante equilíbrio a manter, afinal precisa manter (e referenciar) o espírito clássico dos quadrinhos. Diria que, o equilíbrio de Gunn nessa linha tênue, é o que faz o filme ser tão bom. Da paleta de cores, aos subtítulos que sugerem uma divisão em capítulos  e as transições de tempo, tudo grita a linguagem dos quadrinhos. De forma natural. Funcional.

Muito dessa linguagem vem do fato de que Gunn estava dedicado a referenciar o Esquadrão Suicida do autor John Ostrander, a primeira fase da equipe nos quadrinhos e sua maior inspiração para o desenvolvimento do longa. E eu queria evitar fazer comparações com o filme de 2016, afinal isso é uma tremenda de uma covardia, mas… bem, digamos que esse é o resultado quando você se decide homenagear Ostrander ao invés de se inspirar na péssima fase dos Novos 52. E assim como a equipe clássica de Ostrander, que não tinha a menor piedade em matar personagens, aqui temos um Esquadrão Suicida que faz jus ao nome. Não vou dar spoilers, obviamente, mas tema por todos os personagens.

Afinal, por falar em personagens, todos são muito bem desenvolvidos, mesmo os que já conhecíamos, como Arlequina (Margot Robbie) e Rick Flag (Joel Kinnaman). Mas os destaques ficam mesmo com Pacificador (John Cena), Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior), Bolinha (David Dastmalchian) e principalmente o Sanguinário (Idris Elba). As relações e interações dos personagens são muito boas e críveis, mas sem a forçação de barra “nós somos uma família” do filme anterior. Droga, fiz de novo.

O Esquadrão Suicida
Reprodução/Warner

A trama do longa é simples: Amanda Waller (Viola Davis, novamente brilhante no papel) precisa enviar a sua Força Tarefa X, carinhosamente apelidada de “Esquadrão Suicida”, para a ilha de Corto Maltese, que acabou de sofrer um golpe de estado e teve seus governantes assassinados em praça pública, sendo liderados agora por um presidente extremamente anti-americano. Mas não é apenas por isso que eles vão pra lá, mas sim porque agora esse golpista político tem acesso ao “Projeto Estrela-do-Mar”, algo que envolve um perigoso alienígena e que agora pode ser direcionado para os EUA.

Fãs dos quadrinhos já sabem quem é esse alienígena desde o primeiro trailer: Starro, o Conquistador, conhecido por ser o primeiro inimigo enfrentado pela Liga da Justiça nos gibis, e responsável pela formação da equipe, em uma história escrita no longínquo ano de 1960. E sendo Gunn não apenas um fã de quadrinhos, mas também alguém obcecado com personagens obscuros e/ou bizarros, é claro que ele usaria Starro em seu filme.

Isso, aliás, era um ponto de preocupação para mim, afinal, um dos meus maiores problemas com o filme de 2016 (olha eu falando dele de novo) é o terceiro ato megalomaníaco com uma entidade super poderosa – principalmente porque considero que o Esquadrão Suicida só funciona da forma mais “pé no chão” possível. Dito isso, Gunn me surpreendeu mais uma vez aqui, onde achei que encontraria um ponto fraco. Starro funciona muito bem na trama, não traz uma quebra de tom em momento algum, e ainda por cima é o grande responsável por aqueles momentos que praticamente nos levam para as páginas dos quadrinhos e que deixam um leitor assíduo como eu com um sorriso no rosto.

Porque O Esquadrão Suicida é isso: um filme de quadrinhos que usa dos quadrinhos tanto na linguagem quanto na representação, mas sem descuidar de construir um produto que seja atrativo também para outros públicos. E esse vinha sendo um problema recorrente dos filmes da DC: ou o filme era exageradamente direcionado para o fã de quadrinhos, sem um filtro que tornasse aquilo funcional; ou era algo travestido de filme de quadrinhos, com referências jogadas a esmo, mas que no fundo tentava ser… outra coisa. Seja lá qual era a ideia ali.

Não que Gunn traga a fórmula do sucesso para  a Warner, nem que todo filme precise necessariamente seguir sua metodologia, afinal cada diretor tem sua identidade. Mas sua presença na DC é importante para que percebam a necessidade de trazer alguém que não apenas seja um bom diretor, mas que saiba realmente como fazer essa transposição de mídia de uma forma eficaz. Repito, não é todo mundo que sabe fazer um filme de quadrinhos. James Gunn sabe.

Nota 10


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