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Mais do que nunca, o noticiário de Hollywood vive um autêntico Treze x Campinense entre o cinema tradicional e o streaming — embate intensificado agora que a respeitável Warner Bros. Pictures está prestes a ser abocanhada pelo império da Netflix. Mas, para além da rivalidade, o que vemos é uma simbiose inédita: o cinema está se tornando o outdoor de luxo definitivo para as gigantes do digital.
Os cineastas de prestígio que preferem a ação ao discurso já costuram a reinvenção da sétima arte. Para estes, o streaming não é um inimigo, mas um reforço estratégico.
O erro de reduzir cinema a números

Não se pode negar que o streaming, como fator novo, tem deixado muitos especialistas do mercado cinematográfico como baratas tontas. Para quem reduz o cinema a números, há uma resistência inacreditável em aceitar que a bilheteria não é mais o único indicador de sucesso de um filme.
A indústria viveu um momento de alta inacreditável na década passada e, desde a crise sanitária de 2020, que bloqueou os cinemas, vive uma grande crise de identidade. Há emocionados que acham que os cinemas estão ficando obsoletos e vão virar vitrolas, mas o problema financeiro da indústria, na prática, não é desuso.
Hollywood nunca ganhou tanto dinheiro quanto na década de 2010 e, consequentemente, isso tornou os filmes mais caros. De 2020 para cá, as receitas caíram, mas os orçamentos continuam altos.
A era dos aliados estratégicos

A indústria tradicional, simplesmente, não consegue mais financiar projetos ambiciosos sozinha. O problema não é, necessariamente, perda de interesse do público, pois há. E é aí que o streaming entra como aliado para os nãos chorões.
Veja: Martin Scorsese, Alfonso Cuarón, David Fincher, Guillermo del Toro, Ridley Scott e Michael Mann são exemplos claros de cineastas que estão tirando proveito dessa nova realidade para tirar do papel projetos ultra-ambiciosos. O último, inclusive, acabou de aprovar na Amazon MGM um orçamento de cerca de US$ 200 milhões para produzir o arriscado Fogo Contra Fogo 2, que jamais receberia sinal verde na Warner sem a participação do streaming e a sua lógica financeira de fluxo de caixa.
O cinema como outdoor de luxo

Essa parceria entre estúdios tradicionais e gigantes do streaming oferece um alívio enorme aos criadores. F1: O Filme (2025), financiado pela Apple e distribuído pela Warner, provou ser um fenômeno. Assassinos da Lua das Flores (2023), por sua vez, não brilhou nas bilheterias, mas também não foi encarado pela Apple como um fracasso. Pelo contrário: o longa de Scorsese serviu como um outdoor potente, impulsionado pela — muitas vezes subestimada — máquina de propaganda que só os cinemas conseguem oferecer.
Assassinos da Lua das Flores (2023) é um thriller de 3h26 que custou cerca de US$ 215 milhões para ser produzido. Não foi por ser financiado por streaming que o longa não se pagou apenas com a bilheteria; ele não se pagaria em contexto algum. Se fosse financiado apenas por um estúdio tradicional, o grande assunto dos “especialistas do mercado” seria questionar a aprovação desse projeto, como se o cinema se reduzisse a números.
Veja o exemplo de Uma Batalha Após a Outra (2025): a Warner já falou mais de uma vez que está “OK” com o fato da bilheteria não cobrir os custos, pois o investimento em Paul Thomas Anderson foi feito pensando no prestígio e no longo prazo. Os “especialistas“, no entanto, seguem tentando tirar a calça pela cabeça por simplesmente não entenderem que o advento do streaming, seja por assinatura ou on demand, faz filmes ficarem vivos financeiramente por muito mais tempo.
A pobreza não está apenas na forma como a “indústria dos números” discute o financeiro, mas na sua própria contradição. Os mesmos que dizem defender os cinemas tradicionais são os que geram relatórios para fomentar a narrativa de que filmes originais só são viáveis se forem baratos.
Amigos, decidam-se: ou vocês defendem a experiência cinematográfica, ou admitem que consideram obras como Uma Batalha Após a Outra (2025) e Assassinos da Lua das Flores (2023) dispensáveis só por serem “flops de bilheteria“.
O futuro: experiência impossível de replicar

De todo modo, a produção de filmes não é o principal foco de temor da indústria. De uma forma ou de outra, os filmes vão continuar existindo; mas o que vai acontecer com os cinemas e toda a cadeia de distribuição? Terão o mesmo destino das locadoras de VHS e DVD? Pois bem, eu acho muito difícil que qualquer cenário apocalíptico se desenvolva.
O cinema é, desde a sua gênese, uma arte sobre imagem e experiência. Mais do que nunca, o streaming força os cineastas a convencerem o público a assistir a seus filmes na tela grande. Esse convencimento não é feito verbalmente, mas passa por dominar os elementos dessa arte e criar algo que é impossível de ser replicado no mesmo tom em casa.
Por tudo que é mais sagrado, não entenda o que digitei como: “Hollywood tem que focar em filmes-evento“. Trata-se de pensar o cinema em todas as suas vertentes, sem a preguiça industrial. E não são necessários orçamentos astronômicos ou tramas sofisticadas. Zona de Interesse (2023) e Premonição 6: Laços de Sangue (2025) são dois exemplos extremos de como pensar em imagem e som para criar esse tipo de filme que vende a experiência cinematográfica.
É natural que surjam preocupações, e eu sinceramente as compreendo. Mas o fato é que ninguém vence o tempo — e, nesta era tecnológica, ele corre ainda mais rápido. Ou você se adapta, ou acaba engolido. Hollywood está sentindo isso na pele, e é um alívio ver cineastas e produtores que, em vez de serem defensores do cinema cínicos, já estão fazendo o novo trabalhar pela indústria.
A esta altura, já deveria ser natural aceitar que esse é o nosso “novo normal“. Agora, a verdadeira briga é no campo da regulamentação. Pegando o Brasil como exemplo: não podemos entrar nessa história como coadjuvantes, dando subsídios a essas empresas sem receber investimentos que fortaleçam nossa própria indústria audiovisual. É nosso papel lutar para que a tecnologia sirva para impulsionar o cinema brasileiro, e não para esvaziar nossos cofres em troca de migalhas.
Atenção: Este texto é baseado inteiramente na opinião de seu autor e não necessariamente reflete a opinião do site.






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