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DUPLO EU, DE NAVIE E AUDREY LAINE

Duplo eu é um quadrinho que fala o quanto nos escondemos nos nossos vícios e o quanto esse fato acabam nos mostrando cada vez mais e nos mostrando cada vez mais frágeis através deles. Duplo eu é uma história muito bem construída, com reflexões maravilhosas e desenhos encantadores. Ela não serve para refletirmos apenas sobre distúrbios alimentares ou outros vícios, mas também sobre a forma como conduzimos nossas vidas. Duplo eu é o quadrinho de uma luta real de uma pessoa que é mais forte que uma super-heroína porque ela não decidiu enfrentar o inimigo comum, que são os outros, mas a um inimigo muito mais poderoso, que é a si mesma. O grande trunfo é que essa heroína conseguiu sair vitoriosa desse embate, não através do combate, mas abraçando o inimigo e aceitando dentro de suas possibilidades. Outro elemento que está de parabéns na edição brasileira de Duplo Eu é a bela adaptação feita pela Editora Nemo para as letras feitas pela desenhista original, incrivelmente bonitas e casando com a história. Fato essa, que temos que destacar sempre, pois editora com maior poderio econômico dispensam detalhes como esse e entregam um trabalho ruim de adaptação visual dos quadrinhos. Parabéns então para a Nemo pela escolha do título e pelo trabalho desempenhado na edição do mesmo.

UMA MORTE HORRÍVEL, DE PÉNÉLOPE BAGIEU

A parte rançosa do meio dos quadrinhos é, geralmente, seus fãs reacionários e ignorantes. Já no mundinho literário, a parte rançosa quase sempre são os autores de ego inflado. Neste quadrinho precisamente crítico, cáustico, bem humorado e esperto, uma garota sem expectativa de melhoras na vida acaba se encontrando com um autor de sucesso da literatura. Ela repara como ele têm hábitos esquisitos, como o de não sair nunca de casa. Mas ela, por ser uma garota humilde, nunca ouviu falar dele. Para ele, a influência dela é ótima, tanto que ela se torna sua musa inspiradora. Até que, depois de uma conversa com a editora do escritor, ela descobre que ele é um mega-autor de sucesso. Mas que ele está morto. Ao menos o mundo pensa assim. E, assim, ele vende milhares de livros. Este é um quadrinho que lida não só com a fama de uma perspectiva feminista, mas que também mostra como o ego de uma pessoa pode subir à sua cabeça de uma forma, que ela até renega a sua própria vida e existência em troca de fama e elogios da crítica. Fora isso, a parte gráfica da HQ, com uma paleta reduzida e traços leves e letras de mão conferem uma aura especial à Uma Morte Horrível.

PLACAS TECTÔNICAS, DE MARGAUX MOTIN

São uns desenhos tão bonitinhos, bem feitos e bem coloridos que poderiam ter saído de uma escola de animação da Disney. Mulheres que parecem princesas e homens que parecem príncipes. Mas bem reais. Talvez essa aproximação demais da realidade, de uma hiperrealidade de submergir dentro do oceano revoltoso que é a vida de Margaux Motin que me afastou dessa compilação de cartuns/tiras/quadrinhos. É a vida de uma mulher histérica – no sentido mais moderno que a palavra histérica pode assumir. É uma mulher que precisa de atenção o tempo todo e grita nos nossos ouvidos que a sua vida e seus pensamentos são mais importantes que o que a rodeia. Assumindo uma posição de que está certa o tempo todo e que não admite uma brecha para se questionar e se desconstruir – uma moda que está pegando em várias mulheres que vestem o manto do feminismo do avesso. Margaux Motin faz de um assobio uma ópera e transforma a sua vida numa clara declaração de bipolaridade. Fazer terapia ia fazer bem para suas histórias. Mas os desenhos são bem bonitinhos.



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