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O diretor mexicano Guilhermo Del Toro, chamou atenção do público e crítica desde o início de sua carreira. Com suas abordagens originais e particulares nos gêneros de fantasia e terror, deixou rapidamente seu nome na lista de grandes diretores que surgiam na modernidade, e logo teve a chance de trabalhar em grandes produções norte-americanas como a duologia Hellboy, Blade II, entre outros. Voltou então ao México para realizar aquela que seria sua obra-prima, “O Labirinto do Fauno”, e seu nome passou a ser sinônimo de qualidade.

Infelizmente, após seu ápice, o diretor entrou em uma onda de blockbusters fracos e produções medíocres, além de uma série de projetos promissores que foram prematuramente cancelados, como o “Dark Universe” da DC e a adaptação de “Nas Montanhas da Loucura” do escritor H.P Lovecraft. Sua chance de redenção veio em 2015, com sua volta ao cinema independente em “A Colina Escarlate”, e mais uma vez, para a tristeza dos fãs, o diretor entregara outro longa fraco, que para muitos significou o atestado de óbito na carreira do diretor. Eis que temos então, finalmente, um retorno de Del Toro a seu cinema genuíno em “A Forma da Água”.

No filme, acompanhamos a história de Eliza (Sally Hawkins), uma zeladora muda que trabalha em um laboratório secreto dos EUA durante o período da guerra fria e corrida espacial. Certo dia, chega ao lugar um anfíbio humanoide de origem desconhecida; sua estranheza e peculiaridades fascinam a solitária Eliza, e se tornam a semente para o florescimento de um intenso e bizarro amor.

As histórias de amor entre monstros e beldades não são novidade, desde ‘Frankenstein’ até ‘A Bela e a Fera’, o conceito já é quase um subgênero do romance e fantasia. O que difere “A Forma da Água” de outras obras é a abordagem dada pelo diretor, tanto na direção, quanto no roteiro. Na direção, Del Toro opta por um estilo lúdico que remete à um conto de fadas sombrio, sua movimentação de câmera vaga pelos cenários e locações com uma suavidade flutuante que remete muito à clássicos animados da Disney e musicais, gênero este que tem um papel essencial no desenvolvimento da protagonista. Em dicotomia à condução leve da câmera, a composição de cenário e fotografia é fria, obscura e melancólica, remetendo mais aos clássicos de monstros da Universal, ou ao expressionismo alemão, sendo ambas fontes de influência para toda a obra do diretor. A música também é composta nessa ideia de contos de fada, mas com uma pegada minimalista mais próxima do cinema francês, apesar destes toques, é uma trilha bem fraca e clichê, além de esquecível, mas não chega a atrapalhar a imersão do público.

Em questão de roteiro, Guilhermo Del Toro usa e abusa de metáforas e analogias bíblicas, filosóficas e literárias para dar mais camadas a sua história, porém esse elemento não é muito bem trabalhado na história, e fica a sensação de que o diretor só inseriu as citações para intelectualizar o filme, sem pensar se realmente era necessário ou fazia sentido. O que realmente funciona entre tudo que foi colocado por Del Toro, é a importância da água na história, e o papel exercido pelo anfíbio. O monstro criado aqui não é apenas uma figura aterrorizante como nos filmes da Universal, nem uma adorável como o E.T de Spielberg, mas sim um espelho para os personagens humanos.

Cada personagem do longa que tem contato com a criatura, vê nela um espelho de sua própria alma, e graças a decisão acertada de conceituar o filme durante os anos 60, foi possível abordar a luta pelos direitos civis que cresceu muito na época. Giles (Richard Jenkins) é um homossexual reprimido, e vê no monstro seu próprio dilema de não ser aceito na sociedade; Strickland (Michael Shannon) é um sadomasoquista violento e sociopata, e percebe na criatura a sua própria monstruosidade como ser humano. Cada personagem compõe uma forma diferente para a mesma figura, como se ele fosse a água que se espalha ao redor de cada coisa, sem ter uma forma definida, transformando-se naquilo que percorre.

O filme, apesar disso, ainda tem mais alguns problemas. Michael Shannon é um grande ator, mas aqui entrega uma performance inferior a outros trabalhos seus, não conseguindo transmitir bem toda a insanidade do personagem, e além disso, Octavia Spencer interpretando o alívio cômico do filme foi um grande desperdício de talento, além de ser um tipo de humor bem pobre, repetitivo e sem graça. Del Toro também, pela grande quantidade de personagens e arcos que quer desenvolver, acaba tirando o foco do elemento que torna o filme tão fascinante, que é o amor entre Eliza e o Anfíbio.

Apesar disso, “A Forma da Água” é um belo romance de fantasia, que representa uma grande reviravolta na carreira de um dos diretores mais interessantes da atualidade, além de uma grande reflexão a respeito do que há de humano nos monstros, e o que há de monstro nas pessoas. Nos resta apenas aguardar e torcer para que Del Toro continue nos trilhos, e volte a nos entregar obras belas, profundas e marcantes como esta.



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