Simples, esteticamente bonito, bem humorado e cativante. Esse é O Grande Hotel Budapeste, novo filme do diretor Wes Anderson, que concorre ao Oscar em nada mais nada menos que nove categorias, entre elas a de melhor filme. Baseado em textos do poeta austríaco Stefan Zweig, o filme contém toda a atmosfera já conhecida dos filmes de Anderson, com uma pegada teatral e personagens carismáticos e exagerados que mais parecem saídos de um desenho animado. Os bons são muito bons, e os malvados são realmente malvados. Não há tons de cinza. E sim muita cor.
Na história, temos uma narrativa dentro da outra. Começamos com uma menina com um livro ( justamente O Grande Hotel Budapeste) em frente à estátua do “autor” (vivido por Tom Wilkinson), muito provavelmente já falecido. Em seguida somos levados ao próprio autor na velhice, onde ele decide contar sobre como surgiu a história do Hotel Budapeste. Dessa forma, entramos mais ainda na história, indo parar em 1932 onde o autor (interpretado na juventude por Jude Law) se hospedou pela primeira vez no Hotel que dá título ao filme, conhecendo assim seu dono, Zero Moustafa (F. Murray Abraham). É quando a história entra dentro da história mais uma vez, dessa vez naquela que será a trama central do filme, que é como Zero conheceu um amigo que mudou sua vida para sempre, o concierge do Hotel Budapeste, Monsieur Gustave (Ralph Fiennes).
O jovem Zero é interpretado pelo novato Tony Revolori, que se sai muito bem na dobradinha com o M. Gustave de Ralph Fiennes. A química dos dois atores é sensacional, tornando a estranha e forte amizade entre mestre e aprendiz algo crível e cativante. Impossível não se afeiçoar à dupla e às aventuras que se metem durante o filme. É engraçado como o relacionamento dos dois é bem trabalhado, mostrando uma amizade que mistura admiração e respeito, mas que sempre deixa bem claro que Zero é o subordinado.

Ralph Fiennes entrega um personagem interessantíssimo. M. Gustave é um homem refinado e dedicado ao seu trabalho, que tem um gosto peculiar por senhoras de idade e coleciona amantes entre as ricaças idosas que se hospedam no hotel. Solitário, ele vê em Zero um discípulo, e passa a lhe ensinar tudo que sabe.
Toda a trama acontece aliás, após a morte de uma de suas amantes, Madame D. (a irreconhecível Tilda Swinton) que deixa para Gustave o valioso quadro “menino com maçã”, causando revolta entre seus filhos, principalmente em Dmitri (Adrien Brody) o afetado filho mais velho da falecida, que não aceita a partilha dos bens. Gustave e Zero então tem a brilhante ideia de roubarem o quadro, o que os coloca não apenas na mira da justiça, mas também do assassino particular de Dmitri, o frio e assustador Joplin (Willen Dafoe).
Os vilões, assim como os mocinhos, são praticamente caricaturas. Dmitri é o típico vilão rico e malvado com seus planos maquiavélicos, bigode pontudo e voz afetada, enquanto que Jopling é o estereótipo do capanga de poucas palavras e visual ameaçador, com todo o exagero proporcionado por Wes Anderson, que colocou o personagem com anéis em todos os dedos e até mesmo dentes pontudos. Tudo isso dá mais profundidade ao clima quase que ingênuo e de conto de fadas do filme, o que nem de longe é um problema, e sim algo incrível. O fato do filme aceitar e se deixar levar por esse humor honesto e caricato é que dá honestidade e verdade à história, e isso é maravilhoso.

No final das contas, diria que O Grande Hotel Budapeste nada mais é do que um filme gostoso de se ver. Não sei se tem cacife para estar concorrendo a melhor filme, em detrimento de outros que ficaram de fora como os excelentes Garota Exemplar ou O Abutre, mas de fato não é um filme esquecível. Com uma trama simples porém interessante, personagens carismáticos, um humor peculiar e ainda uma pequena dose de drama bem colocado, o longa cativa e demonstra que um bom filme não precisa necessariamente se levar a sério o tempo inteiro.
Na verdade, não saberia identificar uma categoria em especial para O Grande Hotel Budapeste. Não se encaixa em comédia, apesar de ser muito engraçado; tampouco entraria em drama, apesar de alguns momentos realmente emocionantes. Diria que esse festival de sentimentos durante o filme é que o tornam o que ele é, algo inesquecível e puro.






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