O dia 23 de abril marcou a estreia de um dos filmes mais esperados pelo público nerd em 2015. Vingadores: Era de Ultron, aguardada continuação do sucesso de 2012 que reuniu os heróis Marvel nos cinemas pela primeira vez, chegou com força total levando fãs de quadrinhos e simpatizantes a lotarem salas de cinema pelo Brasil e fazendo com o que filme já seja a maior bilheteria de estreia da Marvel no país.
Novamente dirigido por Joss Whedon, o filme traz muito da assinatura particular do diretor, algo visto no primeiro filme e cuja fórmula se repete aqui. Falarei sobre isso mais à frente no texto, mas já adianto que não é um demérito do filme de maneira alguma, e temos novamente um filme divertidíssimo e honesto, que não nega as suas origens. Vingadores: Era de Ultron é um filme de gibi com cara de gibi e que se aceita como tal, com todas as suas cores, batalhas épicas e frases de efeito feitas para qualquer nerd ter uma convulsão de felicidade na poltrona do cinema.
O filme já começa com uma incrível sequência de ação, com os Vingadores invadindo uma base secreta da Hydra em uma nação fictícia do leste europeu chamada Sokovia. A missão dos heróis é simples, recuperar o cetro que Loki utilizou no primeiro filme, e que agora está sob poder do Barão Strucker (Thomas Kretschmann). Nessa primeira cena já somos apresentados aos gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) que nesse universo cinematográfico não são mutantes, e sim humanos aprimorados geneticamente graças aos experimentos de Strucker.

É após esse evento de apresentação do filme que somos introduzidos à trama principal de verdade, que surge a partir da ideia de Tony Stark (Robert Downey Jr) em criar uma inteligência artificial capaz de proteger o nosso planeta antecipadamente de possíveis ameaças interplanetárias como a ocorrida no primeiro filme. Assim, com a ajuda de Bruce Banner (Mark Rufallo), Stark cria Ultron, uma I.A. que acaba tendo vontade própria e usa como ponto de partida para a formação de sua consciência o banco de dados do Homem de Ferro.
E o robô funciona muito bem como vilão do filme. Inicialmente criado com um protocolo para manutenção da paz, Ultron deturpa o significado de sua programação, e após uma análise extensiva de dados mundiais, chega à conclusão mecanicamente lógica de que o único modo de trazer paz para a humanidade seria sua completa extinção e reinício do zero. O vilão chega a recitar a arca de Noé em determinado momento do longa.
E sim, a versão cinematográfica de Ultron difere de sua contraparte nos quadrinhos, e sei que vai ter gente reclamando disso, porém o cenário apresentado pelo filme faz todo sentido. Pois é, Ultron é engraçado. Ele é sarcástico e tem um humor negro que em determinados momentos lembra o do seu “pai” Tony, ao contrário do robô complexado, depressivo e homicida que vemos nos quadrinhos. Acontece que nos quadrinhos Ultron foi criado por Hank Pym, utilizando seus próprio padrões mentais, e quem conhece os Vingadores de longa data sabe o quanto Pym é um cara com uma mente distorcida e complicada com um histórico que vai de depressão a múltiplas personalidades. Portanto, partindo do ponto que no filme Ultron se utiliza do banco de dados de Stark para criar uma consciência, é completamente plausível que soe exatamente como Tony, inclusive com uma visão simplória de resolver problemas.

Um dos pontos mais positivos de Era de Ultron – e que foi uma reclamação do primeiro filme – está no aprofundamento dos personagens. Todos os Vingadores são bem trabalhados, inclusive os novatos Pietro e Wanda. Porém, o mais interessante é o que foi feito com o Gavião Arqueiro, que finalmente teve o devido tratamento no roteiro e além de contar com ótimas cenas, teve inserido em seu background uma carga dramática e um peso enormes, devido a um acontecimento sensacional do filme – e que foi uma surpresa aliás – que não revelarei aqui.
Porém, o ápice do filme com certeza é o sintozóide Visão interpretado por Paul Bettany, ator que desde o primeiro filme do Homem de Ferro emprestava sua voz para a inteligência artificial particular de Tony Stark, o simpático J.A.R.V.I.S. No filme, Ultron cria um corpo com vibranium, que seria um receptáculo para sua consciência, criando vida com a Jóia da Mente (mais um das jóias do infinito apresentada no universo cinematográfico) retirada do cetro de Loki. No entanto, os Vingadores atrapalham o processo de transferência do vilão para seu recém-criado corpo, e Stark transfere J.A.R.V.I.S no lugar, dando surgimento ao Visão.
Assim como nos quadrinhos, o personagem é interessantíssimo, nos passando aquela sensação de um ser ultra-poderoso que está acima do bem e do mal, e que ao mesmo tempo transmite toda sua ingenuidade e dúvidas por meio de sua expressão e atitudes. É sensacional a cena em que os Vingadores discutem se podem confiar no personagem, e ele simplesmente levanta o martelo de Thor e o entrega a seu dono. Sim, pois é. Aquele mesmo martelo que só pode ser erguido por quem é digno do poder de Thor e bla bla bla. Fim da discussão. Cinema em peso rindo.

Como já era esperado desde os trailers, o filme realmente pega muita influência (muita mesmo) da HQ de Kurt Busiek e George Pérez, A Vingança de Ultron. Na trama imaginada por Busiek, os Vingadores estão passando por um período difícil, sufocados pela mídia devido a declarações e atuações controversas, além de problemas com novos membros pouco aceitos pelo público. Tudo já arquitetado por Ultron, que aproveita o momento de fraqueza dos heróis para atacar. O robô sequestra seu “pai” Hank Pym e ataca o pequeno país europeu da Slorenia, dizimando toda sua população com um exército de robôs e declarando que o território é seu e que aquilo é só o início.
Se na HQ Ultron domina um país fictício no leste europeu chamado Slorenia, no filme ele também domina um país fictício no leste europeu, só que dessa vez chamado de Sokovia, e com planos um pouco diferentes, já que no filme ele pretende arrancar um pedaço do país e erguê-lo o suficiente até que possa agir como um meteoro ao ser lançado de volta na Terra, dizimando toda a população do planeta. Obviamente as referências não ficam por aí, e assim como no quadrinho, vemos as constantes evoluções de Ultron, além do fato de transmitir sua consciência para um exército robótico criado à sua imagem e semelhança.
As referência visuais então, são muitas. Especialmente na batalha final, onde há uma cena praticamente retirada do capítulo 4 de A Vingança de Ultron, quando os Vingadores se veem cercados pelos robôs enquanto lutam desesperadamente.

De uma forma geral, Vingadores: Era de Ultron é um excelente filme, que não apenas faz jus ao seu antecessor, como apresenta acertos onde o outro havia errado (como a questão do desenvolvimento dos personagens). Porém, como eu disse no início do texto, o que talvez seja um problema para alguns, é o fato do diretor Joss Whedon não ter saído de sua zona de conforto, preferindo apenas repetir a mesma fórmula já utilizada anteriormente.
Pessoalmente, não acho que seja algo que tire o mérito do filme, que é perfeito enquanto uma adaptação baseada em quadrinhos, que é a sua proposta afinal. No entanto, principalmente após os sucessos de Capitão América: O Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia, que pareciam ter redefinido o padrão cinematográfico Marvel, fica uma sensação de que Whedon não ousou… ousar. O que aumenta essa experiência dentro do cinema é o fato do filme ter prometido pelos trailers algo que parecia ser mais sério, com muita tensão e até mais assustador a título de ameaça, e no final acabou entregando a mesma fórmula Marvel de sempre, mesclando aventura, ação e piadinhas.
Acredito que esse tom mais despretensioso deve mudar muito em breve, visto que esse foi o último filme sob o comando de Joss Whedon, que agora passa a responsabilidade para os irmão Joe e Anthony Russo, os diretores de Soldado Invernal. Ano que vem já teremos uma ideia de como será o tom utilizado pelos irmãos, quando estreia Capitão América: Guerra Civil, que promete colocar Steve Rogers e Tony Stark em rota de colisão devido a suas opiniões contrárias. Inclusive, diversos momentos em Era de Ultron pareceram preparar o terreno para isso, deixando bem claro que o Capitão não concorda com muitas das decisões de Stark e de seu jeito de resolver problemas. Só nos resta aguardar e esperar para ver a nova cara do universo Marvel sob o comando dos Russo, na fase três.
Ah, claro, Ainda tem o Homem-Formiga esse ano, concluindo a fase dois. Mas sinceramente, ainda não sei o que esperar desse filme.






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