Dos concorrentes a melhor filme no Oscar, Whiplash – Em Busca da Perfeição é o meu segundo favorito, perdendo apenas para Boyhood. A trama motivacional dirigida por Damien Chazelle traz uma grande homenagem ao Jazz, e acaba entregando um belíssimo filme que entretém, emociona, e ainda passa um ensinamento, tudo isso regado a boa música.
Em Whiplash, seguimos a história de Andrew Newman, interpretado pelo ator Miles Teller (o Reed Richards no novo Quarteto Fantástico), um jovem baterista que entra em uma das maiores escolas de música do país, e sonha em ser o maior músico dessa geração.
Neyman fica sabendo que o famoso e rigorosíssimo maestro Terence Fletcher (J.K. Simmons) está procurando músicos para sua banda, o conceituado Conservatório Shaffer, e se dedica a conseguir a tão sonhada vaga. Nos primeiros minutos do filme, em uma sequência genial, já temos um vislumbre do que virá pela frente, e uma leitura completa da personalidade dos dois personagens centrais do longa. O esforçado Neyman e o arrogante Fletcher.
Não demora muito e Neyman é chamado para a tão sonhada banda, e é quando os seus maiores pesadelos começam. Fletcher não é apenas arrogante e perfeccionista. Ele é abusivo, manipulador, agressivo e usa de tortura psicológica e algumas vezes até mesmo física para com seus músicos. Usando uma tática de aproximação, ele primeiro conversa com os novatos fingindo interesse em suas vidas pessoais, para fazer um jogo psicológico cruel e doentio quando eles erram. Algo que não é diferente com Neyman, que chega a chorar na bateria, no dia de seu primeiro ensaio.
J.K. Simmons ( o inesquecível J. Jonah Jameson da trilogia Homem-Aranha) que concorre ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo filme, está simplesmente perfeito no papel. Seu Fletcher é odioso, detestável eu diria, porém consegue passar a sensação de que é realmente um músico brilhante, ainda que seus métodos sejam controversos e abusivos.
O personagem acaba sendo, de longe, o mais interessante do filme. Mais até do que o protagonista. Principalmente porque toda a trama vai girar em torno dele, quando o o mundo de Neyman começa a virar de cabeça pra baixo para que ele consiga agradar seu exigente professor.

Aluno e professor possuem uma estranha relação, aliás. Em diversos momentos percebe-se que Fletcher meio que “facilita” para Neyman, como se estivesse vendo seu potencial submerso e testando-o sucessivas vezes. Isso é notório quando ele o coloca como baterista principal e depois o substitui de novo, só para que o garoto se esforce ainda mais em retomar seu posto.
Pode-se dizer inclusive que força de vontade são as palavras-chave do filme. Dessa forma, o subtítulo brasileiro “Em Busca da Perfeição” acaba sendo perfeito (ainda que muito mastigadinho para o público, como sempre), pois Neyman simplesmente esquece de toda a sua vida pessoal apenas para se dedicar sem parar à sua bateria, em busca de conseguir o timing perfeito que Fletcher tanto busca.
A música que Neyman toca sem parar enquanto suas mãos sangram? Whiplash, é claro.
O rapaz se isola, discute com a família e chega a terminar com a namorada, apenas para se dedicar 100% a se tornar perfeito. As sequências do treinamento exaustivo de Neyman são tomadas sensacionais, onde o protagonista literalmente dá seu sangue, suor e lágrimas para a bateria. Além de tratar da motivação de uma pessoa em alcançar a perfeição, o filme acaba também abordando os perigos da obsessão, e o quanto auto-cobrança e pressão podem ser destrutivos. Isso fica óbvio em determinado momento do longa, quando recebemos a informação de que um ex-aluno de Fletcher cometeu suicídio.
O fato é que, se Neyman quer se tornar o melhor músico do mundo, Fletcher tem como objetivo ser a pessoa que vai encontrar esse músico. É como se o personagem tivesse um grande buraco na sua vida, por nunca ter encontrado esse talento perfeito, e vivesse em busca desse objetivo, algo que quase justifica a sua forma de agir.

Conforme o filme se desenrola, vemos o desenvolvimento de Neyman. Não apenas como músico, mas como pessoa. Sua obsessão cega em se tornar perfeito o transforma completamente, e é aí que Fletcher percebe que aquele Neyman bonzinho foi embora. Começa um duelo sensacional entre aluno e professor, onde o garoto simplesmente já não cai mais em suas agressões psicológicas e o encara de igual pra igual.
Ao acabar o filme, o que percebemos é que Neyman e Fletcher não eram tão diferentes, afinal. Eram feitos um para o outro, na verdade. Desde o início, um era o que o outro precisava e sempre procurou, só não sabiam disso ainda. Com um pouco de atenção percebe-se que essa estranha relação entre os personagens é observada até mesmo no tom das roupas de ambos, com Fletcher sempre usando preto e Neyman com roupas claras, que vão se tornando mais escuras com o decorrer do filme.
E se J.K. Simmons brilha no longa, não podemos dizer menos de Miles Teller. A química entre os dois atores é incrível e Teller realmente convence no papel do garoto que começa introspectivo mas que se torna obsessivo e chega ao ponto de encarar seu professor de igual pra igual. Ao final ( e que final incrível!) o filme deixa um ensinamento. É aquele tipo de filme onde há uma moral, e você tira um aprendizado. Aprendemos que qualquer obsessão pode ser perigosa e destrutiva, e que esse não é o caminho a se seguir, mas também aprendemos que com força de vontade e paixão pelo que se faz, pode-se chegar a qualquer lugar.






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