Crisol: Theater of Idols é um game desenvolvido pela Vermila Studios, um estúdio espanhol apresentando seu primeiro projeto, definido pelos próprios desenvolvedores como “um jogo que condensa ação, terror e aventura” em primeira pessoa. No entanto, fica óbvio que o foco é realmente o survivor horror.
O game nos convida a explorar as profundezas macabras de Tormentosa, uma cidade misteriosa escondida nas regiões sombrias de Hispania. E sim, como os nomes já deixam claro, essa história sombria é inspirada no folclore espanhol.
Esse tom combina muito com a publisher do game, que é o nome famoso aqui na equação. Afinal, Crisol: Theater of Idols é publicado pela Blumhouse Games, estúdio criado em 2023 pela Blumhouse Productions, a famosa produtora americana especializada em filmes de terror e suspense de baixo orçamento, que ficou conhecida por sucessos como Atividade Paranormal, A Entidade, Corra!, Fragmentado, e por aí vai.

As influências de Crisol: Theater of Idols são evidentes, sendo Resident Evil 4 a comparação inevitável, sobretudo pela conexão com a Espanha e pelo ritmo de exploração. Você atravessa ruas estreitas, entra em estabelecimentos abandonados, procura recursos e ferramentas para destravar progresso, naquele modelo bem conhecido de survival horror moderno.
Já Resident Evil Village aparece no tom mais gótico e na sensação de estar preso em um lugar culturalmente marcado por religião e folclore, só que distorcido em algo hostil. Tormentosa é um local recheado de castelos e mansões, algo que lembra muito o título da Capcom, especialmente no primeiro terço do jogo, onde exploramos o Castelo Dimitrescu.
E por falar em Tormentosa, a narrativa coloca o jogador no papel de Gabriel Escudero, uma espécie de agente religioso do Deus Sol, enviado ao local para investigar a corrupção que tomou conta do local, tornando-o herético aos olhos de seus Deus.
O jogo trabalha bem a ideia do “sagrado corrompido”, com inimigos que parecem derivados desse mesmo conceito. Os principais inimigos são estátuas, geralmente de aspecto religioso ou com simbolismos pagãos, que trazem uma constante sensação de desconforto, muitas vezes com semblantes sorridentes.
E aí entra Dolores, a perseguidora (como em todo bom survivor horror). A ideia funciona bem no conceito: uma ameaça constante, que força decisões rápidas e aumenta o risco. O problema é que, em alguns trechos, a perseguição perde impacto quando vira um comportamento mais previsível, com o jogador esperando escondido até ela sair da área. Se essas seções fossem refinadas, Dolores teria potencial para ser um dos elementos mais fortes do jogo.
Honestamente, não dá para dizer que Crisol: Theater of Idols é um jogo original. Por mais que claramente tenhamos um esforço nessa direção, os desenvolvedores não conseguiram criar uma identidade própria, ficando presos na inevitável comparação com Resident Evil. E nesse tipo de projeto, esse acaba sendo um grande problema, pois sempre vai existir a comparação constante com algo que foi feito antes (e melhor).
Desenvolvido na Unreal Engine 5, o game traz cenários repetitivos e pouco imaginativos, algo que só piora com a exploração simplória. O mapa também não ajuda em nada, já que os objetivos não são bem definidos. Isso sem contar a constante e irritante insistência dos desenvolvedores em marcar absolutamente todos os locais onde você precisa passar no jogo, com a famigerada “tinta amarela”. Sério, há um exagero tão grande disso que chega a parecer alguma espécie de piada. Até mesmo uma única janela, em um quarto fechado com apenas essa saída, recebe uma demão de tinta só para você ter certeza que o caminho é por ali mesmo.
De forma geral, pode-se dizer que o ponto mais forte de Crisol: Theater of Idols está no seu sistema de combate. Quer dizer, não no combate em si, mas na forma como ele se apresenta. É utilizada aqui uma justificativa narrativa para a mecânica (o que é sempre muito bem vindo), utilizando o sangue do protagonista. Literalmente.
Aqui, seu sangue é vida e munição ao mesmo tempo. Recarregar não é uma ação neutra: as armas usam agulhas e espinhos que extraem sangue do protagonista para manter os disparos, e isso muda a forma como você joga. Cada tiro importa mais, e cada erro tem impacto imediato, porque a punição é direta. É preciso gerenciar com muito cuidado para equilibrar a quantidade de munição e o seu nível de sangue.
A lógica de recursos também é bem amarrada. Itens de cura existem (como seringas de sangue), mas eles não funcionam só como “cura”. Eles participam da economia do combate, porque manter a vida alta também sustenta sua capacidade de continuar sendo ofensivo. Além disso, o jogo incentiva o jogador a drenar sangue de corpos no cenário para recuperar recursos e manter o ciclo de sobrevivência, o que reforça a proposta mais macabra do universo.
Os inimigos tem uma movimentação trôpega, as vezes desviando inevitavelmente do seu disparo, e em outras avançando e encurtando a distância em poucos passos. Nesse momentos, há a opção de usar a faca, que embora não precise usar o sangue do protagonista para funcionar, perde a lâmina com relativo pouco uso. Existem elementos no cenário que podem ser utilizados para afiá-la novamente.
De uma forma geral, embora pouco original, Crisol: Theater of Idols mostra que há potencial na Vermila Studios. Apesar dos problemas, o game diverte em várias seções, e o senso de horror e sobrevivência é bem dosado. Torço para que o estúdio aprenda com o feedback de seu primeiro projeto e nos surpreenda em jogos futuros.
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- Desenvolvedora: Vermila Studios
- Publisher: Blumhouse Games
- Plataformas: PlayStation 5, XBox Series X|S e PC
- Review feito no: PlayStation 5
- - Mecânica de munição e sangue criativa
- - Senso de terror em boa medida
- - Falta de identidade
- - Marcações de tinta amarela o tempo inteiro
- - Cenários repetitivos com exploração simplória